Sunset BH Instrumental começa hoje com palestras sobre o mercado musical na era da internet

Programação também tem shows gratuitos neste fim de semana, no Parque Municipal. Entre eles, os de Carlos Malta, Lenine, Constantina e Tulipa Ruiz

por Carolina Braga 11/08/2016 09:30

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BETO NOVAES/EM/D.A.PRESS
(foto: BETO NOVAES/EM/D.A.PRESS)
O flautista Carlos Malta é do tempo em que o músico se formava no palco, tocando. Aos 20 anos de idade, lá estava ele, na cola de Hermeto Pascoal. Hoje, 30 anos depois, sabe que não apenas o início de uma carreira, mas principalmente sua manutenção, não se atrelam somente às capacidades artísticas. Além de tocar, o músico tem que protagonizar campanhas de financiamento coletivo, cuidar da distribuição digital da própria produção, conhecer a dinâmica das plataformas de streaming e até fomentar o network internacional.


É esse olhar mais amplo o diferencial do Sunset BH Instrumental, que começa hoje em BH. Ao mesmo tempo em que oferece oficinas de capacitação para profissionais da área e palestras abertas ao público (no Memorial Minas Gerais Vale), o evento mantém as características do formato festival, com shows (no Parque Municipal). Tudo com entrada franca. Pelo palco passarão Carlos Malta, Pife Muderno, Lenine, Constantina, Pequeno Céu, PianOrquestra e Tulipa Ruiz.

“Hoje, se o artista não tem esses pilares claros, não consegue construir uma carreira e corre o risco de ficar com a produção represada”, afirma o músico e professor Claudio Dauelsberg, integrante do grupo PianOrquestra. Além de receber Tulipa Ruiz no show marcado para domingo, Dauelsberg é o curador das palestras previstas para hoje, em torno do financiamento, da produção e da distribuição de música na era digital.


Entre os convidados estão Roberta Patê, representante da plataforma de streaming Spotify. Ela falará sobre a nova dinâmica de se consumir e conhecer música. Bernardo Pauleira, do site de financiamento coletivo dedicado à música Embolacha, abordará o crowdfunding, e Maurício Bussab, da Tratore (SP), falará sobre distribuição.

Para Dauelsberg, o advento do digital na música faz com que o mercado ainda enfrente a maior transformação de sua história. É um processo que não tem retorno, envolve muitas questões, inclusive uma nova maneira de consumir. “É uma mudança muito dramática até para quem já está estabelecido no mercado. Estamos todos aprendendo juntos. Não dá para ficar sentado esperando”, sintetiza.

Hoje, além das gravadoras, que se ocupam de lançar discos físicos, há também empresas que oferecem uma gama de serviços focados exclusivamente na difusão da música via internet. Arthur Fitzgibbon, da Onerpm, é especializado em distribuição digital. Durante o Sunset BH, ele fará uma palestra sobre as empresas com potencial para continuar ativas nessa nova lógica de mercado. A destreza na rede é um diferencial.

O consumo de música hoje começa, principalmente, pela internet. “Rádio, televisão ou jornal são multiplicadores, não mais influenciadores”, afirma Fitzgibbon. Somente em 2016, ele foi o responsável por “impulsionar” na rede sucessos como Baile de favela, de MC João, Paredão metralhadora, da Vingadora, Tá tranquilo, tá favorável, de MC Bin Laden.

RÁPIDO São todos exemplos de músicas que ultrapassaram os 100 milhões de visualizações no YouTube, mesmo sem o apoio de gravadoras. “Neste mundo digital, é preciso ser rápido, flexível, transparente e justo”, diz Fitzgibbon. Atualmente, a Onerpm trabalha com cerca de 300 álbuns diariamente, com monitoramento permanente de cada faixa. “Antigamente, o consumidor se envolvia com a música em um modelo de posse. Hoje em dia, é muito mais o modelo de acesso”, avalia Roberta Patê. O Spotify, que ela representa, tem disponíveis atualmente cerca de 30 milhões de faixas.

“O consumidor se adapta mais rápido do que quem está produzindo a música. Precisa estar antenado para seguir a velocidade”, diz ela. Somente o Spotify tem hoje no mundo 100 milhões de assinantes, sendo 30 milhões de usuários premium, que pagam uma mensalidade para ter acesso a uma gama maior de serviços. De acordo com os dados da empresa, o consumo médio diário de música é de 148 minutos por usuário

Qualquer artista pode disponibilizar seu repertório na plataforma, mas o Spotify não negocia diretamente. O conteúdo precisa ser entregue via agregadora – pode ser uma gravadora, distribuidora ou editora, desde que homologada pela plataforma.

Veterano no mercado, o flautista Carlos Malta – que oferece oficina no festival, assim como o percussionaista Marcos Suzano –  concorda em parte com as novas tarefas atribuídas aos artistas. Para ele, quem já tem carreira sólida não precisa muito conhecer essas habilidades do universo da gestão. “Realmente, é mais uma ferramenta para o artista, mas ainda vejo o mercado bastante aberto a coisas um pouco menos ambiciosas”, diz. Tanto seus discos solo como os gravados com o Pife Muderno estão disponíveis nas plataformas de streaming. Segundo Malta, a existência no digital cumpre um papel diferente. “Sou uma sardinha a mais neste cardume. Tem gente que consegue ganhar dinheiro com isso. Eu ganho visibilidade. É como se fosse um mostruário”, resume.

Embora a programação de palestras do Sunset BH atenda principalmente a quem é da área, há uma conexão entre a temática dos debates e a escolha dos artistas que se apresentarão no festival. Carlos Malta e Pife Muderno receberão Lenine como convidado no sábado. No domingo, PianOrquestra convida Tulipa Ruiz. “Lenine é um cara conectado, e Tulipa traz uma ponta de modernidade e de comunicação com o público”, diz Dauelsberg.

Carlos Malta e Lenine são parceiros de longa data. O flautista participou de quatro discos do pernambucano, entre eles o mais recente, Carbono (2015), cuja estratégia de lançamento incluiu ações exclusivamente na internet. “Temos quilômetros rodados em estradas diferentes, mas sempre chegando em lugares parecidos”, afirma Malta. Estarão no repertório tanto canções conhecidas na voz de Lenine como outras consagradas da trajetória do Pife. Toda vez que eles se encontram, Lenine abre mão do violão e fica solto no palco, rodeado pelos instrumentistas do Pife. “Fica uma coisa meio capoeira. Um jogo muito legal.”

TRÊS PERGUNTAS PARA...
LENINE, cantor, compositor e instrumentista

Carlos Malta diz que você costuma se apresentar sem violão nos encontros com o Pife Muderno. O que há de melhor em ficar solto no palco com os amigos?
Nunca consigo tirar uma onda de canário, meu violão quase se tornou uma extensão do meu corpo... Com o Pife fico feito pinto no lixo!

Os painéis de debate no Sunset BH Instrumental vão abordar temas como streaming, financiamento coletivo, distribuição digital, internacionalização de carreiras. Você concorda que são ferramentas essenciais na carreira de um músico hoje? Você se envolve pessoalmente em alguma dessas atividades?
Concordo. Precisamos realmente entender as transformações que o mundo vem experimentando. É impensável migrar para o universo digital as regras do universo físico, mas é isso que está acontecendo. Penso que,  pela primeira vez na história, o criador poderá estar sentado na mesa central de qualquer negociação. Para isso precisamos de aprofundamento.

Qual a sua opinião sobre a nova geração de músicos que precisa aprender a gerenciar a carreira ao mesmo tempo em que aprimora seus dotes essencialmente artísticos?
Os tempos são outros... Penso que hoje tudo está pulverizado na rede, então a grande dificuldade é: como chamar a atenção no meio de tanta opção?. Nem imagino o que deve significar hoje em dia a palavra “carreira”.

SUNSET BH INSTRUMENTAL
Oficinas e palestras (no Memorial Minas Gerais  Vale, na Praça da Liberdade) e shows (no Parque Municipal). De hoje a domingo.
Entrada franca. Programação completa: www.sunsetbhinstrumental.com.br.

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