Conheça as histórias de quem trabalha nos bastidores dos grandes shows

Por trás dos grandes shows, há um grupo de profissionais que pega no pesado, se vira para adaptar as exigências de estrelas internacionais à realidade local e segue o código profissional de não tietar

por Mariana Peixoto 20/03/2016 06:00

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JUAREZ RODRIGUES/EM/D.A PRESS
(foto: JUAREZ RODRIGUES/EM/D.A PRESS )
Quando um grande show termina, um exército de “formiguinhas” começa a trabalhar. São os carregadores da parafernália que envolve apresentações de bandas como a americana Maroon 5 e a britânica Iron Maiden – que marcaram lugar na agenda cultural de Belo Horizonte neste mês.


A formiga é precisamente o símbolo da  ParceriasProduz, empresa dos ex-roadies Marco Antônio Otoni, o Ratho, e Cristiano Martins, que há pelo menos 10 anos domina um nicho do mercado de shows em Belo Horizonte: de carregadores (para montagem e desmontagem de equipamento utilizado pelo artista) e de backline, como são chamados os instrumentos que os músicos utilizam em shows. Ivan Lins vem à cidade? O teclado será alugado da dupla. Artistas baianos (à exceção de Ivete Sangalo e Cláudia Leitte) não trazem percussão quando fazem shows aqui. É muito mais simples alugar o equipamento, que tem várias particularidades.

O mercado de shows exige uma série de detalhes, algo que passa despercebido pelo público que vai ao evento para ver seu artista. E seja ele Paul McCartney ou Wesley Safadão, as demandas não são tão diferentes assim. Engenheiro de produção, Darlan Penedo trabalha há três décadas fazendo projeto de eventos. É ele quem planeja, por exemplo, onde vai ficar o palco, onde (e quantos) serão os banheiros, a saída de emergência, quantos metros terá o balcão do bar. “Para o show do Iron Maiden, previsto para a noite de ontem na Esplanada do Mineirão, o cálculo da área na frente do palco foi de duas pessoas por metro quadrado. Numa festa de formatura, é bem diferente. Como há mesas, é só uma pessoa para cada dois metros”, explica.

Para realizar um evento para 10 mil, 20 mil, 40 mil pessoas, o número de profissionais é grande, e as especificidades de cada um também. Sílvio Gomes é um dos mais experientes e conhecidos stage manager (a pessoa que dirige e coordena um palco, verificando entrada de luz, vídeo, cenografia, entre outras coisas) e chefe de equipe.

Começou garoto, como carregador. Acompanhou o Sepultura desde sua formação, em Santa Tereza (é inclusive coautor da biografia Sepultura: toda a história, escrita com André Barcinski). Passou por todas as etapas com a banda, chegando a ser empresário. Deixou o grupo em 2006 e começou a trabalhar como free lancer.

Com currículo respeitável, tanto no Brasil quanto no exterior (já trabalhou em shows de Rolling Stones, U2, Iron Maiden, Foo Fighters, Paul McCartney, Elton John, AC/DC, entre vários outros), hoje está no Rio de Janeiro, onde fica até setembro trabalhando na produção dos Jogos Olímpicos. “Já trabalhei com áudio, como carregador, produtor, diretor. Trabalhar em áreas distintas só acrescenta”, comenta Gomes.

IN LOCO Como boa parte das pessoas que trabalham há muito tempo na área, Gomes aprendeu na prática. “Sou redondamente contra esses milhões de cursos que existem agora. Gosto da experiência in loco, a teoria é boa até certo ponto. Você precisa tomar choque para entender que energia é coisa séria, tomar tombo no palco para saber como deve ser feita a segurança.”

A experiência desses profissionais aparece na hora da produção de um evento, que pode trazer uma série de dores de cabeça. Penedo se lembra do show de Elton John, no primeiro semestre de 2013, o primeiro dentro do Mineirão pós-reforma – ele teve que levar a house mix (a estrutura em que os equipamentos de som e o operador ficam instalados em um evento) dois metros atrás do planejado pela produção do artista.

“Foi uma negociação grande com a equipe dele, pois os artistas trazem várias exigências e temos que respeitar tudo.” Com Beyoncé, que se apresentou também em 2013 dentro do estádio, a questão foi com o Corpo de Bombeiros, que exigia um guarda-corpo na passarela em que a cantora ficava, em frente ao palco.

Trabalhando em eventos para jovens, Penedo aponta mudanças socioculturais que acabam interferindo no projeto. “Os formatos mudam muito, e acredito que vão continuar mudando. Em relação às festas eletrônicas, por exemplo, há hoje uma certa resistência ao camarote. Há 10 anos, quando a economia brasileira havia melhorado, a ideia era ter um camarote para mostrar para os outros. Agora, quando todos querem ser iguais, há preconceito com quem está nele.”

A experiência com artistas nacionais e internacionais costuma ser bem distinta. Ratho e Cristiano se lembram de que, após o show de Paul McCartney, em duas horas e meia toda a estrutura que o show demandou (à exceção do palco) havia sido desmontada. “E eram 17 carretas”, recorda Cristiano, acrescentando: “Os gringos são mais tranquilos, organizados. Quando o show acaba, o serviço acaba em pouco tempo. Eles são mais centrados, não tem brincadeira, piadinha”.

Que ninguém espere que esses profissionais, por estar trabalhando em shows de grandes nomes, tenham algum contato com eles. Se há, é mínimo. “Faz parte do protocolo não pedir foto para o artista. Da escola de onde vim, você age com frieza, está ali trabalhando, não por diversão”, diz Gomes. Mas ele já teve seus momentos. Trocou cumprimentos com Paul McCartney e Dave Grohl, foi apresentado a Roger Waters. “Como fico no palco, invariavelmente na hora em que o artista entra e sai vou ter acesso a ele.”

“Sou redondamente contra esses milhões de cursos que existem agora. Gosto da experiência in loco, a teoria é boa até certo ponto. Você precisa tomar choque para entender que energia é coisa séria, tomar tombo do palco para saber como deve ser feita a segurança”

SÍLVIO GOMES, stage manager e chefe de equipe

“Os formatos mudam muito. Há dez anos, quando a economia brasileira havia melhorado, a ideia era ter um camarote para mostrar para os outros. Agora, quando todos querem ser iguais, há preconceito com quem está nele”

DARLAN PENEDO,engenheiro de produção

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