Caetano Veloso fala sobre show em prol das vítimas de Mariana

Cantor que toca com Jota Quest e Criolo diz que tragédia "é motivo de luto e oportunidade de ouvir um alerta"

por Ana Clara Brant 06/12/2015 06:00

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Arte/EM
(foto: Arte/EM)
Caetano Veloso é de Santo Amaro, interior da Bahia, considerada uma das cidades mais contaminadas por chumbo no planeta. A destruição causada pelo metal é narrada em verso e prosa por ele na canção Purificar o Subaé (Os riscos que corre essa gente morena/ O horror de um progresso vazio/Matando os mariscos e os peixes do rio/Enchendo o meu canto/ De raiva e de pena).


Sobre essa música, mais atual do que nunca, o cantor e compositor diz: “A frase ‘mandar os malditos embora’ era um grito necessário. Mas era uma música muito específica sobre Santo Amaro. Aqui (em Mariana), a questão é de emergência assistencial. Nós nos unimos para tentar ajudar as vítimas”.

Ao lado de Criolo, Milton Nascimento, Jota Quest, Tulipa Ruiz e Emicida, Caetano se apresenta na Esplanada do Mineirão na próxima terça, feriado em Belo Horizonte. O show tem renda revertida para as vítimas do desastre provocado pelo rompimento da Barragem de Fundão, da mineradora Samarco, no último dia 5 de novembro.

O artista avalia que os principais responsáveis pela tragédia são a mineradora e os órgãos de controle oficiais, e ressalta que a lei deve prever punição para casos assim. “Devemos esperar que ela seja aplicada. Acredito que uma tragédia como esta traz muita lição. É motivo de luto e oportunidade de ouvir um alerta. Devemos aprender a minimizar as causas de dores do crescimento.”

Leia a seguir a entrevista que ele deu ao Estado de Minas, por e-mail.


ENTREVISTA //CAETANO VELOSO

“A metáfora da lama é óbvia”


Como vê o engajamento social e político dos artistas brasileiros nos dias de hoje?
Ele reflete o momento atual, com posições que se confrontam. Pena que a polarização simplificadora seja a tônica, em detrimento das áreas de discussão. Precisamos crescer no sentido dos argumentos e ver discussões frutíferas.

Acha que a tragédia de Mariana de algum modo fortalece a ideia (comum em determinados setores do pensamento) de que a etapa atual do capitalismo é incompatível com a sustentabilidade do planeta?
Sem dúvida. O capitalismo enriqueceu o mundo, mas está longe de acabar com a pobreza. E é essencialmente indiferente aos efeitos nocivos sobre o equilíbrio ambiental.

Sente-se fazendo ‘arte engajada’ ao capitanear um show beneficente? Ou de que modo classifica essa sua atitude?
Nunca me senti fazendo ‘arte engajada’, não no sentido em que aprendi essa expressão. Os efeitos da arte na sociedade não são controláveis pelos autores das obras.

Acha que a correnteza de lama pode ser uma metáfora do atual momento político do Brasil?
Ela vem sendo usada como tal por grande parte da imprensa e dos cidadãos. É óbvia. Mas não esgota o sentido do momento que atravessamos.

Você e Gil estão lançando o CD/DVD da turnê Um século de música. O que foi mais significativo desse projeto?
A revelação de que, mesmo sendo um espetáculo pouco pensado e treinado, nossa união atual por si só potencializa a percepção da dimensão histórica de aspectos da nossa cultura. Tudo é maior do que eu supunha quando aceitamos fazer uma turnê na Europa.

A passagem da turnê por Israel suscitou mais discussão sobre a questão israelo-palestina, incluindo pedidos para que o show lá fosse cancelado. Hoje você agiria diferentemente em relação a esse episódio?
Acompanho há anos as dificuldades da questão. Sempre estive na torcida por Israel, no sentido de vê-lo chegar à realização da solução de dois estados. Esta nossa ida causou protestos antecipados. Recebemos cartas de um roqueiro e de Desmond Tutu (arcebispo da Igreja Anglicana e ganhador do Prêmio Nobel da Paz).
O BDS (grupo não violento cuja sigla sigifica Boicote, desinvestimento e sanções) apontava para a crueldade da ocupação da Palestina. Lá, através do Breaking the Silence (organização israelense), vimos que as queixas do BDS são todas fundadas.
A frase final do meu artigo na Folha deu a impressão de que entrei para o BDS. Mas me identifico mais com o Breaking the Silence. E mais ainda com meus amigos judeus, como Izhar Patkin (artista plástico israelense), que consideram útil a demonstração de desconforto causado pelas políticas de estado israelenses. Quando escrevi “amo Israel, Telaviv é quase uma terra minha, mas acho que nunca mais voltarei lá”, é claro que fazia um aceno ao BDS. Mas todo o artigo mostra que não há adesão ao movimento. Está cheio de sutis variações de ânimo. O fato é que estou mais próximo da perspectiva palestina do que jamais estive.

Recentemente, a ‘bronca’ que você deu em sua equipe de redes sociais sobre o uso incorreto da crase viralizou. De que modo enxerga as possibilidades de comunicação da era digital? Alguma vez temeu ser condenado no ‘grande tribunal da internet’?
Nunca temi nada disso. O que não quer dizer que nunca terei motivos para temer. Um troço desses pode ter consequências reais. Mas me sinto longe da possibilidade. Minhas redes sociais são tocadas pela equipe do meu escritório. Lá você pode ficar sabendo quando e onde farei shows, ler artigos sobre nosso trabalho em veículos estrangeiros, ver fotos de gravações, turnês, lugares aonde vou. Também pode encontrar alguns textos que de vez em quando posto. Redes sociais podem ser boas e úteis.

 

Renda do show irá para fundo

 

O show #SouMinasGerais, em benefício das vítimas da tragédia de Mariana, ocorre das 14h às 22h da próxima terça, na Esplanada do Mineirão. As atrações principais são Criolo, Caetano Veloso e Jota Quest, que receberão como convidados Milton Nascimento, Tulipa Ruiz e Emicida.

“Essa mobilização é importante para estimular outros projetos e o #SouMinasGerais não termina com o show. As pessoas vão poder continuar contribuindo numa conta social que foi aberta”, afirma Carol de Amar, sócia-proprietária da Macaco Prego, produtora mineira que assina a organização do evento, juntamente com os escritórios dos artistas envolvidos.

A renda do show deverá ser encaminhada para um fundo filantrópico chamado Sou Minas Gerais, gerido pela Sitawi Finanças do Bem, organização sem fins lucrativos. O objetivo do fundo é garantir que a utilização dos recursos se dê com eficiência e transparência. É também em nome da Sitawi que foi aberta a conta social citada pela produtora (Itaú, agência 8582, conta-corrente 16514-1, CNPJ: 09.607.915/0001-34).

Ingressos para o show #SouMinasGerais custam R$ 50 (preço único) e estão à venda no endereço eletrônico www.sympla.com.br/souminasgerais e nos postos da Buy Ticket no shopping Cidade (das 10h às 22h) e Itaú Power Shopping (das12h às 22h). A bilheteria no local do show funcionará apenas na terça-feira. A classificação indicativa é de 18 anos, e menores somente podem entrar acompanhados por seus responsáveis legais.

 

Criolo cobra ações

 

O rapper Criolo conta que, quando viu as primeiras imagens da tragédia de Mariana, sentiu tristeza e desespero. A iniciativa do show beneficente batizado de #SouMinasGerais, em referência à música Para Lennon e McCartney (Fernando Brant, Lô Borges e Márcio Borges), partiu de seu escritório. Ele a considera uma ação pequena, mas de coração.

“Tudo é bem-vindo e percebo que o país inteiro criou uma rede de solidariedade para ajudar quem sofreu com essa catástrofe, que é mundial. Minas Gerais é um lugar que adoro, tem um povo de luz e abençoado que amo. Providências devem ser tomadas urgentemente”, afirma.

Indignado não só com o que houve em Mariana, mas com o atual momento social e político brasileiro, Criolo espera que os responsáveis paguem pelas consequências da tragédia. “Estamos vivendo um momento sombrio em vários aspectos. É chacina, parlamentar roubando o nosso dinheiro, governo fechando escola, estudante e professor tomando tapa na cara e ainda uma catástrofe dessas. São tempos difíceis, mas não podemos perder as esperanças. A gente não pode aguentar mais esse tipo de coisa. Por isso devemos nos unir e nos fortalecer”, convoca.

É Criolo quem vai abrir o show na Esplanada do Mineirão, na próxima terça, em benefício das vítimas, seguido de Jota Quest e Caetano Veloso. Emicida, Tulipa e Milton Nascimento farão participações especiais.

 

 

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