Disco 'Sambas para a Mangueira' reúne 30 composições e dezenas de bambas

CD duplo é um passeio pela história da Estação Primeira

por Walter Sebastião 05/01/2016 08:00

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AUGUSTO CORSINO/O CRUZEIRO/EM/D.A.PRESS
Cartola, um dos criadores da Mangueira, e dona Zica. No CD 'Sambas para a Mangueira' há cinco composições de Cartola e músicas que foram gravadas por ele (foto: AUGUSTO CORSINO/O CRUZEIRO/EM/D.A.PRESS)
Amor rende samba, garante o produtor e instrumentista Rildo Hora, uma das maiores autoridades nacionais em música popular. Foi o amor pelas “ruas sonoras” do morro da Mangueira, por onde caminharam mestres fundadores da Estação Primeira, que engendrou um repertório de referência para o patrimônio cultural brasileiro, em composições assinadas por artistas de todas as classes sociais e perfis, desde os mais simples até os mais famosos, inclusive não mangueirenses.

“Eu, por exemplo, sou Portela e filho adotivo da Mangueira”, conta Hora. Por isso, o disco duplo (30 faixas) Sambas para a Mangueira, que sai pela Biscoito Fino, em que ele assina direção musical, arranjos e regência, é, segundo ele, “uma célula-mãe da música brasileira. São amores que se transformaram em música”.

Chega de demanda, de Cartola (1908-1980), interpretada por Beth Carvalho, abre o CD. A segunda música do disco é Sala de recepção, na voz da mineira Sandra Portella. Nessa composição, Cartola faz um belo poema sobre o local onde a escola está situada e o mistério que o lugar encerra: “Habitada por gente simples e tão pobre/ Que só tem o sol que a todos cobre?/ Como podes, Mangueira, cantar?”.

O desfile dos 30 sambas emociona, com seu mote no cultivado carinho, na paixão mesma pela Estação Primeira. Fazer o disco, diz Rildo Hora, trouxe o desafio de “não descaracterizar harmonias e melodias”. “Espero que tenha acertado”, diz ele. Vale observar que acertou.

Severo na avaliação da produção atual de samba, ele afirma que “a maneira de vestir o samba, com muitas exceções, está muito deselegante, muito misturada. Temos samba, mas ruim. Principalmente nas letras, que, pelo excesso de sensualidade, estão vulgares”. Na opinião de Hora, “temos grandes melodistas que andam malservidos de letras”. E manda um recado para o pagode erótico: “Fazer sexo todo mundo sabe. Se não soubesse, não existiria a humanidade. Então, ninguém precisa ser deselegante na hora de dar uma cantada. Os mestres, gente simples, falavam disso de forma elegante e mais sutil”.

A renda obtida com a venda de Sambas para a Mangueira será revertida para o Museu do Samba, instituído em 2009 e novo nome do Centro Cultural Cartola, criado em 2001, que funciona em prédio doado pelo IBGE, na Mangueira. “É um lugar sagrado, onde se cultiva o samba bom oriundo dos mestres”, diz o músico e produtor. Ele e Nilcemar Nogueira, diretora-executiva do Museu do Samba e fundadora do Centro Cultural Cartola, já têm um novo projeto: um disco dedicado à Portela. “Nilcemar é uma nova Tia Ciata, exemplo das novas mulheres do samba”, elogia.

VOVÔ CARTOLA

Nilcemar Nogueira, “a nova tia Ciata” à qual se refere Rildo Hora, é neta de Cartola. Aos 14 anos, ela foi morar com o avô e, aos 18, era produtora dele. Visando a proteger o acervo do compositor, Nilcemar fundou o Centro Cultural Cartola. “A família pode ser o soldado zelador da história do artista”, afirma. “Meu avô foi exemplo de dignidade, de superação. Acreditou na força que tinha. Não se deixou levar por apelos midiáticos. E, por ter sido fiel à sua forma de compor, a música dele está vivíssima. É uma história que precisa ser divulgada, para que outros possam ousar”, afirma.

A transformação do Centro Cultural Cartola em Museu do Samba, segundo ela, partiu da constatação de que, para entender melhor a arte de Cartola, era necessário contar a história do samba. “Decidimos ampliar nossa atuação e atender a todo o patrimônio do samba”, conta. “O brasileiro precisa se comprometer mais com a preservação de música bonita, forte, que é elemento de identidade dele”, defende.

A movimentação levou, ainda, o samba a ser considerado pelo Iphan como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em 2007. Nilcemar diz que o gênero vive sob constante ameaça de apagamento de sua memória, acossado por direções de escolas que descuidam da história, pela imposição de práticas midiáticas e até por fundamentalismo religioso.

As 30 músicas que estão no disco são resultado de uma pesquisa feita pelo Museu do Samba, na qual foram catalogadas 300 composições. O projeto inicial era gravar 12 músicas. Mesmo com o número expandido para 30, ela diz que “fica a sensação de que está faltando música, mas não tínhamos dinheiro para crescer mais”. Além do disco, foi editado um livro com letras e partituras. “É um passeio por interpretações maravilhosas e vozes incomparáveis. O disco mostra que a Mangueira é amada por todos e através dos tempos”, afirma.

As gravações incluem, além das já citadas Beth Carvalho e Sandra Portella, artistas como Monarco, Nelson Sargento, Leny Andrade, Alcione e representantes da nova guarda, como Flávia Saolli.

“O samba, como diz Monarco, mais do que música, é um modo de viver. Considerando essa lógica, podemos dizer que é um modo de celebrar a vida”, diz Nilcemar Nogueira. “A escola é o lugar dessa celebração, do encontro, da união do povo, sem hierarquia, onde são todos iguais. Um momento de lazer para recarregar energias, quando não se pensa nas dificuldades, que são muitas, e na dureza da vida”, explica. Não se trata de fuga da realidade, já que as composições que regem a confraternização, observa, revelam percepção aguda do contexto em que se vive. “O samba faz crônica do cotidiano e revela grande consciência dos direitos do cidadão”, observa.

Museu busca recursos

Sambas para a Mangueira é o segundo disco lançado visando levantar recursos para o Museu do Samba. O primeiro traz um festival de partido-alto, modalidade cuja composição tem uma parte fixa e outra improvisada. E que, avisa a diretora, é manifestação ameaçada de desaparecer devido à falta de espaço para a sua prática. Com o mesmo objetivo foi feito o livro Dona Zica – Tempero, amor e arte (editora Saraiva), que traz as receitas servidas no Zicartola, casa que ficou conhecida nos anos 1960 como um reduto de resistência cultural.

Segundo a neta de Cartola, o imóvel onde está instalado o Museu do Samba precisa de reforma. A instituição tem uma coleção de mais de 10 mil itens ligados à história do samba. “É uma casa dedicada à memória do Brasil, não dos colonizadores do Brasil”, frisa.

As despesas não se resumem à manutenção do espaço físico. É preciso manter também, diz ela, uma equipe especializada, com profissionais de várias áreas. O desafio é conseguir fontes mais permanentes de recursos. “Todos podem nos ajudar, seja comprando nossos produtos ou tornando-se amigos do museu”, diz ela, que é doutora, pela UERJ, com trabalho chamado A patrimonialização do samba.

Sambas para a Mangueria ganha shows a partir de março, mas já pode ser adquirido no endereço museudosamba.org.br.

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