Ao lado de jovens, Danilo Caymmi revisita a obra do pai, Dorival, no disco 'Don Don'

Com produção de Domenico Lancellotti e Bruno Di Lullo, clássicos do baiano ganham nova roupagem. Parceria com Assis Chateaubriand foi resgatada

por Eduardo Tristão Girão 27/04/2016 09:07

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Myriam Vilas Boas/Divulgação
Da esquerda para a direita, Bruno Di Lullo, Danilo Caymmi e Domenico Lancellotti (foto: Myriam Vilas Boas/Divulgação)
Parece capa de disco antigo. A foto não é colorida, os caras usam bigode. Mas a cara do Danilo Caymmi é a de agora e ao lado dele estão Domenico Lancellotti e Bruno Di Lullo, músicos que já passaram dos 30, mas ainda são identificados como pertencentes à nova geração de “gente que faz”. É com esse curto-circuito que se começa a ouvir Don Don (Discobertas), disco que o filho de Dorival Caymmi acaba de lançar ao lado dos dois, só com músicas do pai.

As letras são as de antes – Lá vem a baiana, Só louco, Vatapá –, mas a sonoridade, apesar de não ser exatamente moderna, sugere alguma atualização. A sonoridade é resultado do trabalho de todos os envolvidos, é claro, mas é o baixo de Di Lullo, produtor do disco ao lado de Lancellotti, o responsável por boa parte dessa sensação. Ele tem o timbre e a pegada que podem ser encontrados no pop e indie nacionais de hoje: não é aquele acompanhamento aveludado, nem retilíneo. E agrada muito.

Para além disso, há o vozeirão de Danilo, que também toca flauta, a bateria de Lancellotti e as participações de Pedro Sá (violão), Berna Ceppas (vocoder e samples), Sílvia Braga (harpa) e Cláudio Andrade (teclado), entre outros. A mistura benfeita de composições clássicas e talentos contemporâneos evidencia a vitalidade do repertório de Dorival Caymmi, cujo centenário foi comemorado em 2014. As gravações ocorreram no ano seguinte, no Rio de Janeiro.

Além de outras canções emblemáticas do baiano, como O que é que a baiana tem?, Dora e Nem eu, foi pinçada para este álbum uma inédita dele, Don Don, inusitada parceria com Assis Chateaubriand. Trata-se de samba leve, inspirado na rotina de pescador e que chega a lembrar a forma das canções de trabalho – aquelas entoadas enquanto se realizam as tarefas do cotidiano. Eis os versos finais: “Joguei minha rede / Na praia de Itacuruçá / A caçamba virou / Por que você não vem me ajudar?”.

Há que se destacar, ainda, as acertadas participações das cantoras Ana Cláudia Lomelino, em Nunca mais, e Alice Caymmi (filha de Danilo) em Canção da noiva. São registros de finalidades opostas, visto que a performance da primeira empresta doçura e delicadeza e a da segunda, drama e dor. Não por acaso, Ana Cláudia é vocalista da banda carioca Tono, da qual Di Lullo é um dos membros, ao lado de Bem Gil (filho de Gilberto Gil) e Rafael Rocha.

Mais um
Com o título de 'Foru quatro Tiradente na Conjuração Baiana' (Acari), chega à praça disco que reúne letras de Mário Lago musicadas por Dori Caymmi, filho do meio de Dorival. São 14 faixas baseadas em textos escritos nos anos 1970 para peça que tratava de quatro jovens negros baianos que, no fim do século 18, queriam instaurar a República e escreviam cartas para articular o movimento conhecido como Conjuração Baiana, mas terminaram enforcados – e a peça foi censurada pela ditadura militar.

Dori, violonista e cantor, musicou a obra dois anos atrás, convidado para a tarefa pelos filhos de Lago. Ele assinou os arranjos e levou para o estúdio músicos do quilate de Teco Cardoso (flautas) e Rodolfo Stroeter (baixo), além das vozes de Monica Salmaso, Renato Braz, Sergio Santos e Joyce Moreno. Como resultado, um disco de sonoridade 100% brasileira, calcado na percussão e que mantém a poesia de Lago em primeiro plano por meio de vozes diversas.

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