Álbuns recém-lançados passeiam pelo som de raiz e pela tradição popular brasileira

Registros invocam a 'memória coletiva' ou assumem sua faceta mística ao prestar homenagem aos orixás

por Estado de Minas 25/07/2016 08:55

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Vânia Cardoso/Divulgação
Com seu sexto disco, 'Camaleão e borboleta', a banda Graveola e o Lixo Polifônico almeja "elevar a frequência, potencializar o poder de transformação e de cura que a música tem" (foto: Vânia Cardoso/Divulgação)

De cantos para orixás a loas que regem danças populares, a música brasileira carrega uma preciosa tradição. Com essência marcada por costumes e crenças que encantam o imaginário, canções como as dos discos Ascensão; Mestres navegantes - Bragança e Cametá; e Camaleão e borboleta levam os amantes da música a uma viagem pela cultura brasileira. Em cada um dos CDs, recém-lançados, é possível passear por timbres que ecoam o amor e a vontade de expressão populares.

Nos embalos de Ascensão, mais de 50 músicos participaram, entre eles Céu, Tulipa Ruiz e Karina Buhr. Produzido ao longo dos últimos cinco anos, o disco foi a última obra de Serena Assumpção. Ainda antes de descobrir que estava com câncer, a cantora recebeu a missão de gravar músicas homenageando a exuberância dos orixás. Filha de Itamar Assumpção, ela frequentava a Casa de Odé Pai Decemi, onde aprendeu histórias sagradas e as transformou em doces melodias.

Ao lado dos produtores DiPa Paes e Pipo Pegoraro, Serena compôs cada uma das 13 faixas de Ascensão, que são cantos para orixás. Segundo o produtor, a ideia sempre foi preservar as melodias e ressignificá-las com os convidados a participar do projeto. “A gente criou com muito carinho, sempre pensando em quem podia compor.” Nas palavras de DiPa, a cantora foi alimentando cada um dos músicos envolvidos no trabalho com referências sagradas. Foi o som do trovão, a sutileza das águas e o soprar do vento que inspiraram as passagens da obra. “Ela tirava tudo do subconsciente para inventar os elementos que envolviam as canções.”

Mesmo quando descobriu que estava com câncer e começou a fazer tratamento, Serena prosseguiu com o trabalho. O primeiro apoio financeiro veio somente depois de dois anos de produção, por meio do selo Sesc. “Sereninha deixou tudo pronto, desenhado. A gente não colocou nada além do que ela fez. Nem com o nome na lombada do disco precisamos nos preocupar”, afirma DiPa.

“Foi uma missão cumprida mesmo. Ela deixou um trabalho lindo, que está em vários lugares, de diversas formas e nos arrepia pela música que nos toca”, acrescenta DiPa. Segundo ele, independentemente de ser de canções de terreiro, o disco ecoa vários sentidos. “Esse trabalho traz nossa raiz. Em um período de intolerâncias, a gente precisa se religar com a terra, e esse disco nos leva para um lugar que nos eleva. Mostra não só o reconhecimento do candomblé, mas de toda a nossa cultura.”

PARÁ Quando se permite viajar pelos ritmos do carimbó e boi-bumbá, a grande retribuição é uma bagagem de conhecimento marcada por diversidade cultural. Foi depois de passear pelas margens das regiões do Salgado paraense e da Ilha do Marajó que o músico e produtor Betão Aguiar despertou a produção de Mestres navegantes. Projeto que visa incentivar a valorização do patrimônio imaterial brasileiro, Mestres navegantes virou um CD. Nele, encontra-se um registro histórico, com a voz de mestres paraenses que mantêm vivo um acervo sobre a música brasileira. Entre estilos nomeados de ladainha, roda, mazurca, xote e pássaro junino, o disco é composto por 50 faixas.

Com referências no coco, maracatu, ijexá e samba-reggae, a banda mineira Graveola e o Lixo Polifônico lançou o sexto trabalho da carreira, o disco Camaleão e borboleta. “Nossa música está umbilicalmente ligada à tradição da canção popular brasileira: é de onde nos formamos, desde a infância, é um nutriente essencial na dieta sonora”, afirma o vocalista Luiz Gabriel Lopes. Há 11 anos na estrada musical, o grupo gosta de descobrir matrizes culturais para inspirar novas composições. Segundo o cantor, eles procuram estabelecer uma vibração positiva em cada arranjo. “Acho que é uma questão de tentar elevar a frequência, potencializar o poder de transformação e de cura que a música tem, na essência.”

Na capa de Camaleão e borboleta, desenhos de folhagens e frutos do guaraná chamam a atenção. A artista plástica Patrícia Amoni fez um trabalho de sensações e cores para representar a força de transformações e metamorfoses que, na opinião de Luiz Gabriel, é o reflexo de um trabalho feito com amor. “Apenas fazemos a música que vem do coração e dessa forma acessamos um pouco da memória coletiva que está em todos nós”, diz o músico. Toques leves e recheados de delicadeza compõem cada uma das canções. “Num mundo com tanta agressividade, fazer emergir a sutileza através das camadas sonoras de uma canção é algo em que de fato acreditamos, numa perspectiva prática.”

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