Festas garantem espaço bom e barato para os fãs de música eletrônica

Quase clandestinas, a MASTERplano e a 1010 são opções para quem quer trocar os clubes pelas ruas

por Shirley Pacelli 23/01/2016 08:00

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Pedro Pedro/Divulgação
A ideia é promover a cultura, 'unir todo mundo em torno da música' (foto: Pedro Pedro/Divulgação)
Dia 9 de janeiro, 18h. Enquanto duas amigas caminham pela Rua Aarão Reis em direção à Praia da Estação, um grupo segue em sentido contrário, rumo a um evento misterioso sob o Viaduto Santa Tereza. Três horas depois, no ápice da festa de música eletrônica, cerca de 1 mil pessoas dançavam insanas ao som de Digitaria, dupla mineira de DJs que integra line-ups de grandes festivais como o Tomorrowland Brasil e Lollapalloza. Prazer, MASTERplano.

Com 17 edições realizadas em 2015, o MASTERplano é um evento que, à sua maneira, quer democratizar o entretenimento. Trata-se de uma festa de música eletrônica na rua – sem lenço e sem documento. A divulgação é feita pelas redes sociais e o endereço divulgado apenas poucas horas antes da realização.

O coletivo responsável, que conta com 18 pessoas, reconhece que essa proposta não é pioneira. Quarteirão do Soul e Duelo de MCs ocuparam as ruas e se estabeleceram como opção acessível de cultura em Belo Horizonte anos antes, abrindo caminho para o que viria. Com festas alternativas, que atraem cada vez mais pessoas, é a vez de a nova cena de música eletrônica reivindicar seu espaço na capital.

Pedro Saldanha, o Pedro Pedro, artista visual de 23 anos que integra a organização, destaca que um dos méritos da festa, diante de outras iniciativas culturais, é a ideia de explorar a cidade. A festa já ocupou de estacionamento no Bairro Floresta até padaria no Bonfim. “O MASTERplano tenta criar e ativar espaços que não são convencionais para festas”, explica.

João Nogueira, de 29 anos, publicitário e DJ, explica que uma das motivações para a criação do MASTERplano foi a insatisfação com a cena: a ausência de identificação com o som. “Os clubes estão presos a fórmulas. DJs tocam para agradar a um público comercializado”, afirma.

CLUBES Justamente a liberdade artística encontrada no MASTERplano atraiu Daniel Albinati, DJ integrante do Digitaria ao lado de Daniela Caldellas, que tocou na festa sob o viaduto. “Foi uma das coisas mais legais da vida. Se pudesse, teria tocado seis horas”, conta. Segundo o DJ, no evento ele pôde tocar seu repertório mais experimental. “Exatamente por ser um público mais curioso, aberto”, acredita.

Daniel compara o MASTERplano ao começo da cena eletrônica dos anos 1990. “Era uma família fazendo festas ilegais, muito baratas, para se divertir mesmo”, descreve. Ele defende que a festa não deve nada para as da Europa. “Resgata a promoção da cultura. Une todo mundo em torno da música”, resume, alertando que BH é carente de espaços para música eletrônica. “Só tem o Deputamadre, que é o clube do nosso coração. É muita gente para pouca oferta. Por isso que o MASTERplano chegou triunfando tão fácil.”

Já o DJ Anderson Noise, com seus quase 28 anos de carreira, pondera que festas gratuitas acabam “dando um aperto” nos clubes, que, por consequência, não trazem boas atrações para a cidade. Ele baseia sua opinião especialmente pela experiência em São Paulo, onde,  desde 2009, se realizam festas de rua como a Voodohop. “Dou a opinião de DJ. Os clubes precisam pagar meu cachê para tocar e precisam recolher verba na porta para pagar por isso. Acho difícil”, argumenta.

Por outro lado, Noise lembra que, com iniciativas como o MASTERplano, pessoas sem recursos têm a oportunidade de participar de um evento de música eletrônica. “As festas de hoje são grandes e muito comerciais. Ingressos a R$ 300? Não é popular. Mas o David Guetta não vai tocar na rua de graça”, acrescenta.

Alexandre Ribeiro, o Lelê, proprietário do Deputamadre, diz que há 13 anos “tenta educar o público para a cultura eletrônica”. Ele já ouviu falar sobre a nova movimentação na cidade e tem interesse em conferir ao vivo. “Tem que renovar a cena. É a geração nova. A gente aprende com eles também”, diz, lembrando que pelo Deputamadre já passaram mais de 100 artistas internacionais, que têm residência em Ibiza, Miami e até na Croácia. “Festas de R$ 5 e outras de R$ 100 vão depender da atração da noite. Não existe mágica”, conclui.
 
Outra iniciativa recente da cena eletrônica de BH é a festa 1010. Paga, mas com preço mais acessível (R$ 10 em média), tem reunido cerca de 300 pessoas a cada edição. O evento foi criado, inicialmente, para pagar as contas do apartamento no edifício número 1010, no Centro, onde moram quatro amigos: Flávio Albino, DJ e produtor conhecido como Albin; João Vitor Costa, que se apresenta como DJ Omoloko; Marcelo Hoehne, produtor de eventos da Factory; e Thyer Machado, DJ e artista visual também do MASTERplano. A eles se juntou a amiga Izabela Egídio, estudante.
 
 
QUARTEIRÃO ELETRÔNICO
 
Comandado pelo DJ Felipe Reis, o programa surgiu em 2004 com a proposta de fomentar a cultura digital por meio da música. Em agosto de 2008, rolou a primeira festa de eletrônica na rua, sob o Viaduto da Floresta. Durante dois anos, foram realizadas festas mensais. O evento retornou ao espaço público na Virada Cultural de BH, em 2014, na Savassi. As 24 horas de música atraíram cerca de 120 mil pessoas. Em 2015, o Quarteirão abriu a programação da Virada e ficou marcado pela ocorrência de arrastões. Este ano, Felipe resolveu se apropriar do estigma e ressignificá-lo, promovendo um circuito cultural na Avenida dos Andradas – o Arrastão Eletrônico – durante os quatro dias de carnaval.
 
FAMÍLIA MIRANDA 
 
Quando a casa ficou pequena para as festas, os amigos foram para a rua fazer o som que não encontravam em festas ou boates de BH. Assim nasceu o MASTERplano. O primeiro “encontro” foi realizado em junho de 2015 no bar Família Miranda, na Rua dos Tupis, no Centro. “Foi bem entre amigos. A gente achou um lugar três horas antes. Saímos de bike perguntando de bar em bar quem topava colocar um som”, lembra Carol Mattos, de 23 anos, estudante de arquitetura e urbanismo, também do coletivo. Para bancar o aluguel do equipamento de som, que custa cerca de R$ 800 a cada edição, o grupo promove festas pagas, com preços mais acessíveis. 
 
Pedro Pedro/Divulgação
Em janeiro o tema 'Luz no fim do viaduto' inspirou os produtores e arrastou uma multidão até a região central de Belo Horizonte (foto: Pedro Pedro/Divulgação)
 

TECNO TAMBÉM PEDE PASSAGEM
 
“Parecem semelhantes, mas têm identidade própria”, garante Marcelo Hoehne, sobre a comparação entre a 1010 e o MASTERplano. O set do 1010, para começar, é mais pesado. Com muito tecno. Assim como a proposta visual da festa: mais obscura, abusando de referências a ruínas da cidade. “A gente traz alguma coisa dos clubbers”, explica o produtor. O line-up também se diferencia por trazer artistas mais experientes.

DJ Albin ressalta que o preço exorbitante cobrado pelas casas de BH é mais um impulso para o projeto. A 1010, segundo o grupo, é uma festa plural. “A gente quer mostrar que tecno não é só para playboy”, provoca Izabela. “E ensinar que tecno também é música”, retruca Albin.

“Em BH, 2015 foi o ano em que as pessoas quiseram fazer as coisas, foram lá e fizeram. Estava todo mundo aí. Ninguém é novo, a ideia não é nova, a música não é nova. Mas rolou um movimento de pegar e fazer”, resume Thyer. “E só foi possível porque essas pessoas se encontraram”, completa Marcelo.

1010
Sábado (23/01), às 23h, no Elite Scoth Bar (Rua Varginha, 228, Floresta). Line-up: Cantarutti, Omoloko, Thyer e Albin. Ingressos a R$ 10 (se for com look preto). Informações: https://goo.gl/zWPhAR

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