Produções nacionais usam canções de Bowie em trilhas e como base para criar suas obras

Músicas do compositor britânico estão presentes em filmes de diferentes estilos e temáticas

por Carolina Braga 13/01/2016 08:30

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Aline Arruda/Mostra de SP/Divulgação
Dirigido por Marina Person, 'Califórnia' usa 'Five years', que faz parte do lendário álbum 'The rise and fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars' (foto: Aline Arruda/Mostra de SP/Divulgação)
Tinha que ser Five years, a música de David Bowie gravada em 1972 e lançada no álbum The rise and fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars. A faixa foi escolhida para fazer parte da trilha sonora de Califórnia, o primeiro longa-metragem de ficção de Marina Person, quando ela ainda estava escrevendo o roteiro. “Poderia ser outra, mas já tinha imaginado essa”, conta a atriz e apresentadora, ex-VJ da MTV.


Com o brasiliense José Eduardo Belmonte se passou o mesmo. Durante os ensaios de A concepção (2005), David Bowie comandava a trilha sonora do aquecimento. “Foi uma grande inspiração para o filme. Brincávamos que Bowie era o avô dos concepcionistas. A ideia de se reinventar e criar personagens para se revelar era a técnica dos concepcionistas”, diz o cineasta.
Segundo o Internet Movie Database (IMDb) as músicas de Bowie foram usadas mais de 400 vezes em filmes e seriados. É um espaço em que, mais uma vez, a versatilidade do artista marca presença. As músicas de Bowie embalaram ficções científicas, como a recém-premiada no Globo de Ouro, Perdido em Marte (2015), de Ridley Scott, comédias românticas como Uma linda mulher (1990), dramas como Dogville (2003) e até filmes pipoca como As patricinhas de Bervely Hills (1995). Entre as séries, está presente em Mad men, Os Simpsons, Friends e outras.


No Brasil, além de Califórnia (2015) e A concepção (2006), que escolheram respectivamente Five years e Oh! You pretty things, outros dois filmes aparecem na lista. Praia do futuro (2014), de Karin Ainouz, teve “Heroes” na trilha, e Hoje eu quero voltar sozinho (2014), de Daniel Ribeiro, Modern love.


“Sou fã de David Bowie desde que tenho 15 anos. Como a base de Califórnia são as minhas vivências, foi uma adolescência muito influenciada por ele”, afirma Marina Person. O filme se passa no início dos anos 1980 e acompanha a adolescência de Estela (Clara Gallo), que vive os conflitos típicos da idade. Ela tem adoração pelo tio, Carlos (Caio Blat), jornalista musical admirador de David Bowie que vive nos Estados Unidos.


Marina Person conta que o filme tem pelo menos oito referências explícitas a Bowie, que morreu anteontem, aos 69 anos, vítima de câncer no fígado. Tem camisetas, capas de livros e discos, pôsteres, muitas falas e, claro, Five years. “Foi a música mais difícil de conseguir os direitos. Chegou um momento que encrencou geral e eu comecei a ficar desesperada”, lembra.
Person foi atrás de André Sturm, que organizou uma exposição sobre Bowie no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, apelou para André Frateschi, que faz covers do cantor, e nada. “Fiquei tentando, tentando e uma hora apareceu. Todas as músicas dele são incríveis, mas essa casou perfeitamente”, conta. Para a ex-VJ, Bowie e sua obra colaboraram para a formação tanto do gosto pessoal dela como também do comportamento.


O caso de José Eduardo Belmonte é parecido. Para ele, a atitude de Bowie sempre foi fonte de inspiração. Quando começou a pensar o roteiro de A concepção, se apoiou no longa de Todd Haynes, Velvet Goldmine (1998), uma cinebiografia não autorizada.

 

AS MÚSICAS DE BOWIE NO CINEMA

 

l Fame (1975, Young Americans)
Foxcatcher: Uma história que chocou o mundo (2014);
Doidas demais (2002);
Rush: No limite da emoção (2013);
Ugly Betty (2007); Mais uma sexta-feira em apuros (2000); Uma linda mulher (1990)

l “Heroes” (1977, “Heroes”)
Os Simpsons (2007); Praia do futuro (2014);
O grande herói (2013);
As vantagens de ser invisível (2012);
O Besouro Verde (2010); Godzilla (1998)
l Starman (1972, The rise and fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars)
Perdido em Marte (2015);
A vida marinha com Steve Zissou (2005)

l Modern love (1983, Let’s dance)
Mauvais Sang (1986); Hoje eu quero voltar sozinho (2014); Frances Ha (2012); Férias frustradas de verão (2014)

l Young Americans (1975, Young americans)
O senhor das armas (2005); Manderlay (2005);
Dogville (2003);

GUTO MUNIZ/DIVULGAÇÃO
Samira 'Ávila no espetáculo Heróis: uma pausa para David', com texto e direção de Paulo Azevedo (foto: GUTO MUNIZ/DIVULGAÇÃO)
Artista em crise

 

David Bowie também é a principal inspiração para a peça Heróis: uma pausa para David. O espetáculo será apresentado em Belo Horizonte na Programação da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança entre 25 de fevereiro e 7 de março. Na montagem, com texto e direção de Paulo Azevedo, a atriz Samira Ávila interpreta um astro de rock em crise com a própria fama.

“Queria falar sobre o lugar do artista e, quando fui ver a exposição do Bowie (no MIS-SP), vi nele a possibilidade de uma fonte de inspiração para tratar de coisas que eram muito próximas de mim”, afirma Paulo Azevedo. Assim como Bowie, o personagem de Heróis e seus criadores lidam com o desejo de se reinventar a cada novo trabalho.


“Bowie foi uma figura contraditória, intensa e visionária. Teve uma trajetória de vida muito próxima daquilo que é um mito de um artista. No início da carreira, buscou estratégias para fazer com que a obra se tornasse relevante”, conta o diretor e dramaturgo. Segundo ele, ao falar sobre Bowie, aborda também todo o cenário histórico musical do qual faz parte. “Não tem como ignorar a história dos Rolling Stones, do Pink Floyd, do Bob Dylan, todos os outros Davids que circularam em torno dele.”


Nunca foi intenção fazer uma peça biográfica ou musical. Apesar de ter Bowie como figura central, a trilha sonora da peça é original, assinada por GA Barulhista. O universo do cantor e compositor não era familiar para o músico mineiro. Assim, ele partiu para uma escuta analítica com objetivo de recriar e incorporar o estilo do britânico no próprio jeito de fazer música.


“Fiz um híbrido do texto da peça, a biografia do Bowie escrita por Marc Spitz, as músicas que o Paulo Azevedo já tinha separado e a minha forma de unir áudio e dramaturgia. Só agora consigo entender com calma o que fiz. O processo, assim como o resultado, foi diverso”, explica GA Barulhista. Para ele, o maior desafio foi lidar com a constante renovação na obra de Bowie. “A primeira coisa que pensei foi: ‘Como criar uma unidade para algo tão diverso?’”, completa.


Para Paulo Azevedo, Heróis, uma pausa para David, não é um espetáculo de artistas para artistas. “É um questionamento sobre aquilo que cada um faz e o que torna isso arte”, resume.

 

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