Então é Natal... a festa de Simone

Polêmico disco 25 de Dezembro completa 20 anos. Potente, álbum sobrevive à pecha negativa que ganhou recentemente na internet e segue com espaço cativo na cesta cultural natalina dos brasileiros.

por Cecília Emiliana 25/12/2015 07:01

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Marcos Vieira/Estado de Minas - 08/10/2003
A cantora Simone em apresentação no Grande Teatro do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, em 2003 (foto: Marcos Vieira/Estado de Minas - 08/10/2003 )

O Natal é, sem dúvida, dos períodos mais afeitos a mitos e lendas. Enumerar os símbolos associados à festividade, que muda de significado conforme o contexto em que é celebrada, é tarefa semelhante a separar as uvas passas da tradicional farofa da ceia do dia 24: impossível reunir todos sem deixar nenhum para trás. Alguns personagens, contudo, por algum motivo estão tão cravados no imaginário popular que vêm à cabeça das pessoas sem qualquer esforço.

No ranking mundial de popularidade, Papai Noel, ícone oficial do comércio; e Jesus Cristo; o do sacrifício, competem numa disputa acirrada pelo primeiro lugar (talvez porque representem a mesma coisa em diversos momentos da História). Na extensa lista, ninguém certamente se esqueceria de incluir também duendes, renas voadoras, e bonecos de neve. O Brasil, porém, há 20 anos ganhou um mito peculiar, capaz de causar, simultaneamente, os sentimentos mais nobres e os mais coléricos em cristãos, ateus, agnósticos, enfim –  crentes e descrentes do universo sobrenatural: o polêmico disco 25 de Dezembro, gravado pela cantora Simone em 1995.

No âmbito das redes sociais, duas décadas após o lançamento do álbum natalino performado pela artista baiana – nascida 1949 anos depois do Nazareno, no mesmo dia de seu (suposto) aniversário – a sensação que se tem é a de que, cansados de escutar a obra 20 natais seguidos pelos shoppings, comércio de rua e reuniões familiares, todos querem crucificá-la. Sobretudo pela execução do carro-chefe do disco, a canção Então é Natal,  versão de Happy Xmas, de John Lennon – que de fato tocou e toca até hoje à exaustão.

Desde 2011, assim, usuários do Twitter e Facebook passaram a empreender uma espécie de campanha por um Natal sem Simone – e transformaram o disco em meme. Imagens da capa do CD com a cantora de boca tapada, pegando fogo ou acompanhada de mensagens do tipo “Desliga isso aí” circulam aos montes na web. Michele Ribeiro, gerente de uma loja de sapatos do Shopping Cidade, Região Central de Belo Horizonte, faz coro com a turma que está de “saco cheio”. “Nossa, eu trabalho há 16 anos aqui no Centro. E todo Natal é a mesma coisa. Agora diminuiu bem, as lojas não colocam mais tanta música pra tocar no fim do ano. Mas se estiver tocando em qualquer lugar, tenho vontade de ir embora. Saturei!”, brinca a moça de 41 anos.

Raoni Lucas, advogado de 28, diz que o set list temático é o motivo pelo qual evita ir à casa de alguns parentes durante o período de festas. “Tenho uma tia que põe o CD todo fim de ano. Ninguém aguenta! Tenho pena dos vizinhos dela. Brinco assim: ‘Te amo, tia, mas nos vemos em janeiro”, conta.

Bom termômetro do que pauta conversas no mundo inteiro, a internet, entretanto, não é exatamente um espelho fiel da vida em sociedade, tampouco da complexidade da interações culturais humanas – como, aliás, nenhum elemento o é. O fato é que, se a horda de enfarados da pegada natalina de Simone é grande, a de fãs do projeto até hoje é gigantesca.

NA TABELA Os números do showbiz são os primeiros a entregar tal faceta. Lançado em 25 de novembro de 1995 em LP e CD pela então gravadora Polygram – atualmente incorporada pela Universal Music – o álbum vendeu 1,5 mi de cópias em menos de um mês e meio. Isso, contando apenas a primeira versão. Em 1996, um segundo disco com o repertório de 10 faixas gravado em espanhol superou a cifra, e teve 2 milhões de cópias adquiridas pelo público América Latina afora. Uma terceira gravação, contendo uma faixa bônus – Ave Maria, com participação das Meninas Cantoras de Petrópolis – chegou ao mercado em 1998, mas a Universal Music não tem dados atualizados sobre as vendas deste último.

Incautos poderão pensar que trata-se de um modismo ultrapassado – típico dos anos 1990, década das mangas bufantes e cafonices afins. Não poderiam estar mais enganados. O 25 de Dezembro, ainda vivo no catálogo da Universal, até hoje é recordista de vendas durante o último mês do ano, com saída de cerca de 50 mil unidades. Nada mal para um tempo em que música é artigo cada vez menos consumido em bolachas – pequenas ou grandes.

No iTunes, onde o trabalho temático se encontra disponível desde o ano passado, as estatísticas atuais também não mentem. Dados do iTunes Charts (lista que registra diariamente os produtos mais consumidos pelos usuários da loja virtual) revelam que, nos períodos de 14 a 18 e 23 a 26 deste mês, o disco foi um dos 100 mais baixados na App Store brasileira. No dia 24, alcançou o ápice de sua popularidade: era 8º álbum com mais dowloads do dia. Mesma data, diga-se de passagem, em que a célebre canção Então é Natal  fez Justin Bieber comer poeira. Cravou afinal, o 16º lugar do ranking, enquanto Love yourself, do astro teen, marcava o 17º.

Para o clássico, vale registrar ainda que, na parte destinada a avaliações e opiniões dos usuários do iTunes constam 5 comentários, todos positivos, pródigos em elogios e homenagens. “A voz marcante da Simone, aliada ao espírito sempre renovador do Natal, é uma combinação certeira. Um presente para quem adora viver sempre ligado a esse sentimento de paz e alegria sem fim”, derreteu-se um fã no comércio virtual.

#VAITERSIMONE 
Elogios como esse também são ditos sem economia pelo policial civil Flávio Fernando dos Santos, de 42 anos, que mora em Rio Claro, interior de São Paulo. Seu exemplar de 25 de Dezembro foi adquirido em 1995, logo que o produto chegou às lojas da cidade, cerca de um mês antes do Natal. “Lembro-me de que eu tinha 22 anos e acabado de me tornar policial. Saí da delegacia e fui comprar o álbum”, recorda-se o moço, fã de Simone desde a infância. “Eu a escuto desde os 7 anos. Nessa idade, eu a ouvia na rádio, mas não ligava a voz à cantora. Mas ficava trocando de estação até achá-la.”, revela. A obra temática, ao contrário do que se possa pensar, não fica guardada como relíquia. “Eu escuto sim. Acho um trabalho maravilhoso. Aliás, já publiquei no Instagram e no Facebook semana passada, em post com direito a foto dos meus discos:  “Aviso aos patrulheiros de plantão: é Natal e aqui tem Simone em Dezembro”, impõe. Para o desespero dos que não compartilham do mesmo gosto musical, Então é Natal é uma das faixas preferidas do policial.

A mesma composição é a predileta de Layranny Macyel, de 33 anos. “Então é Natal foi a primeira música que aprendi a tocar no piano. Estudo música desde os 10. Aprendi para uma audição de fim de ano. Acho linda. Maravilhosa!”, conta a técnica em Segurança do trabalho residente em Paranavaí, no Paraná. Embora o disco seja sazonal, ela faz questão de reforçar: o desejo de escutá-lo é permanente. E, assim, o CD rola no aparelho de som durante todo o ano. “Eu não enjoo. Posso ouvir a semana inteira que não enjoo”, reforça, sem deixar de mencionar o quanto a enfurece a pecha negativa que o objeto de seu encantamento ganhou na internet. “Só mesmo Simone teria capacidade de gravar uma música tão linda quanto Então é Natal.  Sobre a avacalhação com o disco, faço minhas as palavras da cantora: ‘Lamento que se pratique esse ato violento em relação a uma música que o povo brasileiro ama e adora. É uma lástima!’"

SUCESSO O trabalho que renderia a Simone o recorde de vendas de 1995 nasceu de uma conversa mais ou menos – talvez para menos – despretensiosa entre a cantora e o então presidente da gravadora Polygram, Marcos Maynard. Era uma tarde de 19 de setembro quando a artista, que tinha voltado recentemente dos Estados Unidos, comentou com o executivo o desejo de gravar um álbum de Natal, inspirada pelo mercado americano, onde astros de todas as tribos performam, anualmente, várias peças do gênero. “‘Ué, porque você não grava também?’, eu disse pra ela.” E dali mesmo nasceu o projeto. “Dessa conversa eu já liguei pro Max (Pierre, vice-presidente da Polygram e produtor do disco). E falei: ‘Olha, tô aqui com a Simone, vamos fazer um disco assim e assado, estou aqui na casa dela. Vem pra cá e vai pensando no repertório no caminho’. E daí começamos a escrever o set list.”

É curioso que um dos álbuns mais difundidos do Brasil tenha sido todo gravado no mais absoluto segredo. “O contrato da Simone com a Sony estava terminando, mas temíamos que a empresa dificultasse a saída da cantora. Então, começamos a produzir o disco em outubro, em sigilo. Ninguém podia saber. A ideia era que, quando ela saísse da Sony, o trabalho já estivesse pronto. E assim foi”, relembra Max Pierre.

Com bom humor, ele conta como fazia para disfarçar o nome da estrela nordestina na porta do estúdio, quando reunia a equipe para trabalhar com as gravações. “Eu pregava uma plaquinha na entrada com o nome dela escrito numa espécie de anagrama: ‘Miss Eno’. Daí, as pessoas perguntavam: ‘quem é essa tal Miss Eno?’. E eu respondia: ‘Vocês vão saber. Ela é muito famosa, muito boa’”.

A gravação do marco na história da MPB foi feito em tempo recorde. Quase um milagre natalino: cerca de 20 dias. Era o período, afinal, que se tinha para que o CD chegasse a tempo de ser lançado no mercado ainda dentro do ano corrente. “Alugamos sete estúdios simultaneamente no Rio, São Paulo e Los Angeles. Porque você imagina: tínhamos praticamente o mês de outubro para produzir o disco, que chegou às lojas em 25 de novembro”.

A boa recepção do mercado era esperada – mas não com tanta intensidade. Cautelosos, os executivos da música contam que mandaram produzir 500 mil cópias – o que já era muita coisa pensando em qualquer disco, e uma aposta especialmente alta para um disco de Natal - até hoje, um produto pouco tradicional do mercado brasileiro. Não demorou 15 dias, no entanto, para que toda a produção evaporasse das prateleiras. A solução foi mandar fazer, às pressas, mais 1 milhão de bolachas, em 2 ou 3 fábricas, para completar as 500 mil já encomendadas.

O segredo do estouro monstruoso é uma espécie de mistério da fé - embora profissionais inseridos no contexto musical arrisquem alguns palpites. Dono de uma loja de discos raros no Centro de Belo Horizonte, Horeme Franco rodou muitas vezes o bolachão em seu estabelecimento no fim do ano, a fim de atrair os clientes. “Era só tocar que a loja enchia de gente”, garante. “Hoje não faço mais isso. O comércio, na verdade, parou de trabalhar assim. Mas funcionava. Não só com a Simone, mas com qualquer artista que estivesse fazendo sucesso. Pra mim, o CD é bom. Tem qualidade, é bem gravado, o repertório é bacana. Há quem considere brega, mas é um pessoal de uma geração que não tem mais essa ligação com o Natal. Com própria mídia física da música, aliás. O disco só ficou muito batido, mas é bom, sim. E até por isso mesmo pegou”, acredita Franco.

Maynard acrescenta à qualidade do álbum outros ingredientes. Primeiro, uma música de trabalho do tipo “puxa-sucesso”, que é Então é Natal, versão de um clássico de Jonh Lennon – aliás, primeira canção do repertório do ex-beatle liberada pela viúva Yoko Onu à gravação por outros artistas. Some-se a isso o fato de se tratar de um trabalho considerado inovador, que nunca havia sido feito no Brasil.

Junto ao ineditismo da ideia, Marcos destaca a grandeza da estrela que tinha nas mãos. “Se Quincy Jones disse que ela é uma das maiores cantoras do mundo, quem é que vai dizer o contrário? E isso já é grande parte do necessário para um trabalho explodir”, afirma. Sem deixar de pontuar toda a estrondosa estratégia de publicidade arquitetada na época. “Eu sou, afinal, um homem de Marketing. A própria festa de lançamento fez parte do esquema montado”, entrega.

Conta Maynard que, uma semana antes de lançar o disco, Simone gravou um programa com Jô Soares - na época, funcionário do SBT. Com exclusividade, antes de que fosse ao ar, o  VT foi exibido em um telão durante o coquetel que contou com a presença da imprensa em peso. No fim do programa, como ainda é praxe no talk show, a baiana foi convidada por Jô a subir no palco e cantar. Quando soltou a voz, porém, se materializou para a plateia, emendando no evento, ao vivo, a canção que os presentes viram ser iniciada na TV. “Foi uma sensação”, descreve Max Pierre, que também estava lá. “E sabe o que é engraçado? Um convidado de outra gravadora, a BMG, na ocasião comentou comigo assim: ‘Eu adoro as festas de fim de ano da Polygram, mesmo sabendo que disco natalino não vende!”, diverte-se.

Sobre os memes da internet e críticas negativas, ambos os figurões – ao menos no discurso – dizem não tomar conhecimento. Falem bem, falem mal, no fim das contas, fala-se do disco. E vende-se - o que de fato conta para a indústria fonográfica

DESGOSTO 
Já Simone, parece magoada com os ataques virtuais. Reação compreensível quando se vê a estrela falar sobre o projeto num vídeo antigo, que registrou a coletiva de lançamento do CD realizada há 20 anos no Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo. Empolgada, ela, na ocasião, é própria encarnação de Mufasa, personagem de O Rei Leão, no momento em que ergue Simba, seu filhote recém-nascido, para apresentá-lo aos súditos no topo da Pedra do Reino. Lindo, visceral, além de bem brasileiro foram os adjetivos com que definiu, cheia de satisfação e carinho, o “filho” que acabava de parir.

Atualmente, evita tocar no assunto. Não atendeu, registre-se, a reportagem do Estado de Minas, que tentou ouvi-la insistentemente. Numa das raras vezes em que se pronunciou sobre o tema, deixou o seguinte recado: “Com relação ao disco de Natal, eu tenho um imenso orgulho em tê-lo realizado. É um disco lindo, que não apenas celebra o Natal, mas tem um sabor especial para mim, porque 25 de dezembro é também o meu aniversário”, desabafou em conversa com o jornalista Bruno Astuto, publicada em novembro deste ano.

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