Caixa 'Anos 70' reúne quatro álbuns de Jards Macalé

Projeto, do selo Discobertas, traz série de registros em voz e violão inéditos. Uma das raridades é parceria com Paulinho da Viola

por Kiko Ferreira 03/10/2016 08:50

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Geraldo Rocha/reprodução
Waly Salomão e Jards Macalé nos anos 1970 (foto: Geraldo Rocha/reprodução)
Jards Macalé faz parte de um grupo de grandes compositores brasileiros que, apesar da qualidade e originalidade de suas obras, eram classificados como malditos nos anos 1960/1970. Ele, mais Walter Franco, Jorge Mautner, Sérgio Sampaio, Tom Zé e, de certo modo, Luiz Melodia, agradavam a quem esperava ousadia e experimentação. Não tinham grande público, mas se mantinham graças ao chamado público universitário, que hoje serve para rotular música comercial de má qualidade.


Anos 70 é uma  caixa de quatro CDs em que o selo Discobertas, do incansável pesquisador e produtor Marcelo Fróes, recupera dois álbuns emblemáticos da carreira do músico, cantor, compositor e arranjador carioca e ainda apresenta dois volumes de gravações inéditas, garimpadas por Fróes no arquivo pessoal do artista. Jards Macalé, LP de 1972, foi feito e lançado pouco depois da temporada que ele passou em Londres com Caetano e Gil e do trabalho primoroso no álbum Transa, de Caetano, gravado na capital inglesa com seu fundamental auxílio. Aprender a nadar, de 1974, compete com Contrastes, de 1977, como seu trabalho mais bem produzido, variado e ousado. Os dois volumes, batizados de Raro & inédito, trazem 24 registros inéditos de voz e violão, de esboços, ensaios, rascunhos e tentativas de estruturar composições. Algumas concluídas e gravadas mais tarde, outras abandonadas até a garimpagem do pesquisador.

Interpretadas pelo power trio formado pelo violão de Macalé, mais a bateria de Tutti Moreno e a guitarra de Lanny Gordin, as nove faixas do disco de 1972 estão cravadas na memória dos fãs. A maioria, como Vapor barato (gravada também por Gal, O Rappa e outros), Movimento dos barcos (registrada em versão econômica por Bethânia), Mal secreto e Hotel das estrelas, está na lista de melhores do songbook de Macalé. E seu medley com Farrapo humano, de Melodia, e A morte, de Gil, é antológico. Nesta edição estão três faixas bônus, gravadas ao vivo: Movimento dos barcos (tirada do LP Phono 73), Rua Real Grandeza e Anjo exterminado (do projeto especial Banquete dos mendigos, de 1973).

Álbum que apresenta a morbeza (junção de morbidez e beleza) romântica, inventada por Macalé e pelo poeta e letrista Wally Salomão, Aprender a nadar soa como superprodução. Da relação de 22 músicos que participaram das gravações estão nomes como Wagner Tiso, Robertinho Silva, Perinho Albuquerque e Ion Muniz, além do regional do violonista Canhoto. Como um filme de Glauber, o álbum é uma sucessão de boas surpresas.

Apesar de o ótimo compositor estar presente, com obras do nível Rua real grandeza, Anjo exterminado e Dona do castelo, é o intérprete que sobressai, dando unidade a um repertório eclético que vai de Gordurinha (Orora analfabaeta) a Miguel Gustavo (E daí ...?), com direito a Valzinho e Orestes Barbosa (Imagens), Herivelto Martins/Waldemar Gomes (Dois corações) e Paulo da Portela (Pam pam pam), além do delicioso Mambo da Cantareira (Barbosa da Silva/Eloide Warthon). Desta vez, o bônus vem de fitas demo de Boneca semiótica, Anjo exterminado, Senhor dos sábados, Dona do castelo e Rua Real Grandeza.

Nos encartes dos dois volumes de raridades está um texto do próprio Macalé confessando ter relutado em revelar ao público os rascunhos de músicas que saíram das fitas K7 dos anos 1970. “Me surpreendi com o violão que imprimi na época”, confessa Macao, “com as levadas rítmicas e harmônicas naquele momento. Gostei.” Como diria Caetano, as gravações apresentam o autor nu com a sua música. E essa possiblidade de ouvir um artista em pleno processo de criação é preciosa.

A maior curiosidade fica por conta de uma parceria inédita com Paulinho da Viola. “Em 1976, li na revista Anima um poema de Paulinho da Viola intitulado Crotalus Terrificus e musiquei-o”, revela Macalé. “Quando mostrei a Paulinho logo depois, ele me disse que já havia sido musicado por Arrigo Barnabé.” A música conhecida está no disco Tubarões voadores, de Barnabé. E agora vem à luz a melodia que, até agora, só os parceiros conheciam.

Entre temas divididos com os letristas Fausto Nilo, Abel Silva, Vinícius de Moraes, Capinam e Torquato Neto estão poemas musicados de Ezra Pound, Gregório de Matos e Brecht e releituras de Nelson Cavaquinho (Cuidado com a outra), Lupicínio (Um favor) e Custódio Mesquita (Saia do caminho). E fotos do arquivo pessoal que tornam a caixa ainda mais atraente. Um conjunto de preciosidades para quem conhece e para quem se dispõe a conhecer a obra e o talento de Jards Anet da Silva, o mais polivalente dos malditos da música brasileira.

Anos 70
. De Jards Macalé
. Selo: Discobertas
. Preço médio: R$ 100

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE MÚSICA