Marco Antônio Guimarães, criador do Uakti, planeja compor canções depois de vender acervo

Compositor, que colocou ponto final no grupo em outubro do ano passado, revela que UFMG e Inhotim estão interessados em comprar instrumentos que ele construiu ao longo de 45 anos

por Eduardo Tristão Girão 26/02/2016 10:00

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
LEANDRO COURI/EM/D.A.PRESS
Marco Antônio Guimarães em sua casa, em BH, anteontem (foto: LEANDRO COURI/EM/D.A.PRESS)
Marco Antônio Guimarães, gênio criativo da música mineira, adora o iogurte Trevinho. Não é só pelo sabor. Ocorre que o formato arredondado da base do copinho é perfeito para a sonoridade do mais recente instrumento que Guimarães criou. Ainda sem nome, o instrumento é composto também por tubos de PVC de diferentes comprimentos. Os copinhos são emborcados nas extremidades dos tubos e uma sucessão de palmadas neles revela notas perfeitamente afinadas. É impressionante como alguém consegue extrair tanto de tão pouco.


Talvez este seja o último instrumento criado por Guimarães. Em outubro passado, ele anunciou pelo Facebook o fim do grupo Uakti, que criou há 38 anos, para fazer música a partir de inusitados instrumentos que constrói com diversos materiais. No mesmo comunicado, para espanto geral, colocou à venda o acervo que reuniu ao longo de 45 anos de carreira, o que inclui todos esses instrumentos, além de esculturas sonoras, peças de reposição e ferramentas. Pela primeira vez desde então, o recluso artista resolveu falar. Na tarde de anteontem, ele recebeu o Estado de Minas em sua casa.

Guimarães voltou a dar aulas de música (das quais até leigos podem participar) e anda tocando bastante piano. Um de seus planos é começar a compor canções, contraponto numa carreira brilhante dedicada à música instrumental. “Isso para mim é uma coisa nova, então é estimulante ficar experimentando. Tenho grande admiração pelos grandes compositores de canções. O Milton Nascimento, por exemplo, tem série de músicas formadas por uma única frase musical, como Cio da terra e Ponta de areia”, afirma.

Atualmente, o músico mora sozinho na casa onde funcionava a sede do Uakti.

Por que o Uakti acabou?
O grupo durou 38 anos, é muito tempo. Poucos duram tanto. Nos últimos anos, começou a haver desgaste no relacionamento interno. O dia a dia de ensaio, teatro, hotel e avião é de convivência muito próxima. Parece que chegamos a um limite quanto a isso e comecei a perceber que até o conceito musical estava sendo alterado por ideias pessoais, afastando-se do propósito inicial do Uakti, que era ser um grupo para tocar instrumentos que crio. Não era um grupo para incluir muitos instrumentos tradicionais.

Esse tipo de discordância começou a ficar forte demais e, naturalmente, chegamos ao limite. Achei melhor não insistir numa convivência difícil depois de tantos anos convivendo bem. O Décio Ramos já tinha saído do grupo uns meses antes. De maneira nenhuma o grupo terminou por isso, mas era um sintoma de que a coisa não estava legal.

Por que decidiu vender todo o seu acervo?
Tenho 45 anos de pesquisa e construção de instrumentos e 50 anos de música. Atingi um nível muito adiantado nessa parte de pesquisa e construção de instrumentos. Tenho uma quantidade muito grande deles, e as pessoas que assistem aos shows do Uakti não têm ideia disso. Uma parte muito pequena deles fica no palco.

A maior parte não viaja ou é usada só em gravações, fora as séries de instrumentos que criei recentemente. Já foram testados e funcionaram. Fui além do que imaginava e já está bem completo o que fiz.

Seu coração não dói por colocar todo o seu acervo à venda?
No início sim, mas já assimilei. Isso é a minha vida. Já recebi alguns contatos de interessados. O mais diretamente interessado foi feito pela Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais. A diretora de lá, Mônica Pedrosa, veio conhecer os instrumentos. Ela conhece o grupo e tem os discos, mas veio ver de perto. Só venderei o acervo completo. Não faz sentido quebrar a coleção, pois seria uma desvalorização artística e financeira. O que estou vendendo é o que um artista criou a vida toda.

Inhotim também tem sido citado como um bom lugar para o acervo. A instituição fez contato?
Os fãs têm feito campanha. Acharia ótimo por vários motivos. Pelo espaço, pelo cuidado com a preservação. As salas são climatizadas e têm controle de umidade. Seria perfeito, pois saberia que eles seriam preservados. Há vários deles que são frágeis, não podem com umidade ou mudança brusca de temperatura, como os feitos com cabaça.

Qual é o valor do acervo?
Quando me fizeram essa pergunta pela primeira vez, respondi que poderia calcular por metros de PVC ou pelo quanto vale a minha alma. Isso é a minha vida, passei toda a vida fazendo isso. É tudo novo, nenhum desses instrumentos existia antes. Se você procura um artista plástico que tem o mesmo tempo de pesquisa e trabalho que tenho, e com o mesmo nível de prestígio, pode preparar uma grana (risos).

A venda do acervo também teve motivação financeira?
Também. Sei que muita gente deve achar que, pelo que fiz esses anos todos, sou rico. Parcerias com gente famosa, muitas viagens para o exterior, cinco balés para o Grupo Corpo, trilha para o Fernando Meirelles e por aí vai. Não é o caso, de maneira nenhuma. O acervo é o que produzi a minha vida toda e é o que posso deixar de herança para os meus três filhos. Não fiquei construindo casas nem comprando imóveis. Fiquei fazendo isso aqui. Vendendo, dividirei com eles o dinheiro. Com o que sobrar, vou ver quantos anos posso viver e onde (risos).

Uma vez vendido o acervo, o que ocorre com você?
Estou encerrando um trabalho de muitos anos e de muita intensidade. Estou terminando um ciclo importantíssimo na minha vida, como músico, compositor e luthier. Isso coincide com o fato de eu ter entrado na idade avançada, estou com 68 anos. Para começar alguma coisa, é muito. Não dá mais para querer ser astronauta (risos).

Posso continuar compondo sem os instrumentos que criei e talvez até me dedique a compor canções, algo que nunca fiz. Tenho duas parcerias com o Milton Nascimento, que ele gravou, por exemplo. Aí, eu precisaria só de um piano e encontraria letristas que se encaixassem com a música que eu fizer. Também posso fazer trilhas, escrever para conjuntos de câmara, orquestra. Ou ir para a roça e largar esse negócio de música (risos).

E você viveria de quê?

Uai, sei lá. No Facebook, leio muita gente dizendo que ainda tenho muito a contribuir. É uma visão dos que gostam profundamente da música que fiz, mas posso achar que já fiz o suficiente como compositor. Não sobrou grande coisa. O que faltava era uma composição grande com orquestra, o que acabei de fazer com o mais recente balé do Grupo Corpo. Não tem muita coisa faltando.

O último disco do Uakti, Planetário, terá lançamento?
Ele foi feito, mas não é um disco exatamente com a característica do Uakti. Era o grupo com orquestra de cordas, então não tem tanto a cara do Uakti. Mesmo se o Uakti não tivesse acabado, nem daria para fazê-lo ao vivo, pois não há como bancar uma orquestra de cordas viajando. Ele ficou em segundo plano. Chegou a ser prensado e uma parte dos discos foi para o patrocinador, mas nem sei se foi para as lojas, não acompanhei isso. Aliás, nem compus para esse disco, pois já estava numa fase um pouco difícil de relacionamento com o grupo. Tem uma música minha, mas arranjada por outro músico. Para mim, é difícil colocá-lo como parte da discografia do Uakti, pois nos outros exploramos muito os instrumentos que criei.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE MÚSICA