Profissionais desenvolvem projetos para criar sons em museus mineiros

Projeto contribui para que o público tenha o melhor entendimento dos acervos que está visitando

por Ana Clara Brant 30/12/2015 09:30

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Uma viola caipira, passos de fantasmas e a voz de Drummond ecoam no Memorial Minas Gerais Vale, na Praça da Liberdade. Um sino badala no Museu de Congonhas. Um cravo toca no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, enquanto se ouvem salmos no Museu da Liturgia, em Tiradentes. Tão importante como o acervo exposto, a trilha sonora de um museu tem o seu valor. Além de criar todo um clima, muitas vezes ela complementa e ajuda a compreender melhor o que está sendo apresentado.


Conhecido como “o cara dos museus”, o músico, diretor musical e técnico de som Ronaldo Gino esteve envolvido na ambientação sonora de pelo menos cinco dessas instituições: o Museu da Inconfidência, o da Liturgia, o de Artes e Ofícios (na Praça da Estação), o Espaço Interativo Ciências da Vida, conhecido como Museu do Corpo Humano (no Museu de História Natural e Jardim Botânico, no Horto), e, o último projeto, o recém-inaugurado Museu de Congonhas.

Leo Lara/Divulgação
Inaugurado no ultimo dia 15, o Museu de Congonhas é a grande novidade do ano (foto: Leo Lara/Divulgação )


Neste último, Gino contou com a ajuda do compositor Victor Mazarelo na criação. Assim que se entra no local, já se sente todo o clima de fé e romaria com sons de sinos e até da ladainha dos romeiros da cidade mineira. “A intenção era essa, porque é um museu que fala da devoção, do sagrado. Além dos elementos sonoros exteriores, como esses que citei, a gente tem a composição do Victor ao fundo, que contou com a participação de uma pequena orquestra tocando violino e violoncelos”, explica.

Em uma das salas é possível ouvirem-se as ferramentas antigas usadas pelos escultores na construção do Santuário de Bom Jesus de Matozinhos, que fica ao lado do museu. “Só que não colocamos muito essas ferramentas para que um som não vazasse de um ambiente para o outro”, explica Gino. “A sonorização é um coadjuvante importante, mas não deve se sobressair”, ressalta, acrescentando que um dos grandes desafios é fazer com que a ambientação sonora não incomode os próprios funcionários que ficam ali o dia todo.

“É um som que tem que ter silêncio e trazer uma música que deve ser muito pensada com relação ao compasso, à construção melódica, porque do contrário pode até ‘sufocar’. É uma música delicada que tem que trazer o sentimento daquilo que está sendo contemplado”, conclui Ronaldo Gino, que ficou mais conhecido como o guitarrista da banda de rock Virna Lisi, nos anos 1980.

LITURGIA No Museu da Liturgia, em Tiradentes, a música executada a todo momento é do compositor e arranjador Marco Antônio Guimarães, construtor de instrumentos e um dos fundadores da Oficina Instrumental Uakti. A trilha, de 42 minutos, foi gravada no Estúdio Bemol, em Belo Horizonte, e usada em ambientes do museu. Ronaldo Gino ficou responsável pela montagem dos provérbios, salmos e eclesiastes, com direção de Marcelo Braga e Eleonora Santa Rosa e edição de textos de Cacá Brandão. Lá tem uma espécie de muro das lamentações, uma parede em que o visitante encosta o ouvido e tem a impressão de estar em um confessionário e até escuta os salmos.

MEMORIAL Uma das criações museológicas em que a ambientação sonora é mais marcante é o Memorial Minas Gerais Vale, na Praça da Liberdade. Cada uma de suas 23 salas tem uma trilha própria que ajuda a potencializar ainda mais o que está em exposição. Com projeto museográfico do artista plástico e arquiteto Gringo Cardia, em parceria com o Projeto República da UFMG, o Memorial proporciona uma experiência sonora única. Várias salas contam com gravações feitas exclusivamente para o Museu por Fernanda Montenegro (Barroco sagrado e profano), Maria Bethânia (Guimarães Rosa), Lima Duarte (Casa da Ópera), Zezé Polessa (Histórias de Belo Horizonte) e José Mayer (Vilas Mineiras).

“São as vozes do memorial e o desafio é o visitante tentar descobrir de quem se trata. É bem curioso”, comenta o gestor do Memorial da Vale, Wagner Tameirão, que destaca os sons que complementam essas narrações. Enquanto na sala “Celebrações” é possível ouvir os tambores da comunidade negra dos Arturos, a “Caminhos e descaminhos” conta com áudio de pássaros, grilos e cachoeira. Já em “Histórias de Belo Horizonte”, passos, gritos e correntes ajudam a criar todo um clima fantasmagórico. “A gente tem uma relação muito forte com a música no museu, por isso há esse estímulo sonoro intenso aqui”, complementa Tameirão.

SANT’ANA No Museu de Sant’Ana, em Tiradentes, a artista responsável pela trilha foi Claudia Cimbleris. A partir de uma pesquisa do flautista e professor de música Alberto Sampaio e de Poti Castro, do Instituto Cultural Flávio Gutierrez, a compositora desenvolveu um novo trabalho. Os dois foram atrás de vários hinos e cânticos que exaltam a santa, mãe de Maria, “Foi em cima deles que ela criou os arranjos, os elementos melódicos e fez toda uma coisa em cima, além de convidar alguns artistas para participar, como o Trio Amaranto e Flávio Venturini. É um trabalho bem minucioso e a Claudia fez algo fantástico, nada convencional e coeso”, celebra Alberto.

Estreando em trilhas de museus, o flautista considera que o som dentro desses espaços é essencial, mas devem se tomar alguns cuidados. “O volume sonoro tem que ser bem dosado, nem mais nem menos. E a música deve ser mais etérea; ela não pode chamar a atenção demais, mas estar a serviço daquilo que está sendo exposto, como se fosse um ‘tempero’”, afirma Alberto Sampaio.

MULTIMÍDIA Além do próprio som em cada ambiente, o áudio das instalações multimídias, como quiosques eletrônicos e vídeos, tem a sua importância. No caso do Museu de Sant’Anna, essa parte ficou a cargo de Cris Zago, que já realizou trabalho semelhante no Museu do Oratório, em Ouro Preto, e no de Artes e Ofícios, em Belo Horizonte. Ela diz que, antes de iniciar qualquer dessas iniciativas, é importante saber do assunto que será tratado e onde o vídeo será apresentado.

“Tem lugar que não dá para ficar competindo com o som ambiente, que já tem muitas instalações sonoras”, argumenta. “No caso do Sant’Anna, tem uma situação ideal, porque o som ambiente é bem suave e não compete com o áudio das instalações multimídias.” Para produzir os vídeos, ela registrou cinco festas alusivas a Sant’Anna e captou ruídos como rezas, fogos de artifício e cantoria. “Pra mim, o áudio tem a mesma importância que a imagem e consegue construir uma narrativa também. É uma ótima oportunidade para você criar toda uma atmosfera, dar vários tons e fazer a sua poesia”, conclui.

Ouça faixa que compõe trilha do Museu da Liturgia em Tiradentes

 

 

 

Ouça trilha da Sala Celebrações, do Memorial Minas Gerais Vale

 

 

 

ONDE IR

MEMORIAL MINAS GERAIS VALE

Praça da Liberdade, 640, Funcionários, Belo Horizonte
Funcionamento: Terças, quartas, sextas e sábados, das 10h às 17h30. Quintas, das 10h às 21h30. Domingos, das 10h às 15h30. Entra em recesso amanhã e reabre na terça-feira.
Informações: (31) 3343-7317.

MUSEU DE ARTES E OFÍCIOS
Praça da Estação, Centro, Belo Horizonte
Funcionamento: Terça e sexta-feira, das 12h às 19h; quarta e quinta, das 12h às 21h; sábado, domingo e feriado, das 11h às 17h. Ingresso a R$ 5, com entrada franca em horários específicos.
Informações: (31) 3248-8600.

MUSEU DE CONGONHAS
Alameda Cidade de Matosinhos de Portugal, Congonhas
Funcionamento: De terça a domingo, das 9h às 17h; e quartas (dia gratuito), das 13h às 21h. Ingresso a R$ 10. Fecha amanhã, mas reabre no sábado.
Informações: (31) 3731-3056.

MUSEU DE SANT’ANNA
Rua Direita, 93, Centro, Tiradentes
Funcionamento: De quarta a segunda-feira, das 10h às 19h. Inresso a R$ 5.
Agendamento para grupos: (32) 3355-2798.
Informações: (32) 3355-2798 e www.museudesantana.org.br

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