Banda Deolinda alavanca renovação musical de Portugal com novo CD

'Outras histórias' é considerado um dos álbuns da década para a cultura pop na terrinha

por Raquel Lima 30/03/2016 08:00

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Isabel Pinto/Divulgação
(foto: Isabel Pinto/Divulgação)
Uma das mais expressivas bandas da renovação musical portuguesa, a Deolinda escolheu Corzinha de verão para ser a primeira faixa do novo álbum, Outras histórias (Sons em Trânsto/Universal, R$ 28,95 no iTunes). A canção tem pegada de hit – é uma baladinha praieira –, mas chama a atenção principalmente por ser uma perfeita amostra de características bem próprias da Deolinda: a ironia e da habilidade de modernizar elementos arraigados na música de Portugal. O trabalho foi lançado neste mês e aclamado como um dos álbuns mais importantes da década.


“Corzinha de verão é a música de estreia porque estamos no inverno em Portugal”, explica por telefone o violonista Pedro da Silva Martins, entre muitas risadas. “Tinha tudo para ser um clichê do verão, mas, ao contrário disso, está a falar do inverno”, continua o artista, que é o compositor de todas as canções da banda. Os Deolinda ousam não apenas na ironia, mas na estética – com estruturas e formas mais tortas e experimentais.

Destaque para Nunca é tarde, que brinca com os timbres da Orquestra Sinfonietta de Lisboa. “Tivemos a ajuda de um grande mestre, que é o Frederico Mello, arranjador de cordas fantástico. Estas parcerias também foram encontrando ritmos diferentes. E, num piscar de olhos, há balanços africanos e brasileiros no disco”, comenta Pedro.

E se Corzinha de verão ironiza a falta de Sol, foi em um inverno mais ameno do que o português, o pernambucano, que Ana Bacalhau (voz), Luís José Martins (violão) e Zé Pedro Leitão (contrabaixo), além do próprio Pedro (violão), fizeram o primeiro show no Brasil. Aliás, na América do Sul. Os quatro se apresentaram na Praça Guadalajara (hoje Praça Dominguinhos), durante o Festival de Inverno de Garanhuns, em julho de 2013. Ficaram hospedados em Olinda e tiveram “as melhores impressões”, como contou Ana Bacalhau.

Três anos depois, os Deolinda voltaram ao Brasil com o quarto álbum de estúdio, que estreou em primeiro lugar no iTunes português. A turnê de Outras histórias tem mais de 25 datas confirmadas, incluindo palcos na Bélgica e Espanha, e será apresentada na Festa dos Santos Populares Portugueses, no Rio de Janeiro, em 10 de junho. Mais datas ainda estão em negociação.

Três perguntas para...
Ana Bacalhau, vocalista


Outras histórias é um disco independente? Vocês decidiram gravar e pronto? Ou teve um pedido de gravadora?
Foi igual aos outros: quando sentimos que estava na hora. E, depois de ter as canções ensaiadas, obviamente que mostramos as canções à gravadora – para eles também perceberem o que estava a acontecer. Mas, na verdade, é um processo muito centrado na banda.

Qual a diferença mais marcante entre a banda Deolinda que gravou Mundo pequenino e a que chegou ao estúdio para gravar Outras histórias?
A Deolinda de Mundo pequenino era uma banda que queria começar aexperimentar outros instrumentos, novas formas de apresentar uma canção. Em Outras histórias, a Deolinda é uma banda que já teve essa experiência e tem essa segurança de arriscar em coisas que nem pensávamos fazer. E avançar um bocadinho mais.

E as referências também mudaram?
As referências que mudaram foram as do cotidiano. Ou seja, a Lisboa de 2016 está diferente da Lisboa de 2013. Ou de 2008, quando começamos. E, portanto, a nossa música tenta refletir um pouquinho daquilo que observamos. Lisboa e Porto, as duas maiores cidades de Portugal, vivem uma multiculturalidade, um cosmopolitismo muito interessante. E depois nós viajamos o mundo inteiro, então, é natural que essas influências de outras culturas, de outros sons vão entrando na nossa música.

E mais três para...

Pedro da Silva Martins, violonista


Você é considerado o compositor mais prolífico de Portugal hoje e colabora com Ana Moura e António Zambujo. Como distribui o que compõe?
Em princípio, quando faço uma melodia, ainda sem ter letra, já sei para quem é. Não sei explicar muito bem, mas é que faço com uma voz na cabeça, uma ideia de voz que tenho. Também tento desenvolver um trabalho diferente para cada um. O próprio Desfado (disco de Ana Moura) é diferente da Deolinda, que é diferente do Zambujo. Tenho conseguido gerir essas diferentes vozes e tentar evoluir em caminhos diferentes.

O processo de compor Outras histórias ocorreu enquanto seu pai estava hospitalizado. Ainda assim, o disco é solar. Como você conseguiu?
Foi o disco mais difícil para mim, como compositor. Tinha meu pai muito doente e minha relação com ele sempre foi musical: ele era a primeira pessoa a quem mostrava as canções, o primeiro crítico. Como eu iria passar muito tempo com ele, fui aproveitando também para que acompanhasse tudo. Até o último momento, ele ouviu música – que era o que gostava, ouvir os filhos tocarem. O disco tem a energia dele também.

A música portuguesa vive momento de popularização no Brasil. Por quê?
Talvez nós estejamos mais adocicados. Este movimento musical do fado com outros ritmos é menos ortodoxo, mais universal. Acho que a linguagem do fado mudou – falo fado porque é o mais conhecido, mas me refiro à música portuguesa. O António Zambujo tem um balanço que é fácil para quem ouve bossa nova. Carminho já tem canções com o tempo mais acima do fado e é mais familiar para quem ouve samba. Portanto, há aqui uma aproximação natural, que vai crescendo com tudo que se vai ouvindo. 

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