MC Soffia conquista seu lugar no hip-hop aos 11 anos de idade

Pequena rapper canta versos sobre a beleza das mulheres negras. No domingo, ela faz show em Belo Horizonte

por Shirley Pacelli 29/01/2016 09:30

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MARILIA MORAIS/DIVULGAÇÃO
MC Soffia é autora de 'Menina pretinha', música que "fala sobre as meninas aceitarem o seu cabelo" (foto: MARILIA MORAIS/DIVULGAÇÃO)
“Se um negro sofre, todos nós sofremos.” A afirmação é de uma MC de apenas 11 anos, que divulga com seu flow o orgulho black power e combate com firmeza o racismo. Soffia Gregório Gomes da Rocha, a MC Soffia, vem “causando” na cena nacional de rap. A paulistana está de volta a Belo Horizonte neste fim de semana, depois de se apresentar no Festival de Arte Negra (FAN), em novembro de 2015. Ela é uma das atrações do Palco Hip-Hop – Danças urbanas, evento com curadoria do coletivo Família de Rua, que integra a programação do Verão de Arte Contemporânea. O show de MC Soffia está marcado para o domingo no Sesc Palladium.


Com as batidas do DJ Lucas e ao lado de duas dançarinas ainda mais novas que ela, a rapper domina o palco e conquista o público. O friozinho na barriga até vem, mas ela supera rápido. “Quando estou no palco, esqueço tudo. Faço show e nem fico com vergonha”, conta.

Em BH, no FAN, Soffia participou da apresentação da banda Aláfia no Parque Municipal, que também contou com a rapper Zaika dos Santos como convidada. “Estou adorando voltar para BH. Foi o show com mais gente. Tinha muitos fãs e nem sabia”, diz.

Menina pretinha, composição de Soffia com dois amigos, traz seus versos mais conhecidos, que viraram palavras de ordem em defesa da beleza afro. “Menina pretinha/ Exótica/ Não é linda/ Você não é bonitinha/ Você é uma rainha.” Recentemente, ela gravou o clipe no Rio de Janeiro, com lançamento previsto para março. “A música fala sobre as meninas aceitarem seu cabelo”, explica a artista.

África é uma homenagem ao continente africano e cita uma série de mulheres de grande representatividade para a cultura negra, como a cantora Clementina de Jesus e as escravas Anastácia e Chica da Silva. “Continente africano/ Não trago só o gingado/ Trago conhecimento e o navio negreiro não foi apagado.”

 

 

 

Outra canção da pequena artista é Minha Rapunzel tem dread, que traz de forma leve, do jeito compreendido por uma criança, o tema da “sororidade”. “Queria falar de uma princesa. Ela é da Etiópia e é negra. Não precisa de um príncipe para salvá-la. A bruxa não é má. Não é inimiga dela”, diz a rapper.

PRECONCEITO
Soffia conta que se inspira no seu próprio dia a dia para criar. “Acho que algumas crianças já sabem sobre o cabelo e algumas coisas que canto, como o que é racismo. Isso vai ajudando a quebrar o preconceito”, afirma. “Quando for adulta, vou fazer uma música para quem chama a gente de macaco”, revela. O porquê da espera? “Vai ter palavrão. Fico brava. Vou falar tudo!”

A MC diz que acompanhou na internet casos recentes de racismo envolvendo a atriz Taís Araújo, a jornalista Maju Coutinho e jogadores de futebol. “Tem bastante (racismo)… Na escola, na faculdade, na rua, no Facebook”, lista. Para ela, a melhor maneira de combater o preconceito é a educação. “Tem lei de 2003 que diz que tem que ensinar a cultura africana nas escolas. Não só falar que eram escravos, mas falar da importância, dos heróis”, explica.

"Canto rap por amor"

 

Os primeiros passos de Soffia no hip-hop se deram em uma oficina, ainda com 6 anos. Aos 10, ela começou a rascunhar suas primeiras letras de rap. Apresentações nas comemorações do aniversário de São Paulo e participações em programas de TV vieram em seguida.

Soffia é filha única e vem de uma família que participa ativamente de movimentos da militância negra. Sua avó, Lúcia Makena, é referência na construção de brinquedos que fortalecem a identidade étnico-racial.

“Faço parte do movimento há muitos anos. Uma vez que você conhece, se apaixona. Hip-hop é estilo de vida”, diz Camila Pimentel, produtora cultural e mãe de Soffia. Ecoando a fala da mãe, Soffia diz: “Canto rap por amor”.

Nos fones de ouvido, Soffia escuta do rap ao funk. Beyoncé, Rihanna, Karol Conka, Flora Matos, Tássia Reis, Racionais MCs, Jay-Z, Dexter, Criolo, Ludmilla e Anitta fazem parte da sua playlist. Da cena rap paulistana, ela destaca suas favoritas: Negro drama e Da ponte pra cá, do álbum Nada como um dia após o outro dia (2002). “Elas falam sobre questão dos negros, da criança da periferia”, diz.

Antes de Soffia ganhar visibilidade nacional, ela já até subiu ao palco dos Racionais. “O Mano Brown é meu amigo, conheço ele. Estava na plateia com minha mãe assistindo ao show e eles me chamaram”, conta.

Além de cantora, Soffia sonha em ser médica, atriz, modelo, jogadora de vôlei, basquete e futebol. Ela mora no Cohab Raposo Tavares, na Zona Oeste paulistana, e estuda no Projeto Âncora, uma ONG-escola localizada em Cotia, na Região Metropolitana de São Paulo. Foi na escola que Soffia conheceu Malcom X (1925-1965), líder afro-americano. Já as histórias da escritora Carolina Maria de Jesus, da pintora Frida Kahlo e do guerreiro quilombola Zumbi lhe foram apresentadas em casa.

FUTURO EP


Até o início de janeiro, estava no ar uma campanha de financiamento coletivo para a gravação do primeiro EP de Soffia. Com apenas 136 apoiadores, a artista arrecadou R$ 5,9 mil dos R$ 20 mil da meta. Mesmo assim, o projeto segue em frente, de forma independente. A agenda está cheia até junho. “Não corro muito atrás de show, as pessoas que nos procuram. Avalio bem, porque a escola dela é a prioridade. Fico preocupada”, diz a mãe de Soffia, Camila Pimentel.

PALCO HIP-HOP

Neste sábado, às 20h, com Minas de Minas, Cia dos Anjos, Hebreus 11, Thiago Elniño (RJ), Clara Lima, DJ LB, seletiva da batalhas de danças e feira. Domingo, às 19h, Minas de Minas, Cultura do Guetto, Lipstick, MC Soffia (SP), Douglas Din, DJ Erick Jay (SP), finais da batalha de danças e feira. No Grande Teatro do Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro). Entrada franca. Ingressos devem ser retirados com duas horas de antecedência, com limite de dois por pessoa. Mais informações em https://goo.gl/Q88YpN

 

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