David Bowie recebeu o apelido de Camaleão por suas constantes inovações

Cantor e compositor inglês, lenda da cultura pop, morre de câncer aos 69 anos

por Mariana Peixoto 12/01/2016 11:16

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MARTIN RICKETT/PA/AP %u2013 17/11/03
CANTOR E COMPOSITOR INGLÊS, LENDA DA CULTURA POP, MORRE DE CÂNCER AOS 69 ANOS (foto: MARTIN RICKETT/PA/AP %u2013 17/11/03)
“Algo aconteceu no dia em que ele morreu.” Com o anúncio da morte de David Bowie, na madrugada de ontem, após 18 meses de batalha contra um câncer, o verso de Blackstar repercutiu sobremaneira mundo afora. Após o impacto inicial – Bowie havia lançado seu excepcional canto dos cisnes, também nomeado Blackstar, na sexta-feira, mesmo dia em que completou 69 anos –, a intenção de sua derradeira obra começou a ser compreendida.


Foi outra das sete faixas do álbum, uma pancada jazz-rock que comprova que Bowie, ao contrário de muitos de sua geração, nunca se acomodou, que ele falou da (agora sabemos) morte iminente. Na última imagem (por ora) conhecida do músico, Bowie, com aparência debilitada, se debate numa cama do que parece ser um sanatório.

 

Tal imagem está no videoclipe de Lazarus (Lázaro é o leproso que Jesus Cristo trouxe de volta do mundo dos mortos), canção aberta com “Olha aqui, eu estou no céu”. Vendado, com dois objetos sobre os olhos, ele continua falando que está em perigo, mas nada tem a temer. Ainda cita “cicatrizes que não podem ser vistas”. Já de pé, com o rosto à mostra, dança lembrando-se do tempo em que havia chegado a Nova York “e estava vivendo como um rei”. O vídeo termina quando ele se volta à escuridão, entrando num armário.

 

A música sempre foi a principal via de expressão de Bowie, mas nunca caminhou sozinha. Cinema, moda, artes plásticas, nada foi gratuito. Para tudo (como ele comprovou na própria morte), havia uma intenção.

 

Nascido em 8 de janeiro de 1947 em uma família humilde de Brixton, ao sul de Londres, David Robert Jones se tornou Bowie para evitar confusão com o integrante dos Monkees, Davy Jones. Ainda assinava Davie Jones quando, aos 17 anos, lançou Liza Jane/Louis Louis go home, suas primeiras músicas, em junho de 1964.

 

Nessa época, já tinha a pupila direita permanentemente dilatada (o que lhe garantiu olhos de cores diferentes, uma de suas principais marcas), resultado de um soco que levou do amigo George Underwood (que assinou o design dos álbuns do início de sua carreira) ainda na escola.

 

Seus primeiros lançamentos não tiveram muita expressão. A virada ocorreu em 1969, com Space oddity, a mítica canção sobre Major Tom, astronauta que se perde no espaço – hoje na trilha de filmes e comerciais, na época foi usada pela BBC em sua cobertura da primeira viagem tripulada à Lua. Ontem, seus versos iniciais foram citados por Gianfranco Ravasi, chefe do setor cultural do Vaticano, que pediu que “o amor de Deus” estivesse com Bowie.

 

Major Tom apareceu, posteriormente, nas canções Ashes to ashes (1980) e Hallo spaceboy (1996). Mas foi outro personagem que se tornou um dos mais influentes, não só da trajetória de Bowie, mas da história do rock. Oficialmente, Ziggy nasceu em 6 de junho de 1972. O alienígena andrógino chega à Terra para tentar salvá-la da destruição, anunciada para daí a cinco anos. Só que, em seu périplo, transforma-se num astro junto à banda Spiders from Mars e, como qualquer rockstar da época, exagera na dose. Ziggy Stardust teve vida curta. Bowie o matou em julho de 1973, em pleno palco.

 

Nessa época, ele já tinha conhecido Lou Reed e Iggy Pop. Bowie produziu Transformer em 1972, primeiro álbum solo de Reed e aquele que determinou as bases de sua carreira. Também levou Iggy para a Inglaterra, se esforçou para que os Stooges voltassem a se reunir, resultando em seu terceiro álbum, Raw power, mixado pelo próprio Bowie. Mais tarde, produziu e participou de faixas de dois clássicos de Iggy: The idiot e Lust for life, ambos de 1977.

 

Foi na metade da década de 1970 que Bowie fez sua primeira grande incursão no mercado norte-americano, com Young Americans, álbum francamente influenciado pela soul music. Fame foi coescrita por John Lennon. Com o glitter rock morto, Bowie, de terno e cabelo impecáveis, encara novo personagem, This White Duke (Duque magro e branco).

 

FAMÍLIA

Com a mulher Angie e o filho Zowie, muda-se para os Estados Unidos. Mas a temporada é curta e, em 1976, decide viver em Berlim. Nos quatro anos na Alemanha, Bowie produziu com Brian Eno a trilogia (Low e Heroes, ambos de 1977, e Lodger, de 1979) que abriu caminho para o post-punk e a cold wave.

 

Vieram os anos 1980, e com eles o período voltado para as pistas de dança, em que o álbum Let’s dance (1983) foi protagonista. O camaleão que já tinha transmutado de tantas maneiras chega, no final daquela década, até o período hard-rock, com o grupo Tin Machine.

 

Com a chegada de nova década, Bowie retorna para a carreira solo, agora sob a égide da música eletrônica. Um dos exemplares desta fase é Earthling (1997), disco claramente pela explosão do eletro e do rock industrial.

 

Como artista que sempre dialogou com seu tempo, Bowie adaptou-se facilmente à internet. Em 1999, lançou o álbum Hours na rede, autorizando o download por meio de pagamento. Na mesma época, era criado o Napster, programa pioneiro de compartilhamento de arquivos sonoros, que alcançou patamares nunca imaginados e se tornou uma febre entre os internautas – e gerou brigas históricas entre bandas, gravadoras e órgãos reguladores de direitos autorais.

 

Ainda que tenha sido o mais performático de sua geração, Bowie nunca se considerou um homem do palco. Em entrevista em 2002, afirmou que não gostava de fazer performances. “Eu posso fazê-lo, e fazê-lo muito bem. Mas ,cinco ou seis shows depois, fico morrendo de vontade de deixar a estrada e voltar para o estúdio.”

 

Abandonou os palcos em 2006, quando participou de um evento beneficente em Nova York, rara aparição após uma angioplastia sofrida dois anos antes. No entanto, manteve até o fim da vida proximidade com seu público, principalmente por meio das redes sociais.

 

Em 2013, depois de uma década sem um trabalho inédito, lançou um dos álbuns mais incensados daquele ano, The next day. Antecipando em duas semanas o lançamento oficial, disponibilizou as 14 faixas para streaming gratuito.

 

Na mesma época, relançou parte de sua discografia, incluindo Ziggy Stardust (1972) e Aladdin Sane (1973). Seus 50 anos de carreira foram celebrados na exposição David Bowie is. Produzida pelo Victoria & Albert Museum (V&A), em Londres, levou multidões ao Museu da Imagem e do Som (MIS), quando foi apresentada, no início de 2014, em São Paulo.

 

Diante disSo, o anúncio direto e sem meias palavras, de sua morte, feito por meio de sua página oficial no Facebook (era madrugada alta no Brasil), fez, mais uma vez, todo o sentido. “Algo aconteceu no dia em que ele morreu”, David Bowie nos diz. Morremos um pouco também, respondemos a ele.

 

REINVENTOR DE SI MESMO

 Veja alguns álbuns que mostram a genialidade mutante do compositor.

 

The man who sold the world (1970)

Vestido de mulher na capa do álbum, Bowie cria um personagem que dá início ao jogo entre masculino e feminino e androginia que o caracterizaria de maneira decisiva. A teatralidade incorporada ao universo musical, ampliada pelas interpretações dramáticas e narrativas, confere a essa obra um caráter pioneiro na fusão de diferentes linguagens artísticas. Nasce o glam-rock.

MÚSICA-CHAVE: The man who sold the world

 

The rise and fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972)

Apesar de já ter flertado com tema espacial em Space oddity (1969), seu primeiro hit e primeira criação de um personagem, é com Ziggy Stardust que o conceito alcança a plenitude. O álbum narra a história de um cantor de rock extraterrestre que se mata no auge do sucesso. Bowie leva ao extremo o conceito de assumir um personagem, misturando criatura e criador. MÚSICA-CHAVE: Starman

 

Young Americans (1975) Embora as letras sejam menos impactantes que em seus anteriores, a virada musical causou um verdadeiro terremoto. Aqui, o compositor se volta à tradição de rythm’n’blues dos EUA, incorpora o suíngue da música negra e realiza um álbum que mescla soul e disco, com batidas marcantes, que foi chamado de “plastic soul”. Repleto de referências ao movimento das liberdades civis, conquistou o grande público nos EUA. MÚSICA-CHAVE: Fame

 

Low (1977), Heroes (1977) e Lodger (1979)

A chamada Trilogia de Berlim abarca o período em que Bowie se mudou para a então capital da Alemanha Ocidental, ainda cercada pelo muro. Os excessos da fama e das drogas foram as razões para o autoexílio e deram origem à parceria com Brian Eno, que dividia casa, composições e produção musical das três obras-primas do período, marcadas pelo experimentalismo e por incorporar atmosferas eletrônicas às canções. MÚSICA-CHAVE: Heroes

 

Let’s dance (1983)

Radicalizando a proposta de Scary monsters (1980), o artista se lança em busca de um público mais amplo. Apesar de algumas referências ao funk, esse álbum pode ser considerado como pós-disco, repleto de sintetizadores e efeitos. As batidas marcadas trazem um clima dançante e reafirmam que a música pop pode, sim, ter canções de alto nível estético. MÚSICA-CHAVE: Modern love

 

Blackstar (2016) Testamento derradeiro lançado há apenas cinco dias, o último álbum oficial de Bowie trilha, de certa maneira, o caminho aberto por The next day (2013), seu único lançamento em 10 anos. Dessa vez, leva o rock às fronteiras do jazz, com arranjos complexos e soturnos, suítes com cordas e sopros que deixam de lado qualquer proposta comercial (a faixa-título, que abre o álbum, tem quase 10 minutos). MÚSICA-CHAVE: Lazarus



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