Chiquito Braga é pai da famosa escola do violão mineiro que projetou o Clube da Esquina

Violinista, que completará 80 anos em março, influenciou Toninho Horta. Só agora, o mineiro vai gravar o primeiro disco solo

por Eduardo Tristão Girão 21/02/2016 10:00

Gladystone Rodrigues/EM/D.A Press
"Violão mineiro é um troço raro, ninguém toca como o pessoal daqui. A influência é do impressionismo, a mesma o jazz" , diz o músico (foto: Gladystone Rodrigues/EM/D.A Press)
 

Chiquito Braga olha para o próprio braço e diz: “Chego a arrepiar”. A lembrança que vem à mente do violonista mineiro, que completará 80 anos em março, é do tempo de criança, quando morava no Bairro Pedro II, em Belo Horizonte. Pontualmente, às 18h, o padre da igreja vizinha costumava colocar Pavane, uma das mais belas composições de Maurice Ravel, para tocar. “Ficava louco ouvindo aquilo”, conta. Pode parecer improvável, mas eis aí o nascimento do violão mineiro moderno, aquele tão elogiado por sua sofisticação harmônica.


Braga, o “pai da criança”, explica: “Ouvia muita música clássica. Aliás, antigamente, as rádios daqui de BH só tocavam música boa. Foi então que comecei a fazer essa escola de violão diferente. Tinha uns acordes de orquestra que queria fazer no violão. Comecei a usar os outros dedos para fazer a pestana no violão, além do indicador. Assim, conseguia acordes diferentes. Sempre fui fanático por harmonia, sempre gostei muito dos impressionistas Ravel, Debussy, Mussorgsky e Rimsky-Korsakov”.


A tal técnica, que nem ganhou nome, ele imagina ter criado aos 20 anos. Na época, um de seus amigos era Paulo Horta, irmão mais velho de Toninho Horta, que viria a se tornar ícone dessa estética. “Todo sábado, ia à casa deles. A gente ficava tocando e o Toninho por perto, ainda aprendendo uns acordezinhos. Ele foi se interessando e vendo que o violão tinha muitos recursos. Até hoje, fala que dei essa luz a ele. Mas Toninho é um músico pronto, que criou estilo próprio a partir desses acordes meus.”


Outros violonistas e guitarristas mineiros, como Juarez Moreira, adotaram o estilo. O nome acabou ficando escola mineira de violão moderno – um tanto formal para algo que surgiu e se alastrou informalmente. A riqueza e a complexidade harmônica daquilo que os instrumentistas passaram a tocar se tornou marca registrada da produção do estado, projetando Minas no cenário nacional. Não demorou para que gente de longe passasse a prestar atenção àquela música. O guitarrista norte-americano Pat Metheny é um ótimo exemplo.


“Violão mineiro é um troço raro, ninguém toca como o pessoal daqui. A influência é do impressionismo, a mesma do jazz”, observa o veterano. A propósito, apesar de se reconhecer como criador desse jeito de tocar, Braga faz questão de não deixar transparecer qualquer traço de vaidade. Nem se considera “pai” de geração alguma, muito menos melhor que os outros. “Não ligo para idade. Não sou este corpo aqui. Pratico ioga, faço meditação e sei que apenas uso este corpo”, diz ele, que também é vegetariano.

SEM MÉTODO Ao longo das últimas sete décadas, o violonista nem sequer cogitou escrever livro para registrar suas ideias estéticas ou sistematizá-las num método. Não por acaso, nem professor de música ele teve. Aprendeu praticamente sozinho. O pai tocava bandolim e um dos irmãos, violão. Começou aos 3 anos, imitando acordes no cavaquinho. Mais crescido, conseguiu segurar o violão e logo descobriu a guitarra – dedicou a vida a estes dois instrumentos.


Chiquito acompanhou artistas que vinham do Rio de Janeiro e São Paulo se apresentar em BH, tocou com grupos de artistas locais, como Célio Balona e Aécio Flávio, animou bailes, integrou regionais de programas de rádio e televisão.
“Todos os cantores que se apresentavam comigo na TV Itacolomi diziam que tinha de ir para o Rio”, lembra. Foi o multi-instrumentista e compositor Moacir Santos, numa de suas vindas a BH, que o convenceu a se mudar, em 1966. No Rio de Janeiro, tornou-se professor do mineiro por dois anos.


“O estudo com Moacir Santos foi muito bom. Aprendi muito sobre instrumentação e escrever para orquestra sinfônica”, explica Braga. Entre os primeiros amigos que fez por lá, estavam Eumir Deodato e Maurício Einhorn, que ajudaram a encontrar alunos de violão para que ele começasse a ganhar dinheiro. Com o tempo, as portas da MPB se abriram. Ele tocou com Elizeth Cardoso, Tim Maia, Gal Costa, Maria Bethânia, Maysa, Caetano Veloso, Wilson Simonal, Fafá de Belém, Taiguara e Tito Madi. Curiosamente, não participou de nenhum disco de artistas ligados ao Clube da Esquina.

ESTREIA Mesmo com tanta experiência e seu estilo único de tocar violão, Chiquito Braga só passou a se dedicar com mais afinco à composição nos últimos 10 anos. Ouvir um tema que ele tenha composto é missão das mais difíceis, pois, além de não ter gravado disco solo, poucos registraram peças suas – entre eles, estão o grupo vocal Os Cariocas e Tito Madi. Essa situação preocupou amigos e a mulher, Denise Marun, que finalmente conseguiram convencê-lo a entrar em estúdio.
A palavra é mesmo esta: convencer. “Nunca quis gravar. Não sei o porquê, pois tempo eu tinha. As gravadoras me ofereciam oportunidades, inclusive o Roberto Menescal, que foi diretor de uma delas. Ficava enrolando eles”, brinca. Finalmente, em outubro do ano passado, foi iniciada a gravação das 10 faixas do disco solo de estreia de Braga, ainda sem nome. Ele é acompanhado por Rafael Vernet (piano), Kiko Freitas (bateria) e pelos baixistas João Batista e Christian Gálvez.


No álbum, ele toca quase apenas guitarra – a Gibson SG Custom comprada em Nova York, nos Estados Unidos, quatro décadas atrás. “Tem muito improviso nesse disco”, adianta Braga. Atualmente, o trabalho está em fase de mixagem e não há previsão de lançamento. “Talvez este ano”, despista ele, íntimo de programas de computador voltados para músicos. Além de não ter pressa alguma, o violonista reuniu vários filmes, balés e óperas para assistir ao lado da mulher. E ainda estuda violão diariamente.

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