Família de Ary Barroso guarda o piano em que o compositor mineiro aprendeu a tocar

Piano, terror de várias cantoras, foi usado para compor Aquarela do Brasil. Outros dois instrumentos do músico mineiro também ainda estão com a família

por Ana Clara Brant 21/02/2016 10:00

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Arquivo O Cruzeiro/EM/D.A Press 2013 10/1/53
Arquivo O Cruzeiro/EM/D.A Press2013 10/1/53 (foto: Arquivo O Cruzeiro/EM/D.A Press 2013 10/1/53)

Um monumento em Ubá, na Zona da Mata, homenageia o filho mais ilustre da cidade, Ary Evangelista Barroso (1903-1964). A estátua, localizada na Praça São Januário e inaugurada em novembro de 2013, traz o compositor, arranjador e radialista à vontade no piano, instrumento que ele conheceu ainda criança. Nele, compôs clássicos da nossa música como Aquarela do Brasil, Na baixa do sapateiro, No rancho fundo e Isto aqui o que é. Pelo menos três dos pianos em que o músico tocou estão sob os cuidados de seus familiares, e, praticamente, como nos velhos tempos.

O primeiro, conhecido como “o piano da tia Ritinha”, no qual Ary Barroso deu os primeiros toques, fica em Ubá, na casa de uma de suas primas, a aeroviária aposentada Lúcia Thereza Doyle, de 80 anos. Quando os pais do artista morreram, em 1911, ele passou a ser criado pela avó, Gabriela Augusta de Rezende, e pela tia, a professora de piano Rita Margarida de Rezende. “Daí a denominação do instrumento, ‘o piano da tia Ritinha’. O Ary tinha 7 anos quando aprendeu a tocar com ela. Aliás, quase toda a nossa família aprendeu a tocar nesse piano”, conta Lúcia.


De origem alemã, da marca Ritter Halle e tombado, o instrumento todo preto deve ter pelo menos 100 anos, segundo a prima do compositor, e tem característica peculiar: dois castiçais, um sinal de que, quando foi fabricado, nem luz elétrica havia.

Lúcia Thereza lamenta que, no fim dos anos 1950, um afinador de Cataguases tenha substituído as teclas originais de marfim pelas de plástico, sem a família Barroso perceber. “Foi uma pena. Só depois de um tempo que ele entregou o piano e alguém foi tocar é que a gente viu o que tinha ocorrido. Mas, pelo menos, até hoje o piano funciona”, revela a aposentada, que, em 2003, ano do centenário de Ary, doou o instrumento para a prefeitura da cidade. “Oficialmente, ele pertence ao município, mas, como até hoje não tem um local adequado para instalá-lo, ele permanece na minha casa, até porque é uma riqueza da família e da cultura do Brasil”, celebra.

Paulo Filgueiras/EM/D.A Press
Lúcia Thereza Doyle com o instrumento em que o compositor aprendeu a tocar (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)

ACERVO Outros dois pianos que pertenceram ao músico estão na casa do neto Márcio Barroso, de 56 anos, responsável pela Editora Aquarela do Brasil, que administra as canções do avô (são cerca de 450). Aliás, o acervo guardado em sua casa, no Rio de Janeiro, também reúne fotos, troféus, partituras, cachimbos e outros objetos de Ary Barroso.
Com a intenção de divulgar mais a obra do pai de sua mãe – Mariúza, ainda viva, com 82 anos –, Márcio ofereceu um dos pianos ao Museu da Imagem e do Som (MIS) carioca, em regime de comodato. “Como o MIS agora está com um espaço novo, em Copacabana, achei que seria um bom local pra disponibilizar esse piano. Desde criança, esse instrumento me chamava a atenção por ser de cauda, vermelho, e ter detalhes chineses. E ainda tem um som maravilhoso. Mesmo pequeno, eu me lembro de ver o vovô tocando nele em seu apartamento no Leme. Foi nele que criou sua obra-prima, Aquarela do Brasil”, ressalta


Márcio acrescenta que outras instituições entraram em contato com ele e demonstraram interesse no instrumento: o Museu Histórico Nacional, a Casa da Gávea, o complexo gastronômico Lagoon, na Lagoa Rodrigo de Freitas, e até a cravista e pianista Rosana Lanzelotte, do portal Musicabrasili. “Muita gente me procurou, mas, como veio essa coisa do carnaval, aí deu uma parada. Mas agora vamos retomar as negociações e ver qual lugar tem a melhor proposta. Até porque essa coisa não pode ser da noite para o dia, já que é em regime de comodato”, avisa.


O piano vermelho ficou famoso por ser o terror das cantoras, como lembra o neto de Ary Barroso. Boa parte de suas músicas eram lançadas nele, e o ubaense sempre convidava uma artista para cantá-las. “Ele era muito exigente e elas ficavam bem nervosas quando o meu avô começava a tocar. Era uma prova de fogo”, frisa. Outro instrumento que está bem conservado e que pertenceu ao músico é um piano de armário, não tão pomposo, mas que também deve entrar no esquema de comodato. “Como a gente até hoje não conseguiu um museu dedicado ao Ary Barroso, acho que esses objetos deveriam ser expostos e até tocados. Não adianta ficar guardando dentro da minha casa preciosidades como essas”, conclui Márcio Barroso.

 

O canto da minha terra

Em março, o Ballet Stagium de São Paulo, sob a batuta da diretora húngara Marika Gidali e de seu marido, o coreógrafo mineiro Décio Otero, vai apresentar no Sesc Palladium o espetáculo O canto da minha terra. A produção gira em torno da obra de Ary Barroso. Na trilha sonora, aparecem faixas como Aquarela do Brasil e No rancho fundo, que servem como fio condutor para cenas de passos contemporâneos. As cantoras Célia e Celma Mazzei, que são de Ubá e cujo pai era amigo de Barroso, participarão da apresentação.

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