Cachorro Grande polemiza com música 'Electromod', que critica militância de esquerda

Faixa integra oitavo álbum de estúdio da banda gaúcha, que se diz 'anarquista'. Canção foi compartilhada por movimento de direita, dividindo fãs

por Pedro Galvão 22/08/2016 08:48

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Muto/Divulgação
(foto: Muto/Divulgação)
Sabe aquele assunto que muita gente tem evitado tocar no almoço da família, no ambiente de trabalho ou na roda de amigos nesses tempos de bipolaridade ideológica tão acentuada, consequente do furacão político que está passando pelo Brasil? Em Electromod, faixa que dá nome ao seu recém-lançado álbum, os gaúchos “da” Cachorro Grande, como dizem no Sul, deixaram a cautela de lado e soltaram o verbo contra o estereótipo, definido por eles, da militância universitária de esquerda que, supostamente, só se importa com a própria aparência. É claro que virou polêmica e, entre aplausos e vaias exaltadas, o grupo procura se isentar da briga política para levar a diante o novo trabalho, que mistura o rock à música eletrônica.

“Não sabe nem beber, depois vem dizer, que eu não tô legal / vota no PT depois vem pagar de intelectual / Fora do DCE não sabe como é a vida real.” Esses são alguns versos de Electromod, uma das 10 músicas do oitavo disco de estúdio da banda que, há pelo menos 15 anos na estrada, se tornou referência no pop rock contemporâneo nacional, lembrados como fiéis representantes do rock britânico sessentista de The Who e Beatles. A letra descreve e critica um tipo de figura que “fica enchendo linguiça, apanha da polícia e acha genial”. Ideias que, fora de contexto, poderiam ser atribuídas a Lobão e outros artistas que foram a público criticar a esquerda e se dizer favoráveis ao impeachment da presidente Dilma Roussef. No entanto, os gaúchos fazem questão de se isentar de qualquer posicionamento.

“Temos muito medo de sermos mal interpretados. Não somos de direita. Nem de esquerda, mas não estamos com a direita e nunca estaremos, nem com partido nenhum. Temos uma postura mais anarquista e somos contra tudo que houver de podre no Brasil”, garante o vocalista Beto Bruno, um dos autores da letra, escrita em parceria com o guitarrista Marcelo Gross e o baixista Rodolfo Kreger. A neutralidade pretendida por Beto parece ter sido distorcida, uma vez que a página do Movimento Brasil Livre (MBL), assumidamente de direita, compartilhou a canção assim que foi lançada, elogiando a composição. Na própria página da banda no Facebook, a cada postagem do clipe, os fãs se dividem entre elogios e reprovações ao teor da letra, entendida por alguns como clara apologia à ideologia de direita.

“Estamos falando sobre um personagem, falando mal de quem vai para a passeata e nem sabe o que está fazendo lá. E nos dois lados tem gente que não sabe. O que eu digo para essas pessoas que estão criticando é que eu tenho mais de 40 anos e a minha geração lutou para pôr a esquerda no poder e uma das coisas pela qual lutávamos era a liberdade de expressão. E essas mesmas pessoas não estão dando o direto da liberdade de expressão”, se defende o vocalista, dizendo ainda que a música é um “esparro de indignação contra esse momento complicado do país”.

O que é falado em Electromod destoa do restante do disco. As outras nove músicas falam sobre trivialidades do cotidiano e relações pessoais, sem entrar em nenhum tipo de polêmica ou conceito. O que conecta as faixas é a mistura da batida eletrônica com o rock característico do grupo, mais clássico, com nuances de garage e psicodélico, mas sem muitas invencionices. Uma mistura do electro com o mod, como bem sugere o título. O trabalho é a continuidade de uma trilogia musical voltada para o eletrônico, iniciada pela banda em 2014, com o lançamento do álbum Costa do Marfim.

Para Beto Bruno, a pegada electro não altera a essência do som do grupo, facilmente identificável nas boinas e jaquetas buscadas no figurino britânico de cinco décadas atrás. “Apesar de mudar o estilo no disco, não deixamos de ser uma banda fruto dos anos 1960. Não na hora de fazer, a diferença foi na maneira de produzir, já que os arranjos foram feitos coletivamente por todos, junto com o Edu K, nosso produtor”, explica o cantor, que cita o disco Õ blésq blom, do Titãs, lançado em 1989, como a principal influência para o disco. “Não é só coisa gringa que serve de referência para a gente”, diz ele. Lançado em CD, vinil e K7, Electromode está a´venda no site do grupo e disponível também por streaming no Spotify. A turnê de divulgação do novo álbum ainda não tem data marcada para Minas Gerais.

 

Confira a letra de 'Electromod'

 

“Tão achando que são o quê?
Que vocês não vão se fuder?
Tão achando que são o bicho
Monte de merda, monte de lixo
Não sabe beber
depois vem dizer que eu não tô legal
Vota no PT
Depois vem pagar de intelectual
Fora do DCE
Não sabe como é a vida real
Não gosta de rock
Cheio de não me toques
Yeah, yeah, yeah
Me tiram pra loki
Amarrou um coque
A barba cresceu
Foi no festival
Depois falou mal
Não se convenceu
Fazendo passeata
Aquela gente chata
Acha que é carnaval
Spray de pimenta
Ninguém te aguenta
Rango natural
Yeah, yeah, yeah
Tão achando que são o quê?
Que vocês não vão se fuder?
Tão achando que são o bicho
Monte de merda, monte de lixo
Enchendo linguiça
Apanha da polícia
E acha genial
Vem do interior
Apê papai pagou
Morar na capital
Começou um blog
Agora virou pop
Escreve no jornal
Nova MPB
Não tem o que dizer
Turminha meio pau
Yeah, yeah, yeah”

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