Parque das Mangabeiras recebe Rico Dalasam, Chico Chico, Vanessa da Mata e Mart'nália

Shows serão no sábado e no domingo no Festival de Inverno de BH. Em dois palcos, atrações novas e outras consagradas mostram

por Walter Sebastião 15/07/2016 09:18

Henrique Grandi/Divulgação
Rico Dalasam é atração deste domingo (foto: Henrique Grandi/Divulgação)
“Dificil definir a minha música.” A afirmação foi utilizada por todos os artistas ouvidos pelo EM sobre o Festival de Inverno de BH, que ocorre amanhã e domingo, no Parque das Mangabeiras. A observação tem motivos. Primeiro: todos têm música que é produto de múltiplas referências e vivências, abarcando de tradições populares e da modernidade ao gosto por experimentações e por romper limites. Segundo: o evento, declaradamente, volta-se para novas tendências musicais. Por isso, escolhe nomes que vão despontando ao lado de veteranos conhecidos pela busca de forte personalidade autoral. Uns e outros já observados com atenção por quem busca outros sons. Entre essas revelações estão Chico Chico – o jovem compositor filho de Cássia Eller – e a cantora Júlia Vargas. Estrelas da MPB, como Vanessa da Mata e Mart’nália, também vão se apresentar no Festival de Inverno.

 

“Sou rapper e gay. O maior e mais improvável cruzamento de comportamentos”, afirma, com gosto pela provocação, o paulista Rico Dalasam, de 26 anos. Com DJs, figurinos, textos, mistura de ritmos nordestinos e evocações à música árabe, ele vem marcando presença respeitada na cena que ama, misturando ritmo e poesia (a palavra rap se refere às duas coisas). Já abriu shows do Racionais, Emicida e de Criolo, entre outros. O primeiro disco, Orgunga, saiu recentemente. Vêm do CD algumas composições que ele apresenta em Belo Horizonte: Riquíssima, Milimili ou Esse close eu dei, criada com o DJ Palazi, o tecladista Dinho e o percussionista Marcinho.

“Minha música celebra a diversidade. Sou produto do meu tempo”, afirma Dalasam. Ele faz crônicas debochadas sobre a vida de luxo, poder e sexo. Conta que a ênfase na estética vem do fato de já ter atuado como estilista e porque ajuda a contar as histórias. Rico até fala de preconceitos e discriminação (“Sou preto, gay e da periferia, então conheço isso a vida inteira”), mas em meio a outras questões. “Estou construindo um lugar para o que faço”, explica. Consciente, reconhece ser um pioneiro. No meio musical, até se sente solitário na luta por outra estética. “Mas esse sentimento não é maior do que a solidão que sinto na vida”, observa, ferino.

Na origem do que faz está a admiração pelo hip-hop. “Era tão espectador de shows de rap que me vi fazendo aquilo a que assistia no palco. E passei para o lado de lá”, explica Dalasam. “Escrever rimas qualquer um consegue, mas transmitir ideias com versos, gravá-las em cima de uma batida, levar isso ao público e receber o retorno pelo que você está dizendo é mágico”, garante.

O desafio para quem faz música hoje é colocar o nosso tempo na arte, diz. “Sou otimista, apesar de tudo. Para quem faz parte de alguma minoria, a vida sempre foi difícil. Ainda vivemos tempos de trabalho para chegar a um tempo bom”, afirma.

 

Ramon Moreira/Divulgação
Vanessa da Mata encerra o evento (foto: Ramon Moreira/Divulgação)
BaianaSystem - Circulam nas redes sociais imagens que mostram o BaianaSystem fazendo shows que levam as plateias ao delírio. “O clima de festa é também parte da nossa música, pela presença forte do ritmo e grande interação com o público. Mas o trabalho é essencialmente uma pesquisa sonora experimental”, explica o guitarrista Roberto Barreto, de 44 anos. Ele integra o núcleo do BaianaSystem, formado pelo cantor Russo Passapusso e o baixista e produtor Marcelo Seko. Ao vivo, em BH, eles vão contar ainda com dois DJs e percussão.

No palco, diz Barreto, a música faz dialogar reggae, samba, cumbia, trio elétrico, pop, instrumental, eletrônica e guitarra baiana, além do interesse pela “cultura do grave” – do baixo marcante.

“O desafio posto a quem faz música hoje é se permitir experimentar”, defende Roberto Barreto. “Usar a liberdade de condições de produção, de estéticas e de poder trabalhar com várias informações, procurando autenticidade”, argumenta. Para ele, o risco de quem não faz isso é desaparecer na massa de coisas oferecidas em tempos de muita informação. O primeiro disco do BaianaSystem, lançado em 2010, leva o nome do projeto. O segundo se chama Duas cidades (2016). O guitarrista explica que as faixas trazem algumas faces da proposta e estarão no show de Belo Horizonte: Lucro: descomprimindo, Playsom, Calamatraca ou Cigano.

A presença da guitarra baiana (“cavaquinho de cinco cordas com afinação de bandolim”), inventada por Armandinho (da Costa Macêdo), não é secundária, explica. Desde a origem do projeto houve o interesse em afirmar “o instrumento que tem importância histórica” para a música da Bahia, mas estava sendo esquecido devido ao pouco uso. Além disso, o coletivo afirma a vontade de colocá-lo em diálogo com violão, rabeca, viola e cítara. Para o músico, “colocar o intrumento para trabalhar” é um modo de mantê-lo vivo. “Simplesmente usar, sem ficar olhando para trás”, sugere, pedindo que se tire a guitarra baiana “da prateleira onde ela foi guardada” – ou seja, os trios elétricos.

 

Luana Mariano - Uma pianista com formação clássica, encantada com a música negra. Assim se define a cantora e compositora paulista Luana Mariano, de 35 anos. Formada em medicina, ela mora em Nova Lima, na Grande BH. No festival, ela vai lançar o EP The lioness. Tem jazz, rock e blues com base clássica. “É algo com o suíngue desses gêneros populares com a diversidade melódica do clássico”, define. Ela estará no palco com piano e banda. “Precisamos romper a ideia de que existe um muro entre o clássico e o popular. É tudo uma alma só, uma única cultura”, afirma.

Luana Mariano nasceu em família que cultiva a MPB. Estuda piano desde criança e fez curso em Viena. Na adolescência, encantou-se com as divas do jazz. Ela ficou impactada ao descobrir que Nina Simone (“ícone artístico, social e de empoderamento feminino”) era pianista e, devido a problemas sociais, teve de buscar outro rumo para a música que fazia. “Isso mudou a minha vida”, recorda, apontando episódio que a levou para o campo popular.

Mercy, Where’your spirit ou Brune star são canções que o público ouvirá no festival. Ainda que cante também em português, o fato de trabalhar no exterior a fez incluir canções em inglês no repertório. A carreira internacional de Luana teve início quando integrou o duo Sambulus, com dois álbuns lançados. Um deles dedicado a Jimi Hendrix, autorizado pela família do guitarrista, saiu em Londres por ocasião dos 40 anos de morte do instrumentista.


SÁBADO

 

PALCO COLORADO
12h......... Abertura: DJ Zeu
14h......... Chico Chico e Júlia Vargas
15h20..... DJ Aline Prado
16h......... Tiago Iorc
17h20..... DJ Yuga
18h......... Curumin
19h20..... DJ Jahnu
20h........ Mart’nália

PALCO PIVÔ STAGE
13h20..... Ben Roots
15h20..... Daparte
17h20..... 9ora
19h20..... Luana Mariano

DOMINGO

PALCO COLORADO
12h......... DJ Jahnu
13h......... Gustavo Maguá
14h......... DJ Deivid
14h40..... Bixiga 70
16h......... DJ Jahnu
16h30..... Rico Dalasam
17h30..... DJ Zeu
18h......... BaianaSystem
19h20..... DJ Tamenpi
20h........ Vanessa da Mata

PALCO PIVÔ STAGE
14h......... Lagum
16h......... Adrianna Moreira
17h30..... Sofranz
19h20..... Preto Massa

FESTIVAL DE INVERNO DE BELO HORIZONTE
Amanhã e domingo, das 12h às 22h. Shows, exposição, projeto Leve um Livro, sessões de autógrafos de livros de autores independentes, vila gastronômica, espaço kids, live graffiti e performances do Circo em Cena. Parque das Mangabeiras. Rua Flor de Macieira, s/ nº, Mangabeiras. Ingressos/por dia: R$ 60 (inteira) e R$ 40 (meia). Passaporte/dois dias: R$ 100 (inteira) e R$ 70 (meia). Classificação: 18 anos. Menores devem estar acompanhados dos pais ou de responsáveis legais.

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