Disco da gaúcha Danny Calixto revela maturidade do trabalho, iniciado nos anos 1990

Cantora e compositora mescla ritmos e remete a Marina, Jobim e Chico Buarque

por Kiko Ferreira 03/05/2016 08:00

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Gabriel Schimidt/divulgação
(foto: Gabriel Schimidt/divulgação)
Cantautora da linhagem pop urbana de Dulce Quental e Marina Lima, a gaúcha Danny Calixto volta ao disco, 13 anos depois da promissora estreia, em 2003, com Abracadabra. Gravado ao longo de 2015 na capital gaúcha, Quintais do mundo tem maioria de arranjos e produção do multi-instrumentista Angelo Primon e traz uma dúzia de composições próprias, oito com diversas parcerias. Canção, samba, maracatu, milonga, shuffle, marcha-rancho e outras variações de ritmos e gêneros compõem um conjunto que ganha unidade na diversidade.

Nascida em Porto Alegre, Danny passou temporada morando em Curitiba, a partir do início da adolescência, e lá começou a carreira como cantora de rock progressivo. Fez um show da “MPB do B” com a curitibana Rogéria Holtz, estudou violão clássico e atuou no teatro como cantora, atriz, violonista e autora de trilhas sonoras. No fim dos anos 1990, foi vocalista da banda Os Waldos, de disco e black music.

Formada em artes plásticas, ela fez carreira nas artes gráficas e na publicidade. Morou um tempo em Londres e conseguiu lançar Abracadabra na Suíça, Irlanda, Bélgica e Reino Unido. Se a estreia tinha um pé em Belo Horizonte, com arranjos do mineiro Rodolfo Mendes, Quintais do mundo é resultado da sua volta à terra natal. Predominam músicos gaúchos, um dos temas é produzido pelo curitibano Sérgio Machado e por Thiago Carretero, do Coletivo Itororó.

Na abertura, com a refrescante Oásis, ela mostra personalidade ao tratar do amor como um grão que “rompe o chão/ quando adivinha o sol”. Com levada oriental, Tempo tempo fala de sonhos, mesmo que eles demorem a se realizar. Sintomática letra para quem demorou tanto a produzir o segundo disco.

CACHORROS

Com inusitada clarineta solo, a marcha Salamandra mostra outro lado da letrista, falando de uma personagem que solta os cachorros num amor traidor. O lado mais MPB vem na elegante Continente, com ar de música de festival, antes de a longa e sofisticada Cobra Norato revelar uma faceta regional, com algo do Jobim de Matita Perê. A sensação permanece em As horas, com sol entre frutas, mar e um amor que nunca chega e nunca parte.

O samba Odum introduz suingue até então inédito no disco, partindo de premissa interessante: “e num dado momento eu acordo/ e lembro que eu preciso voar.” Parceria com Rogéria Holtz, Chacal traz classe e drama no trato de um amor extinto que já foi abrigo e sela a dor, com começo de cinema: “madrugada, tenho minha dor aqui/ a navalha no coração, avenidas de desilusão no ar/ ruas sem fim na escuridão”. Depois de comparar o que escreve a uma tatuagem (Baile da pele), com algum reflexo de Chico Buarque, vem Povo da cidade só, descrição entre Caymmi e Lenine de uma cidade e seus personagens.

AMOR

Sustentado por voz, violão e percussão, o samba Condição é outro ponto alto, fluente e naturalmente dançante. O CD termina com Do avesso, sobre uma incisão na linha do tempo que abre a porta de um quarto escuro e fala de um amor que deixa o coração sereno e aceso. Bom encerramento para o trabalho que revela uma Danny Calixto menos pop, menos radiofônica e, ao mesmo tempo, mais plural e inquieta. Sinal de maturidade, reflexo do cuidado com a elaboração e execução de um disco que abre portas e caminhos.

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