Funk pop nacional aposta em novas estéticas e letras menos polêmicas

Em 2015, o ritmo brigou por um lugar no mercado e lutou contra o preconceito

por Ângela Faria 22/12/2015 08:00

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Marcos Hermes/divulgação
Buchecha foi um dos nomes de destaque durante o ano (foto: Marcos Hermes/divulgação)
Execrado por seu tamborzão ensurdecedor e condenado por letras tachadas de vulgares, o funk carioca, quem diria, “tomou jeito”. Virou pop, toca em novela, anima bailes de formatura de universidades renomadas e embala festas chiques de 15 anos, além de “invadir” o palco mais bem comportado do Brasil: o especial natalino de Roberto Carlos. Anfitrião de MC Leozinho em 2006, o Rei tietou Ludmilla na última quarta-feira.

Para tudo “ficar blue”, como diz a letra de Claudinho e Buchecha, foi preciso um “banho” de produção – metamorfose turbinada por gravadoras de olho no carisma dos autores de hits que haviam conquistado milhares de fãs na internet.

Na pista desde 1997 – quando estourou ao lado de Claudinho (1975-2002) com Quero te encontrar –, o pioneiro Buchecha garante: 2015 foi especial. “Você liga a TV e vê a Anitta e a Ludmilla ganhando prêmios no Faustão”, comenta ele, embora pondere que o funk ainda não chegou ao lugar merecido. Tabus estão ficando para trás, comemora o compositor, lembrando que ele e Claudinho foram os primeiros a conquistar espaço em programas populares de TV como os de Xuxa e Silvio Santos, apesar do carimbo de “música de favela”.

“A gente era exceção. O pessoal não vinha com a gente, ainda ficava no gueto. Agora, tudo mudou. A internet facilitou muito, divulgando os artistas e seu trabalho”, diz Buchecha. Para ele, o país finalmente percebeu a diversidade do funk brasuca. O ritmo não se restringe a letras pornográficas, elogio a facções do tráfico, sonoridade tosca e a dialetos do gueto.

O veterano, ídolo da vertente melody, admite: o funk também mudou. “Amadurecemos”, constata Buchecha, apontando “uma brecada bem considerável” no linguajar. “Houve uma readaptação, necessária para atingir outras camadas sociais. As crianças adoram”, lembra.

Não é à toa que o novo disco de Buchecha se chama Funk pop. Hits de sua carreira ganharam releituras de Paralamas do Sucesso (Só love), Lenine (Conquista), Adriana Calcanhotto (Destino), Emicida (Rap do Silva), Arnaldo Antunes (Sabiá) e do mineiro Rogério Flausino (Quero te encontrar), entre outros. A produção levou a assinatura do renomado Kassin. “Tô babando”, diz o anfitrião ao comentar a parceria com tantos convidados ilustres.

Buchecha garante: o casamento de funk com pop não é armação da indústria fonográfica, mas fruto da evolução. “É muito legal a gente ter essa música alegre, gostosa. Ela pode ser picante, mas de forma inteligente”, defende.

ORGANIZADO

Nego do Borel, que acaba de lançar o disco Nego resolve, conta que seu novo trabalho é reflexo de mudança. Se faixas dos CDs anteriores apostavam no sexo quase explícito, chegou o momento do “funkão organizado”, diz. Depois de “bombar” nas redes sociais, ser convidado para o elenco da novelinha Malhação e cantar em todo o país, Leno Maycon Viana Gomes é uma das apostas da Sony Music.

“Meu novo disco tem violão e sanfona, voz cuidadinha, percussão, vende na loja. Antes, a gente vendia só no camelô”, diz Nego do Borel, citando os colegas Naldo Benny, Anitta, Ludmilla e Buchecha como referências da cena. “Já não é só aquela parada ‘voz e batidão’. Cada um tem o seu estilo”, observa. Uma das faixas – bem romântica, sob medida para adolescentes e sem duplas intenções – é Minha sina. Tem a participação de Lucas Lucco, expoente do sertanejo universitário e outro astro de Malhação.

O profissionalismo dos sertanejos, com discos caprichados e espetáculos bem produzidos, influenciou o funk pop, reconhece Buchecha. Naldo Benny, por exemplo, convidou a dupla Zezé di Camargo e Luciano para participar de seu DVD gravado em 2013. Em #Sarniô, disco lançado em novembro, o artista apostou no diálogo com o rap (divide a faixa de abertura com Mano Brown) e com a Jovem Guarda (Erasmo Carlos é o convidado em Primeira vez).

Bang!, o recém-lançado petardo de Anitta, vem bombando nas redes sociais. Até as bailarinas de Beyoncé aprenderam a coreografia do clipe da brasileira.



“Artista de festa”

Comemorando 25 anos de palco em 2015, Latino começou a chamar a atenção como funkeiro na década de 1990, mas construiu sua carreira investindo na mistura de ritmos brasileiros com outras sonoridades. Apostou, com sucesso, no kuduro angolano. Agora, chega ao mercado com o CD Soy Latino. A aliada da vez é a bachata, nascida na República Dominicana e febre entre os hispânicos nos EUA.

Antes disso, Latino emplacou o funk melody Me leva, fez o Brasil cantar o refrão-chicletes de Festa no apê e ajudou Luka a “bombar” com Tô nem aí. Ex-dançarino de lambada, fã de zouk e reggaeton, o cantor e compositor diz que chegou a hora de assumir essas paixões, “mas com identidade made in Brasil”.

O carioca afirma que nunca deixou de cantar funk em seus shows. “Sou pop latino”, diz, mas deixa claro que não aceita ser aprisionado a estilos. Em seu novo disco, deixou um pouco de lado as letras mais apimentadas. Aos 42 anos, ele garante: o momento exige mais maturidade.

O pop brasileiro tem influência americana, flerta com o mercado musical globalizado e só tem a ganhar com a diversidade, acredita Latino, lembrando que Anitta e Ludmilla mesclam funk carioca com elementos da black music e ritmos que agitam as pistas internacionais. Ficar só no tamborzão é um equívoco, acredita.

CRISE

“Sou um artista de festa”, autodefine-se o carioca, enfatizando que o pop dele tem fôlego para enfrentar a crise econômica. “Quem falar que não abaixou o cachê está mentindo”, garante. A saída é oferecer vários formatos de apresentação. “Faço festas de formatura, casamento, canto na casa de milionário, em recepções de aniversário. Agora, tenho sido chamado para festas da comunidade gay. Não dependo de prefeituras”, conta Latino.

Animado com a turnê de Funk pop, cujo início está previsto para fevereiro, Buchecha – que recentemente se apresentou em BH, na casa sertaneja Woods – concorda: é preciso se adequar ao mercado, seja renegociando cachês ou reduzindo a equipe. Nego do Borel diz que sua estratégia é trabalhar e trabalhar – sem preguiça. Na segunda-feira em que conversou com o EM, ele estava dentro de um avião rumo à capital mineira, onde se apresentaria à noite. Levava o script para decorar as falas de Malhação. Apesar do jeitão divertido e espalhafatoso, o moço não brinca em serviço.

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