Por 43 anos inédita, joia da MPB é resgatada

'Os Arcos - Paixão e morte', suíte de João Bosco e Aldir Blanc, era ousada para os padrões de 1973

por Redação EM Cultura 20/08/2016 09:35

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Acervo/2004
Aldir Blanc e João Bosco dedicaram ousada parceria à Lapa carioca (foto: Acervo/2004)
Um tesouro da MPB foi encontrado: Os Arcos – Paixão e morte, a suíte de João Bosco e Aldir Blanc que ficou 43 anos inédita. Gravada por João para seu disco de estreia, foi sumariamente arquivada, talvez pela duração (nove minutos equivaliam a três faixas de um LP), mas muito provavelmente pela incompatibilidade entre sua ousadia formal e a insensibilidade dos executivos da RCA Victor.

A composição era mesmo ousada para os padrões de 1973: um longo poema de versos livres escrito por Aldir para o parceiro acrescentar melodia. O resultado é a dramatização da Lapa numa época em que o bairro boêmio carioca havia perdido sua magia. Estava, numa palavra, morto – e como tal é retratado.

“Só dois loucos de primeira viagem podiam se atrever a uma obra como aquela”, diz Aldir. João a vê como atestado “de que a parceria estava destinada a dar certo” – por causa da suíte, não apesar dela. A ideia de uma obra sobre os Arcos, simbólica divisória entre dois lados da Lapa (segundo Aldir, “entre o acabar para sempre e o continuar”), foi de Cláudio Tolomei, parceiro da dupla.

Pronto o poema, Aldir enviou-o por carta para Ouro Preto, onde o mineiro João Bosco estudava engenharia. “Não conhecia a Lapa, ou melhor, não conhecia o Rio. Tudo que sabia vinha das histórias que meu pai me contava ou de coisas que li. Mas a imaginação é perfeita para se construir o que não se conhece”, explica João. O clima é de uma Lapa que vivia seu momento fúnebre, lembra o compositor, observando que os sinos usados num dos movimentos lembram os enterros em Minas.

POR CARTA
João Bosco e Aldir Blanc se conheceram em 1971, apresentados pelo amigo Pedro Lourenço. João estudava em Ouro Preto, Aldir morava no Rio de Janeiro. Trabalhavam “por carta”. Em 1972, João se mudou para a capital fluminense. Sua primeira gravação, lado B de um disco de bolso do Pasquim (no lado A, Tom Jobim lançava Águas de março), já tinha letra de Aldir: Agnus sei. Em 1973, surgia a chance de um LP pela RCA Victor, com produção de Rildo Hora e orquestrações de Luizinho Eça.

Disco gravado, incluindo a suíte, veio o veto. Por decisão da gravadora, metade dele, seis faixas, teria de ser refeita, agora com arranjos de Rogério Duprat, a contragosto dos artistas. Mesmo assim, foi a partir daquele álbum, chamado João Bosco, que a dupla passou a ter composições gravadas por Elis Regina e outros.

A suíte volta à cena graças à cantora Mariana Baltar, que decidiu dedicar um disco só a letras inéditas de Aldir. Rildo Hora pôs à disposição dela e dos músicos Jayme Vignoli e Josimar Carneiro velhas fitas de rolo. Ali a suíte foi encontrada. Por ora, o acesso a Os Arcos... só é possível pela internet (radiobatuta.com.br), mas Mariana Baltar está decidida a gravá-la. (Agência Globo).

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