Pérolas alternativas marcam novo volume de série de Bob Dylan

O lançamento da série Bootleg de Bob Dylan traz o período mais fértil do compositor e revela o processo de criação do período que mudou a história da música

por Pablo Pires Fernandes 17/01/2016 08:43

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Columbia Records/ Divulgação
(foto: Columbia Records/ Divulgação)

The best of the cutting edge é o subtítulo do 12º volume das chamadas The bootlegs series de Bob Dylan. As séries começaram a ser lançadas em 1991, já com três álbuns, e são edições alternativas aos discos oficiais, com sobras inéditas, faixas ao vivo, mas, sobretudo, ensaios e gravações de estúdio distintas das originais. Esse vastíssimo material – que parece inesgotável – não é apenas para fãs obcecados com o bardo de Minnesota.

Primeiro, há que se reconhecer que Dylan é um dos artistas mais importantes da música do século 20. Ele revolucionou o pop de maneira irrevogável. Não seria exagero dizer que Dylan está para a música pop como Pablo Picasso está para a pintura moderna. São dois gênios que fizeram cortes no caminho da arte, historicamente determinantes.

Talvez o ponto mais importante da ruptura feita por Dylan seja o fato de ter deixado evidente que a música pop pode, e deve, ser levada a sério e ser reconhecida como arte. O passo dado por esse – então jovem – cantor e compositor fez muita diferença, poética e politicamente, logo, esteticamente. Ele afirmou que a música pop não é (apenas) coisa de adolescentes falando de amor ou do dia a dia trivial.

É, sim, um instrumento poderoso de discurso para expressar o sentimento de uma geração, seja protestando ou criando versos de um lirismo digno de Walt Whitman ou Dylan Thomas, que inspirou a alcunha adotada por Robert Zimmerman.

Dito isso, o segundo ponto é que as Bootleg series revelam muito desse revolucionário. As gravações alternativas escancaram o processo de criação, o modo como ele germinou clássicos. O lançamento desse 12º volume se torna mais relevante porque se trata do período-auge da carreira de Dylan. Os dois CDs recolhem as pérolas gravadas entre janeiro de 1965 e fevereiro de 1966, quando ele lançou três obras-primas: Bringing it all back home, Highway 61 revisited e o duplo Blonde on blonde.

ACIDENTE Os 14 meses de atividade, como ressalta bem o texto do encarte, ainda incluem turnês por três continentes, a adoção da banda The Hawks (que logo se tornaria The Band) para acompanhá-lo, o histórico show no Newport Folk Festival, onde tocou com guitarra elétrica pela primeira vez. Os registros dessa época foram, por exemplo, a base para o documentário No direction home, de Martin Scorsese. Pouco tempo depois, ele sofreu o acidente de motocicleta que o deixou de molho por um tempo.

Não é pouca coisa. Essas gravações causaram uma ruptura definitiva e grande impacto na música produzida nos férteis anos 1960. Hoje, 50 anos depois, é mais fácil analisar o degrau alçado por esses três álbuns. Os registros alternativos contidos neste 12º Bootleg evidenciam a fusão única realizada por Dylan entre os pioneiros do rock – Bill Halley, Buddy Holly, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis, Little Richard, Chuck Berry e, claro, Elvis – e a tradição folk, cuja maior influência é Woody Guthrie, mas também inclui Pete Seeger e Lead Belly.

Os três álbuns foram gravados com diferentes produtores – dois em Nova York e um em Nashville –, com músicos distintos e, certamente, cada qual com uma atmosfera própria. Isso fica claro ao ouvir as faixas de estúdio, com interjeições e comentários, interrupções e risadas.

As canções não são inéditas. As poucas não incluídas nos álbuns de estúdio já foram lançadas em outras Bootlegs (em outras versões). No entanto, o ouvinte que se der ao trabalho de apreciar comparativamente as versões será recompensado com algumas pérolas. Pode-se notar mudanças nas letras, no andamento, nos arranjos, na maneira de cantar. Tudo isso revela muito do processo de criação de um grande artista. É como ver o esboço do Güernica do Picasso. Certamente, não é nenhuma brincadeira.

A possibilidade de compreender a evolução e o processo de criação de um genial compositor, poeta e cantor singular é um privilégio. Ao menos para quem se interessa de fato por arte. “She’s got everything she needs, she’s an artist, she don’t look back” (“Ela tem tudo o que precisa, ela é uma artista, ela não olha para trás”), de She belongs to me, pode ser um bom resumo da grandeza do jovem Dylan da época. Ele sabia o que estava fazendo. E fez história.

DYLANMANIA

No Brasil, o lançamento do 12º volume da série Bootlegs foi um CD duplo, com um encarte de 60 páginas, e inclui fotos, textos e ficha técnica das 36 faixas. Nos Estados Unidos, além dessa edição, houve duas outras: uma com seis e outra com 18 CDs. A dylanmania move corações e bolsos. Certamente, 18 discos a US$ 600 é um exagero só palatável para obsessivos. A versão de seis ainda é bastante redundante.

A edição de dois CDs (por aproximadamente R$ 80) está de bom tamanho e, para quem quiser um detalhe ou outro maior, é o caso de comprar, além do CD duplo, uma dúzia de faixas pela internet, segundo o conselho de Seth Colter Walls, jornalista do The Guardian que se deteve sobre o problema.

THE CUTTING EDGE

1965- 1966:
THE BOOTLEG
SERIES VOL. 12
>> De Bob Dylan
>> Columbia Records
>> Preço médio: R$ 80,
versão com dois CDS

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