"Só escrevo quando tenho vontade", diz Hermeto Pascoal, autor de oito mil músicas

Com seu bocal de trompete, o compositor alagoano cria música e transforma tampa de privada em partitura

por Eduardo Tristão Girão 22/05/2016 08:00

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Eduardo Tristão Girão / EM
(foto: Eduardo Tristão Girão / EM )
Rio de Janeiro – Hermeto Pascoal diz ter escrito cerca de oito mil músicas. Aos incrédulos que insistem em mínima premeditação para se chegar a esse volume de produção, o veterano responde: “Só escrevo na hora que me dá vontade, mas tenho vontade sem parar. Minha vontade é maravilhosa. Me dá vontade no avião, por exemplo, e já enchi essas revistas de bordo de música. Quando peço para alguém me comprar uma chaleira, não sei que música virá, mas já tenho a intuição para fazer a música para ela”.


A exatamente um mês de seu aniversário, ele afirma não ter medo da idade e revela suas regras para lidar melhor com o tempo. Nunca chega na hora exata dos compromissos, mas pelo menos meia hora antes, por exemplo. “É para não ferir meu organismo”, explica. Ao se descobrir diabético, há quase uma década, agradeceu a Deus por ter tê-lo deixado comer toda a rapadura que quis até aquele momento. Atualmente, os netos lhe compram paçoca diet. O sabor, elogia, não deve nada ao produto tradicional.

DUAS TAÇAS
“Meu prato sempre tem feijão, farinha e carne de sol bem desfiadinha que a Jane, esposa do Fábio, faz muito bem feita. E nada de fritura. O médico falou que posso tomar duas taças de vinho. Tomo as duas no almoço e não fui bobo de perguntar para ele o tamanho da taça. Ele sabe, não é? Quando vem taça grande, fico na minha e tomo”, conta. Ele continua na torcida para que alguém invente a rapadura diet.

Eduardo Tristão Girão / EM
(foto: Eduardo Tristão Girão / EM )


Sobre o que ainda deseja para sua longa e vitoriosa carreira internacional, esclarece: “Não penso no que tenho vontade de fazer, porque sei que vou fazer. O que é, não sei. Estou aqui e, de repente, tenho uma ideia. Se fico querendo pensar antes, a ideia não vem, pois tiro a liberdade de sentir as coisas. Se vou dar workshop, não preparo nada. As pessoas perguntam, eu digo, elas dizem. Meu saber vem da intuição, vira teoria, mas teoria sentida, não padronizada”.

O artista conta que esse seu jeito informal de transmitir conhecimento encanta os alunos de escolas de música nos Estados Unidos. “Dizem lá que não existe mais ninguém para falar dessas coisas assim. O problema deles é que ensinam tudo igual e quem não é padronizado é tido como o cara que está por fora. O cara que está por fora é justamente o mais observador, o que tem mais chance de criar”, defende.

O músico diz não ouvir música em casa. “É muita falta de tempo”, explica. No máximo, ouve composições que jovens lhe mandam pela internet (Fábio se encarrega de mostrá-las ao pai). Uns querem conselhos, outros convidam-no para o estúdio. “Se for projeto, me pagam. Se o dinheirinho estiver saindo do bolso do músico, não cobro nada. Faço com o maior prazer”, garante.

O BATISMO
Fábio pede licença. Com a cartolina cheia de partituras na mão, pergunta ao pai: “O nome desta música aqui é Quinze para meia-noite?”. “Sim, foi quando compus”, responde Hermeto. Surge mais uma dúvida: “Essa outra tá sem nome também”. Hermeto pergunta ao repórter: “Como é seu nome?”. Chega a ordenar ao filho que batize a composição como Falando com Eduardo, mas questiona de novo: “De onde você é? De qual jornal?”. Ao ouvir a resposta, bate o martelo: “Eduardo de BH. Pronto. Porque de Eduardo o mundo está cheio”.

Muitas dessas músicas ele jamais ouviu. Apenas as escreveu. São assim composições como a que o filho mostra, escrita na bandeja de uma lanchonete de aeroporto e dedicada aos dois garçons. Virou Do Galeão a Congonhas. “Fiz foto disso e bombou na internet”, conta Fábio, orgulhoso. O veterano, a propósito, não interage com computadores. Sua especialidade são instrumentos musicais e outros objetos palpáveis. Isso, desde criança.

Eduardo Tristão Girão / EM
(foto: Eduardo Tristão Girão / EM )


O avô de Hermeto era ferreiro em Lagoa da Canoa, no interior de Alagoas, onde o compositor nasceu. “Ele consertava essas coisas todas. Uma foice, uma enxada, um machado, um penico. Era o único da região e trabalhava para todos os agricultores. Às vezes, me dava essas coisas para jogar fora, mas escondia tudinho, pois batia um objeto no outro e achava bonito. Já nasci com isso. Comecei a tocar escondido e um dia minha mãe me escutou. Ela começou a chorar e foi correndo falar com meu avô, achando que eu estava doido. Ele disse que eu estava fazendo música e ela chorou de alegria. Modéstia à parte, estou contando histórias”.

Essa maneira de se relacionar com a música faz com que Hermeto não veja qualquer diferença entre a partitura num “cadernão bacana” e a que escreveu, com dificuldade, no chapéu de palha. “Posso ter uma música só com 15 compassos e achar que está bom. Difícil é parar de escrever. Escrevo todos os dias, mas se não tiver vontade, não adianta. Aí, estico minhas perninhas para cima e sei que a vontade não vem na hora que quero. Ela é imponente, mas um imponente para melhor, para não ser padrão”.

EM FAMÍLIA
Hermeto conta que apenas dois de seus sete irmãos estão vivos – ambos moram no Rio de Janeiro. Um deles, Elísio Costa, toca violão e flauta. O compositor revela, em tom de elogio: “É um doido. Arruma uma turma para tocar, mas não tem paciência. Não usa droga, não bebe, não fuma, mas faz música que parece de gente que usa droga”. Hermeto deveria também ter o sobrenome Costa. Por engano na hora do registro de nascimento, acabou levando apenas o primeiro nome do pai.

O artista mora na capital fluminense há um ano. A decisão de se mudar de Curitiba foi tomada depois da separação de Aline Morena, de 36 anos, mas a cantora e instrumentista permanece na banda do ex-marido. “Ela é uma pessoa maravilhosa, com quem fiquei 12 anos. Pensavam que a gente ficaria junto só uns três ou quatro anos por causa da diferença de idade. Batemos um recorde (risos). Também resolvi vir para cá para tomar conta, porque isto aqui (aponta para Fábio) é criancinha até hoje”, brinca.

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(foto: Eduardo Tristão Girão / EM )


Fábio toca percussão com o pai desde 1989. Em junho, embarcará com ele para mais uma turnê na Europa. A diferença é que essas viagens têm sido menos frequentes e menores. Serão quase três semanas (dois meses era o habitual), mas com apenas três dias de folga. Hermeto se sente bem-disposto. A única exigência é em relação a duração dos shows: quanto mais deixarem o grupo tocar, melhor.

Os espetáculos mudaram com o passar do tempo, explica Fábio. “Já fizemos show de cinco horas em Grenoble, na França. Botei o braço no gelo depois. Não parava nunca. Hoje, temos feito uma hora e meia, parece que nem tocamos. Num arranjo em que todo mundo improvisaria, improvisa só um. Foi bom, porque começamos a priorizar os arranjos. O Hermeto de 20 anos atrás era muito mais improviso, coisa de no máximo seis arranjos em duas horas de show. O couro comia, parceiro. Hoje, conseguimos tocar 12, 13 arranjos e com improvisos. Botando na balança, ficou bom”.

MILES DAVIS
Quem quiser irritar Hermeto que deixe de avisá-lo previamente sobre a duração que um show seu terá. “Imagine só. Estou criando no palco e aí chega um cara e interrompe. Fico ligado no tempo, mas sem me preocupar”, reclama. Certa vez, foi tocar numa festa de gravadora, nos Estados Unidos. Era a atração principal. Por desorganização, avisaram, pouco depois de entrar no palco, que o grupo teria apenas 10 minutos (e não 40, como havia sido combinado). Hermeto e os companheiros tocaram, literalmente, menos de um minuto. E saíram de cena sem qualquer constrangimento. Não adiantou o dono da festa implorar para que voltassem.

Hermeto recorda seu primeiro encontro com Miles Davis, no fim dos anos 1960, quando o trompetista norte-americano tocava com o percussionista brasileiro Airto Moreira. “Miles chegava sempre em cima da hora, passando direto para não ter assédio. Estava quase na hora do show quando alguém bateu no meu ombro, falando inglês, meio rouco. Era ele. O Airto viu aquilo de longe e veio correndo, pois não falo inglês”. Detalhe: Miles não sabia quem Hermeto era.

O trompetista havia dito algo assim para Moreira: “Você sabe que não paro, mas uma coisa me trouxe a esse cara. Queria saber quem é ele”. O percussionista explicou e não demorou para os dois gigantes da música se acertarem. Hermeto levou um violão para a casa de Miles e lhe mostrou algumas músicas. “Ele ficou louco. Disse que era uma pena não caber todas no disco. Disse que tinha ido para lá gravar meu disco e que escolheria talvez umas duas para ele. Brinquei com ele, porque havia sentido aquela alma incompreendida”, relembra.

Tornaram-se amigos (mesmo sem um falar a língua do outro) e Miles Davis gravou três músicas do alagoano. Em algumas edições do disco Live-evil (de 1971), as faixas foram creditadas equivocadamente ao trompetista. “Houve um engano interesseiro da produção dele. Tenho certeza de que não foi ele”, acredita Hermeto. Posteriormente, durante entrevista à Radio France, ficou sabendo pelo repórter que Miles havia revelado o desejo de reencarnar como “aquele albino louco” se algum dia voltasse à Terr

“MINHA IGREJA”
Hermeto nunca quis morar no exterior. “Minha saudade do Brasil não dá para aguentar. Sinto falta de algo que não tem nome, mas sei que é do povo”, afirma. No modesto apartamento carioca, ele se dedica a tocar todos os dias. “Pego um pouco cada instrumento para dizer: olha, não me esqueci de você”, conta. Passa o dia inteiro lá, só sai para almoçar na casa do filho e para dormir – por enquanto. “Aqui virou minha igreja, com minhas coisas todas penduradas, mas preciso ir me acostumando. Ainda não tenho aquela vontade de ficar aqui”, diz.

Já comprou piano de cauda, que pôs num dos quartos (o afinador ainda está devendo a visita). Na entrada do apartamento, instalou uma espécie de varal com dezenas de guardanapos que pega em restaurantes para escrever música. “Enquanto peço a comida, estico o guardanapo na mesa e nem pergunto se pode. Num dos restaurantes, o Fábio teve de pagar por ele. É como se estivesse com um caderno e viesse a vontade de escrever. Não sei diferenciar essas coisas, pois, para mim, elas já são diferentes. Em cada lugar, a música sai de um jeito, com naturalidade”, observa.

Eduardo Tristão Girão / EM
(foto: Eduardo Tristão Girão / EM )


Em 22 e 23 de junho, o público poderá ouvir algumas dessas músicas e ver os inusitados “objetos-partituras” na exposição em homenagem ao artista, na Areninha Carioca Hermeto Pascoal, em Bangu, no Rio de Janeiro. Músicos convidados vão interpretá-las às 18h, no dia 22, e às 15h, no dia 23 – nas duas datas, Hermeto e seu grupo farão show no local. No dia 25, exposição e concerto serão transferidos para a Arena Madureira Fernando Torres, partir das 15h.

RECADO PARA BH
Saber que, finalmente, poderá ouvir algumas dessas criações tem deixado o artista radiante. Como ele sabe que a exposição será desmanchada logo depois, aproveita para mandar um recado: “Queremos fazer uma exposição completa, em outro lugar. Uma coisa bacana. Então, já fica avisado para o pessoal de Minas, os donos de galerias, para quem quiser fazer: podemos levar tudinho. Estou com saudade de lá e nem faz muito tempo que toquei em BH”.

Enquanto isso, de seu apartamento no Jabour, o bruxo albino de quase 80 anos negocia a gravação de um DVD com convidados na Sala Cecilia Meireles, no Rio de Janeiro, e o lançamento do disco que registra a apresentação em uma unidade do Sesc, em São Paulo.

“Isso até hoje. Amanhã é outra coisa”, brinca Hermeto.

“Minha saudade do Brasil não dá para aguentar. Sinto falta de algo que não tem nome, mas sei que é do povo”

“O cara que está por fora é justamente o mais observador, o que tem mais chance de criar”

“Aqui virou minhaigreja, com minhascoisas todas penduradas”

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