Meu tio, Fernando Brant: repórter do EM homenageia músico mineiro

Sobrinha e jornalista relata suas lembranças com o poeta, letrista, jornalista e político que ensinou o caminho da utopia a toda uma geração

por Ana Clara Brant 27/12/2015 07:00

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Foi numa manhã carioca e com uma bela vista para o Cristo Redentor que tive uma conversa bem interessante e proveitosa com meu tio Fernando Brant. Era março deste ano. No apartamento de sua filha Isabel, em Botafogo, onde eu havia pernoitado, falamos sobre música, claro, política, direitos autorais, viagens, futebol e até sobre novela, já que eu estava no Rio cobrindo o lançamento de um folhetim global. Nunca poderia imaginar que aquele seria um dos últimos encontros com uma figura que admirava tanto, que me fez torcer indiretamente para o América – já que ele foi o responsável por tornar o meu pai, seu irmão, americano – e que, sobretudo, sempre enchi a boca para falar: “Sou sobrinha dele”.

É praticamente unanimidade que 2015 não foi fácil. Pelo que se ouve nas ruas, a grande maioria das pessoas está contando os minutos para 2016. E eu também não sou exceção. Não só por todos os acontecimentos tristes e complicados que marcaram o Brasil e o mundo ao longo desses 12 meses, mas, principalmente, pelo aspecto pessoal. Iniciar um ano com a perda de um ente querido é uma pancada. Perder dois, então, numa família tão unida e acostumada a celebrar a vida – inclusive nos momentos trágicos –, é uma pancada ao cubo.
Arte/EM/D.A Press
''Como sempre, continuamos a repetir palavras essenciais: justiça, crença, esperança, alegria'' --Fernando Brant (9/10/1946 * 12/6/2015) (foto: Arte/EM/D.A Press)
Em janeiro, foi-se meu primo Daniel, de 37 anos. Ironicamente, em seu velório, lembro-me de ter trocado algumas palavras sobre a morte com tio Fernando. “Morrer faz parte da vida, mas é sempre difícil”, disse ele. Após dois transplantes de fígado e uma série de complicações, infelizmente, meu tio partiu. Além de lidar com a perda de mais um familiar, sabia que meu papel de repórter acabaria falando alto naquele momento. Como não atender ao telefonema de um colega para falar do ocorrido ou mesmo ajudá-los na cobertura do velório e do enterro, mesmo numa hora tão dura?

Ao longo de toda a minha trajetória jornalística, desde os primórdios, quando ingressei na faculdade, sempre contei com o apoio do meu querido tio, que, por sinal, também foi um profissional de imprensa, chegando a trabalhar em veículos como a extinta revista O Cruzeiro e tem duas filhas que seguiram esse caminho.

 

No meu discurso de formatura na PUC-MG, onde ele estava presente, ao som de uma de suas músicas, Durango Kid (Esse jornal é o meu revólver/Esse jornal é o meu sorriso), iniciei minha oratória e citei outra de suas composições, Ponta de areia, resultado de reportagem dele sobre o fim da estrada de ferro Bahia-Minas, publicada em O Cruzeiro.

Vira e mexe, tinha que recorrer a ele para alguma matéria. A última vez foi em abril e pedi para que tio Fernando fosse uma das fontes para uma reportagem especial sobre os 85 anos de Alguma poesia, obra-prima de Drummond. Sempre soube de sua admiração pelo poeta e de como ele havia se tornado referência em sua vida. “Quando li esse livro, foi um espanto, diferente de toda a poesia que eu lera antes. Me apaixonei, fiquei deslumbrado. Foi um farol em minha vida. É a revelação de um gênio”, declarou na ocasião. Como tio Fernando estava em viagem, pediu-me para responder por e-mail. E, preocupado com meu deadline, realizou uma proeza: “Saiu direito? É que eu respondi por celular. Muito pequeno para minhas habilidades...”, enviou. E eu, de pronto, repliquei: “Saiu, sim! Se escreveu pelo celular, você tá craque, tio (rs)”.

ABALO

Fernando Rocha Brant nasceu em 9 de outubro de 1946, em Caldas, no Sul de Minas. Minha avó sempre contava que nesse dia houve um tremor de terra na cidade, algo raríssimo. Era o primeiro dos “impactos” que meu tio causaria. Um homem que revolucionou para sempre a história da música mineira e brasileira. Quis o destino que ele fizesse sua Travessia em 12 de junho, dia em que se celebra o amor e Santa Yolanda, curiosamente, o nome de sua mãe.

 

E é com uma homenagem a ela e ao meu avô Moacyr, feita por ele num texto que está no disco Caçador de mim, de 1981, que encerro esse depoimento: “A caminho da utopia, aqui na esquina acaba de morrer um humanista (Melo Cançado, professor da generosidade). Na televisão e nos jornais, o mestre Alceu dá um banho de vida e lucidez. Meu pai, menino de 70 anos, me dá lições diárias de sabedoria e esperança. E o que dizer de Drummond? Estão velhos ou mortos os homens que acreditam nos homens? Os justos estarão no fim? Não e não. Assim como a injustiça, a violência e o ódio se espalham e deixam seu rastro de miséria por onde passam – a semente de amor, dignidade e justiça que recebemos frutifica e também estende seus braços. Está plantada no coração dos jovens. Esteve e está em todos os nossos discos. Como sempre, continuamos a repetir palavras essenciais: justiça, crença, esperança, alegria. Brasil (povo e país, nação que faremos). Debaixo de nosso abençoado sol tropical, junto com nossos maiores e nossa juventude (mãos dadas com nossa infância) apostamos tudo na utopia. (Texto inspirado na bondade de minha mãe, Yolanda)”

Nosso querido Dindilim (seu apelido de infância), você que nos ensinou que a vida é feita de Encontros e despedidas. Aqui continuamos com a “estranha mania de ter fé na vida”. E mesmo em tempos tão sombrios, vamos seguir o seu conselho entoado na letra de Credo, em parceria com seu grande amigo Milton “Bituca” Nascimento: “Acendendo a esperança e apagando a escuridão”.

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