'Rubber Soul': há exatos cinquenta anos, começava uma nova fase nos Beatles

Álbum iniciou período de maior experimentação na obra do grupo inglês, que já era fenômeno de popularidade

por Diário de Pernambuco 03/12/2015 10:53

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 EMI/Divulgação
Beatles na famosa sessão de fotos da capa de Rubber Soul (foto: EMI/Divulgação)
Quando se pensa nos Beatles, vêm à cabeça duas fases distintas: a primeira, da inocência, dos paletós engomados, da influência de Little Richard e Buddy Holly e das letras que falam do amor que vai te encontrar na saída do trabalho, quando você está cansado após um dia longo. A segunda é da maturidade; do contato com o ácido e a maconha - influências declaradas do grupo - e de um maior experimentalismo de instrumentos e sonoridades, incentivado, entre outros, pelo produtor George Martin.

O que muita gente esquece, porém, é o período de transição entre essas duas fases, tão distintas que fazem duvidar se trata-se da mesma banda. Cinquenta anos atrás, em 3 de dezembro de 1965, essa transição dava talvez seu mais importante passo com o álbum Rubber Soul. Lançado pela EMI, o disco de 1965 inaugura uma fase mais experimental do Fab Four. Que começa já por sua capa, cuja foto (o tradicional retrato dos quatro músicos) e fonte são distorcidas propositalmente.

 EMI/Divulgação
Capa de 'Rubber Soul' (foto: EMI/Divulgação)
A cereja do bolo, é claro, estão nos arranjos vanguardistas para a época e nas composições mais profundas do que os lançamentos anteriores, a notar pelo florescimento de certo obscurantismo nas letras de John Lennon, pelo romantismo de Paul McCartney atingindo um nível exacerbado, ou pelo início de uma clara influência da música indiana no cotidiano de George Harrison (vide Norwegian Wood, uma das mais celebradas músicas do álbum).

É bem verdade que Help, disco do mesmo ano, já dava mostras de que o esgotamento da "fase do paletó" dos Beatles os fizera investir em algo mais complexo e que fugisse de fórmulas como a que consagrou o filme A Hard Days Night (em português, "Os Reis do iê-iê-iê, que explica muita coisa).

A mudança de Help para os discos anteriores já era traduzida por meio de letras que, apesar de sentimentais, já traziam leituras menos superficiais - exemplo de You've got to hide your love away, que, supõe-se, fala sobre um caso extraconjugal de John Lennon. No entanto, é o Rubber Soul que faz a verdadeira quebra, o encerramento da primeira metade da carreira dos Beatles e o início de uma etapa de imersão nas letras intimistas.

Uma característica inconfundível do álbum é o ecletismo de suas músicas, algo até então pouco explorado pelo grupo e que daria a tônica da sua fase seguinte. E o desapego ao valor comercial dos álbuns, como diz o próprio Paul McCartney: “Nossas primeiras coisas eram voltadas diretamente para o público, dizendo: ‘por favor, compre esse disco’. ‘Thank you girl’, ‘P.S. I love you’... Acho que chegou um ponto em que pensamos: ‘Fizemos o suficiente disso. Podemos ramificar um pouco, fazer coisas um pouco mais surreais’”.

 

 

 

De fato, o grupo não se furtou a experimentar. Há um abismo entre, por exemplo, o piano barroco tocado por George Martin na lírica In my life e as guitarras distorcidas combinadas ao vocal em eco (ao maior estilo Beach Boys) em The word. O disco ainda passeia, entre outros, pelo folk - basta lembrar do violão de I’m looking trough you, de McCartney, que inclusive assume a influência de Bob Dylan nas suas músicas - e pela cítara de Norwegian Wood, tocada por um George Harrison que começava a despertar fascínio pela música do indiano Ravi Shankar.

Àquela época, com o rock passando por um amadurecimento e com uma identidade dos Beatles completamente diferente da que se tem atualmente, o Rubber Soul pode até ter sido mal compreendido. O que não o impediu de ser sucesso nas paradas da Inglaterra e dos Estados Unidos (neste, teve algumas músicas cortadas). Ainda assim, não se nega seu caráter de revolucionar a música e impulsionar a carreira do grupo inglês para outros rumos.

A etapa seguinte da produção dos Beatles traria nada menos que os aclamados Revolver, Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, Magical Mystery Tour, Abbey Road, White Album e Let it Be. Não há como negar, assim, que o disco de capa distorcida e com a fonte arredondada era ponto de partida para um período que consagraria os Beatles, até então maior símbolo da música pop mundial, como um ícone do rock em caráter mais abrangente. As obras posteriores influenciariam não apenas Roger Waters, Brian Wilson e outros músicos dali para a frente, como uma própria ideia engessada da produção musical da época.

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