Mineiro Das Quebradas aposta no diálogo do rap com o funk

Artista comemora sua parceria com o carioca Mr. Catra. Videoclipe da dupla ultrapassou 1,5 milhão de visualizações no YouTube

por Shirley Pacelli 04/01/2016 08:00

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Edésio Ferreira/EM/D.A Press-17/9/15
Morador do Bairro Jaqueline. Das Quebradas começou sua carreira vendendo CDs por R$ 2 no Centro de BH (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press-17/9/15)
“Rap é som de preto/ Funk de favelado/ Eu sou Das Quebradas/ E trago cada um de um lado.” É na letra de Go low, do EP Hip funk hop (2015), que o rapper mineiro Das Quebradas dá o seu recado. “Música não pode ter barreiras”, defende. Entre as apostas do projeto está a parceria com Mr Catra em Desce do salto. O clipe da dupla acaba de bater 1,5 milhão de visualizações no YouTube. Em Sei que tu quer, de Biel, lá está o mineiro dividindo o microfone com a nova sensação do funk carioca.


Das Quebradas – ou DQ – vendeu 14 mil cópias de Verdadeiro ou falso (2011), seu álbum independente de estreia. Depois, ganhou visibilidade nacional com o clipe de Ela gosta de dinheiro – a produção caiu nas graças dos internautas ao estampar o rosto da socialite Val Marchiori em notas de R$ 100.

DQ, de 28 anos, chegou a participar das primeiras batalhas do Duelo de MCs, sob o Viaduto Santa Tereza, no Centro de BH. Diz que não se adaptou “ao lance de ofender o outro cara”, referindo-se a improvisos em que rappers provocam os adversários com suas rimas. Mas ali descobriu que gosta de compor – e não de “batalhar” por meio de versos.

O rap de Minas e a cultura hip-hop são conservadores, afirma o MC, cuja proposta é fazer música mais descontraída. “Muita gente acha feio pôr as meninas para dançar funk, mas várias estão vivendo disso. Elas largaram o telemarketing ou a faxina. Não estão desempregadas”, explica. “Não é só o rap que salva. O funk também salva”, garante, referindo-se à fama do hip-hop de conscientizar jovens sobre os perigos do mundo do crime e a necessidade de combater o racismo.

O diálogo entre os dois estilos é natural, ressalta ele. Em 2011, em Adoro, faixa de seu disco de estreia, Das Quebradas cantou com MC Byana, funkeira carioca. Assim como ocorreu na recente dobradinha de Naldo Benny com Mano Brown, líder do grupo Racionais MCs, o público se dividiu. “Vários rappers me criticaram, dizendo que o rap não pode se sujeitar a isso, mas muitos funkeiros conheceram o meu trabalho. Consegui expandir minha música para onde não conseguiria caso tocasse só rap”, explica.

 

 

VAIA DQ tomou muita vaia ao subir aos palcos sob a batida do funk. “Porém, quando cantava, o público desarmava e todo mundo curtia”, diz. Ele reage com risadas aos comentários enfurecidos de fãs do Racionais provocados pelo “rap-funk” Benny & Brown, faixa do disco Sarniô, de Naldo. “Também fui alvo desse tipo de crítica”, explica. Com versos picantes – e clipe cheio de funkeiras rebolando –, sua Go low desagradou aos grupos renomados de rap como o Realidade Cruel. “Gostei, porque são pessoas que eu escutava. Ver esse pessoal falando de mim já é legal. O problema é que eles se prenderam no tempo”, defende-se.

Para DQ, a investida do líder do Racionais na seara do funk confirma a sua antiga aposta. “Longe de mim me comparar ao Mano Brown – o maior nome da cena, um cara inteligente. Mas isso mostra que se há caminho certo, eu já estava nele”, ressalva. Em entrevista recente, Brown explicou por que, em sua carreira solo, decidiu gravar com o funkeiro Naldo. Declarou que o público do Racionais ficou “careta” e “engessado”, elogiou a liberdade do funk. E completou: “Quando o funk chegou a São Paulo, falei para os rappers: ‘Vocês vão ficar para trás, estão escrevendo música para a minha avó ouvir’”.

Das Quebradas enfatiza que o público se diversificou. Nos últimos anos, é comum ver artistas dos dois estilos dividindo o palco. “Tem Racionais e depois MC Delano, Cone Crew Diretoria e MC Marcinho... A menina de (boné) aba reta canta Vida loka e dali a duas horas está ‘quicando’ no chão com MC Magrinho”, brinca. “É a miscigenação da periferia, não tem barreira”, completa.

PICOLÉ Nascido em Aimorés, no Vale do Rio Doce, Wenderson Simões ganhou o apelido Das Quebradas depois de morar nos bairros Lindeia, Vila Itaú, São Mateus e Ana Lúcia, na periferia de BH. Atualmente, ele vive no Bairro Jaqueline, na Região Norte da capital. Sonhava ser jogador de futebol, mas não deu certo. Ele trabalhou como vendedor de picolé, balconista e servente.

Quando foi morar em Goiás com o pai, ele passou a escrever histórias. “Era quase um diário rimado”, conta. A primeira letra surgiu em 2001, fazendo sátira de uma novela – provocação a amigos que trocavam a partida de futebol pela TV. Em 2006, ele lançou o demo Prossigo na caminhada, produzido pelo rapper Flávio Renegado, então integrante do grupo de rap Negros da Unidade Consciente, o NUC. Das Quebradas vendeu 200 cópias da demo nas ruas da capital e no Teatro Francisco Nunes, palco do projeto Hip-Hop in concert.

Hoje, DQ se orgulha de tirar seu sustento da carreira musical. Ele próprio cuida da produção de bonés e camisetas de sua marca. Além de cantar em festas e boates na capital, faz shows no interior de Minas. Ano passado, foi uma das atrações da Virada Cultural de BH. Sexta-feira, ele vai se apresentar na Boate Firenze, em Pedro Leopoldo. Sábado, tem show marcado em Rio Acima.


DE MÃO EM MÃO
Em 2011, ao lado do fiel DJ Spider, DQ lançou seu álbum de estreia, Verdadeiro ou falso, com 13 faixas. Montou sua banca na Praça Sete e no Duelo de MCs, embaixo do Viaduto de Santa Tereza. Oferecendo a mercadoria de mão em mão, vendeu 14 mil cópias a R$ 2 cada. A edição especial de 1 mil unidades desse trabalho está planejada para este ano. Em setembro de 2015, ele lançou Hip funk hop, que vendeu 2 mil cópias. Com cinco faixas, o EP traz a parceria com Mr. Catra e a faixa de trabalho Go low.


FITA CASSETE
DQ escutou Racionais desde criança. Mas quem mudou sua vida foi Face da Morte, grupo de rap da cidade paulista de Hortolândia. Sem aparelho de som para tocar o CD da banda, Wenderson pedia a amigos para gravar as faixas em cassete. “Usava fitas de Zezé de Camargo e Luciano, gravava por cima. Cada música tinha uns cinco minutos, ali não cabia o CD inteiro. Ela acabava, eu improvisava. Ia trocando o mando um abraço para o João pelo Marquinho. Falava o nome da minha escola em vez da letra do Face”, relembra.

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