Portuguesa Maria João e brasileiro Guinga fazem parceria no álbum Mar afora

Dupla fez série de shows em 2014 e 2015 e agora lançam o disco com mix de lirismo, densidade e agilidade

por Kiko Ferreira 02/02/2016 08:00

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Gargântua Produções/Divulgação
A cantora portuguesa Maria João agora conhece a fundo a música do violonista brasileiro Guinga (foto: Gargântua Produções/Divulgação)
 

Apesar de, nas últimas décadas, nomes como Maria Bethânia, Eugênia de Mello e Castro, Pedro Abrunhosa e Misa terem fornecido ajuda aos brasileiros para dissipar a ideia de que a música portuguesa é só fado, a portuguesa Maria João e o brasileiro Guinga passaram a conhecer os respectivos trabalhos por vias, digamos, não oficiais. Guinga ficou sabendo da existência da moça no programa de TV Oceano (1998-2000), de Geninha, que era apresentado por ela e Nelson Motta pela Cultura e pela RTP portuguesa. Maria, por sua vez, conheceu a música do carioca por uma de suas alunas na Escola de Música de Lisboa.

Bem, seja de que maneira for, os dois passaram a se admirar mutuamente e a trocar figurinhas até se conhecer, em 2011. No ano passado, Maria João dividiu com a italiana Maria Pia de Vito, a americana Speranza Spaulding e a brasileira Mônica Salmaso as 13 faixas do álbum Porto da Madama, dedicado à música do brasileiro. Mas o melhor da dupla foi mostrado numa série de shows que fizeram em 2014 e 2015, no Brasil e no exterior, e que forneceu bases para o recém-lançado disco Mar afora, gravado pelo selo alemão Acoustic Music Records. Registrado em julho do ano passado no estúdio da gravadora em Osnabruck, na Alemanha, apresenta os dois mesclando estilos e visões de mundo diferentes em torno de 14 clássicos. A maioria deles já registrados de maneira marcante por Fátima Guedes (Vô Alfredo), Leila Pinheiro (Canibaile, Catavento e girassol, O coco do coco) e Monica Salmaso (Passarinhadeira, Senhorinha).

Acostumada a diálogos frequentes, em 30 anos de carreira e 25 discos, com músicos e intérpretes como Mario Laginha, David Linx e Aki Takase, Maria João se mostra à vontade com os tortuosos caminhos do universo guinguiano e coloca sua versatilidade vocal, que vai do grave mais contido ao agudo quase infantil, para dialogar com a pegada complexa e sólida de Guinga. Num mix de lirismo, densidade e agilidade, a parceria faz justiça a uma das concepções da palavra jazz que, segundo defende o historiador da comunicação Marshall McLuhan, viria do francês jaser: dialogar.

Mesmo naquelas letras em que Aldir Blanc se dá o direito de se divertir com intrincados jogos de palavras, Maria João assume uma persona quase carioca, esquece o sotaque luso e dá conta das sutilezas da empreitada. Mesmo quem já conhece todas as gravações do songbook do sr. Carlos Althier de Souza Lemos Escobar deve ouvir esta troca de cores e notas com Maria João Monteiro Grancha, filha de pai português e mãe moçambicana, que, em boa parte do tempo, se torna uma boa intérprete da alma brasileira.

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