Cantora e compositora Fortuna faz tributo ao mito Branca Dias

Artista canta a saga dos judeus obrigados a fugir da Península Ibérica

por Kiko Ferreira 06/09/2016 09:12

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A personagem Branca Dias é o símbolo da luta contra a opressão e a injustiça em um clássico de Dias Gomes, a peça O Santo Ofício. Escrita e montada originalmente nos anos 1960, em plena ditadura militar, ela ganhou várias versões.

 

A de 1976, com Flávio Rangel na direção, trazia uma das mais pungentes canções brasileiras: Branca Dias, composta pelo carioca (e filho de pernambucano) Edu Lobo e o mineiro Cacaso.

Gal Oppido/divulgação
'Novos mares - Alepo - Sefarad - Olinda', é o mais recente trabalho de Fortuna (foto: Gal Oppido/divulgação)
 

Foi gravada por Edu, no disco Camaleão, e por Nana Caymmi em Renascer – uma das mais pungentes e emocionantes interpretações da MPB.

Agora, 40 anos depois, a personagem serve de ponto de partida para Novos mares – Alepo – Sefarad – Olinda, o mais recente trabalho de Fortuna. Depois de parcerias com o poeta Paulo Leminski, nos anos 1980, a cantora paulista voltou de uma viagem a Israel e passou a se dedicar, desde 1991, a revirar suas raízes judaicas e suas conexões com o mundo e o Brasil.

Partindo da história de Branca, Fortuna construiu 12 músicas. Sefaradita perseguida no século 18 pela Inquisição, ela fugiu da Península Ibérica para Pernambuco. Tornou-se um símbolo – a ponto de o crítico de teatro Macksen Luiz classificá-la de “Joana D’Arc nordestina”.

 

Fortuna amplia a função de apenas intérprete para assumir a autoria de cinco faixas. Procura traçar o percurso dos judeus orientais que saíram de Alepo, na Síria, cantando em árabe, hebraico e francês. Ancora em Sefarad (Espanha e Portugal) para chegar a Pernambuco, no início de nossa colonização.

Selo Sesc/Divulgação
(foto: Selo Sesc/Divulgação)
 

E faz um paralelo com a história do próprio pai, nascido em Alepo, que veio para o Brasil. Também usa referências musicais da própria infância.

RAÍZES
Num dos textos de apresentação do CD, o rabino Nilton Bonder diz, com precisão, que Fortuna “usa suas raízes como um convite ao outro, num sincretismo entre passado e presente e entre cultura brasileira e judaica”.

 

E arremata: “Neste trançado entre Olinda e Alepo e entre a heroína do Brasil colonial em embate com o Santo Ofício e a cantora que desafia a alienação cultural, surge este trabalho encantador e universal”.

A principal matéria-prima dos temas de Novos mares... é o cotidiano e a busca do amor e do sagrado. Canções de amor das tradições turca e síria (Ahya zein e Mon amour), exaltação a Jesus vinda do canto gregoriano (Puer natus), cântico da tradição judaica (Shemá koli), canto de paz entre as religiões (Dona nobis pacem, com melodia atribuída a Mozart) e cenas e diálogos do cotidiano (La comida la manyana) convivem com o lamento dos judeus obrigados a deixar suas casas na Espanha (Suenyos d’Espanya) e com o tema sefaradi entre a mãe espanhola e a filha que vai em busca do amado (Ija mia).

No final, A la mar é uma canção sobre a diáspora sefaradi pelos mares e Branca Dias, parceria de Fortuna com Leo Cunha e o coprodutor musical Gabriel Levy, chama a heroína que inspirou Dias Gomes a cirandar e brincar pelas espumas do mar.

    
NOVOS MARES
De Fortuna
Selo Sesc, R$ 20
www.sescsp.org.br/livraria

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