´Ninguém estendeu o tapete vermelho pra mim`

Filipe Catto, que faz seu primeiro show ao ar livre em BH nesta sexta, diz que a música foi o lugar que encontrou para se defender da 'violência homofóbica'

por Redação EM Cultura 09/09/2016 08:00

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Gal Oppido/divulgacao
(foto: Gal Oppido/divulgacao )
Não é a primeira vez que Filipe Catto vem a Belo Horizonte. O músico gaúcho já se apresentou no Palácio das Artes, em 2015, e, no CCBB, no mês passado, quando, ao lado de Simone Mazzer, prestou tributo a Gonzaguinha. Agora ele está de volta, mas é tudo diferente. Nesta sexta (9/9)Filipe Catto fará pela primeira vez um show aberto na capital mineira. Na praça Diogo de Vasconcelos, na Savassi, o cantor apresenta o show de seu mais recente álbum, Tomada (Natura Musical, 2015).

“Tenho ido tanto a BH que estou pensando em comprar um apartamento”, comenta, bem-humorado, Catto. O fato de o show de apresentação de seu novo disco ocorrer em um espaço aberto não poderia vir mais a calhar. “Estou amando que o Tomada vai ser show aberto. Claro, ele funciona muito bem em teatro. Mas foi pensado para festivais. Tem essa pegada de outdoors. Por isso, vai ser um tesão apresentar o disco da melhor forma possível.”

Sua voz aguda visita a ambiguidade sonora de nomes como o britânico David Bowie ou o brasileiro Ney Matogrosso. Em Tomada, o cantor, compositor e violonista é também um intérprete que se senta à mesa para recriar obras consagradas. Ao cantar Amor mais que discreto, música de Caetano Veloso, Filipe Catto imprime sua personalidade. Revisitada, a composição torna-se particular na voz de Catto. “Eu achei uma forma tão linda do Caetano falar sobre um casal homoafetivo que não podia deixar de cantar essa música”, diz.

O artista explica que, nas regravações, tentou trazer as músicas para 2016. É o caso de uma preciosidade desconhecida: Do fundo do coração, gravada originalmente pela Gang 90, agora se torna mais conhecida na voz de Catto. A música, ele explica, diz muito da relação que ele tem com a noite. “Gosto de cantar, sabe? Então, esses filhos adotivos são tão filhos como os de sangue”, metaforiza, para explicar sua relação com o autoral e as reinterpretações.

Tomada também tem composições autorais, como é o caso da primeira faixa, Dias e noites. Entre as parcerias estão nomes destacados no cenário da MPB, como Paulinho Moska, Marina Lima e Pedro Luís.

Influenciado pela obra de artistas como Cássia Eller, o disco é o segundo de estúdio do artista. Antes, Catto gravou Fôlego (2011), com o selo da Universal. Também integram sua discografia o EP Saga (2009) e o CD e DVD Entre cabelos, olhos e furacões, gravados ao vivo.

Diferentemente de seus antecessores, o novo álbum transita mais pelo pop. Filipe Catto define o trabalho como um “recorte mais contemporâneo de tudo que fiz até agora. O rock sempre esteve no meu trabalho. O Tomada é um show em que o pop e rock são a linha de costura.”

Mas não é só. O disco também tem muito de político. “Não é uma questão partidária. É uma questão de comportamento. O comportamento hoje é político. O corpo é, a voz é política”, afirma. Tomada é também parte de sua luta contra o pensamento binário. “O Brasil é trans. O Brasil é trans tudo. É uma mistura de tudo, o sectarismo não combina com a alma do brasileiro.”

Essa miscelânea do ser Brasil também está na música, defende. “Às vezes parece que a gente esqueceu o quão múltiplo pode ser o intérprete. Cássia Eller, por exemplo, foi de manguebeat ao rock, passando pela MPB, samba e até rap. Essa falta de limites me interessa.” É referindo-se a Cássia que Catto fala sobre o poder político do corpo. “A Cássia era uma figura tão masculina e, de repente, apareceu grávida. Aquilo, por si só, já era um escândalo.”

Do início dos anos 1990 para a segunda metade da década de 2010, o estranhamento não é diferente. A prova disso é o próprio Filipe Catto. “Ninguém estendeu o tapete vermelho para eu entrar. Levei muita porrada até chegar aqui e a música é o lugar onde eu pude me defender da violência homofóbica, da violência de classe”, desabafa.

Foi na música que Catto encontrou a dignidade. “Foi aí que consegui levantar a cabeça e dizer quem eu sou. Tive que ser muito resistente para não virar uma caricatura. As pessoas ficavam loucas para me estereotipar. Tomada veio para jogar uma bomba nisso. Sou uma coisa híbrida, não consigo me definir em um só lugar na música.”

No show de hoje não devem ficar de fora sucessos como Adoração e Saga. A apresentação faz parte do projeto Som Clube, que é realizado desde 2001 em Belo Horizonte. Maria Alice Martins, curadora e idealizadora do projeto musical, explica que a escolha da praça da Savassi se deu por ser um dos locais “de maior movimento de formadores de opinião, músicos, jornalistas, escritores, artistas plásticos, arquitetos, donos de livrarias, estudantes e todos os que passam pela Savassi no horário do rush, às seis e meia da tarde das sextas-feiras”.

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