Parceria de Naldo com Mano Brown causa polêmica entre fãs do Racionais MCs

Disco #Sarniô tem faixa com a dobradinha do funkeiro carioca com o rapper paulista. Videoclipe da dupla será lançado em dezembro

por Ângela Faria 29/11/2015 15:30

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Washington Possato/Divulgação
Naldo Benny, cantor e compositor (foto: Washington Possato/Divulgação )
Erasmo – aquele do pode vir quente que eu estou fervendo – está lá, assim como Mr. Catra – aquele do papai chegou. Mas quem chegou chegando em #Sarniô, novo disco de Naldo Benny, foi Mano Brown, que juntou seu rap ao funk carioca do anfitrião. Essa alquimia flow-batidão horrorizou fãs mais tradicionais do líder do Racionais MCs, o grupo mais importante do hip-hop nacional. Alguns deles foram às redes sociais desancar o ídolo, antecipando ironicamente a “parceria” de Brown com Anitta. “Tanto criticava esses cara q rebola e pintava o cabelo, daqui a pouco vc tah igual a eles”, desabafou Marcello Viana da Silva na página de Brown no Facebook. “Os guardinhas do rap vão ter um AVC”, contra-atacou Alisson Fontoura, em defesa da dobradinha.

“Sempre original, sempre/É o crime de la creme”, diz a letra de Benny e Brown, com batidas envolventes e sonoridade assinada por Naldo para celebrar o empoderamento dos negros brasileiros – seja na roda de samba, no baile funk, no pistão da balada ou no flow do rap. “Respeitamos as críticas, polêmica sempre vai existir”, contemporiza Naldo. Mas avisa: a parceria chegou para ficar – e não vai parar na primeira faixa de #Sarniô. Novidades vêm por aí, e que se preparem os algozes de Brown. O videoclipe da dupla, que começou a ser rodado anteontem, em Sampa, chega à pista em dezembro. Fotos dos bastidores estão na página do autor de Vida loka no Facebook.

“Nossa parada é de irmãos”, afirma Naldo, lembrando que ele e o novo parceiro vieram da favela, têm as mesmas raízes. “Brown vestiu a camisa e me disse: ‘É diferente de tudo que já fiz’. Não é questão de grana, mas de criar um som louco, contemporâneo. A gente já chegou chegando. A música fala da Vila Pinheiro, a minha quebrada, e da São Paulo dele, além de Jorge Ben, do Tim Maia. A gente não saiu dando orelhada. Cantamos o que acreditamos, não o que querem nos impor. A gente faz a moda acontecer”, diz Naldo.

Conhecido por sua lendária cara de poucos amigos, Mano Brown desenvolve projeto solo bem diferente da marca Racionais. Apaixonado por soul e funk das antigas, o rapper aposta em letras românticas, batidas suingadas e dançantes. Resumindo: “Brown solo” tem a ver com o funk pop de Naldo Benny.

 

CARETA A polêmica provocada pela parceria Brown-Benny, iniciada quando a faixa de abertura #Sarniô foi divulgada na internet e reforçada na semana passada, com a publicação da foto dos dois no Facebook do rapper paulistano, vai continuar.
Neste domingo, Mano Brown explicou, em reportagem publicada no jornal O Globo, por que decidiu "fechar" com o projeto de Naldo. "Como o público do Racionais ficou muito careta, muito engessado, tenho que fazer por fora. Sou obrigado a fazer. Não que eu queira quebrar o grupo (...). Esse movimento careta não me agrada. Quando comecei a fazer essa porra, fiz para ter liberdade. Não para ser carcereiro de ninguém. Os caras (que criticam) são carcereiros, eu sou ladrão. Pulo o muro e vou embora. Gravei com o Naldo e 'roubei a brisa' deles. Não sabem nem o que falar", declarou ao repórter Mateus Campos.


O líder do Racionais também defendeu o funk carioca. "O funk é revolucionário. Doa a quem doer. Tem libertinagem, mas tem liberdade. É uma coisa que o hip-hop começou a tirar das pessoas. Ao contrário do funk, o hip-hop hoje tem uma bíblia de regras que um jovem não aceita. O jovem quer ultrajar. Quando o funk chegou a São Paulo, falei para os rappers: 'Vocês vão ficar para trás, estão escrevendo música para a minha avó ouvir'.

SONHO Com 17 músicas, produção de Naldo e Batutinha e capa assinada pelo artista plástico Romero Britto, #Sarniô traz um ídolo do anfitrião na faixa Primeira vez: Erasmo Carlos. “Ouço esse cara desde criança, ele e o Roberto Carlos. Foi um sonho quando Erasmo chegou na minha casa para gravar”, conta. Além do Tremendão – que ganhou uma cafeteira só para ele no estúdio, a “caferasmo” –, MC Guimê, K. Rose e Mr. Catra se juntaram ao bonde.

Autor de Amor de chocolate e Exagerado, hits de verão que estouraram quatro anos atrás, Naldo minimiza o noticiário sobre a queda de seus cachês. Argumenta que oferece vários formatos de apresentação: da mais modesta, para boates menores, a espetáculos médios e megashows, com bailarinos e banda completa. Sua agenda para os próximos dias inclui os Estados Unidos. O lançamento de #Sarniô está marcado para quinta-feira, no Rio de Janeiro. Em abril, Naldo volta aos EUA e vai se apresentar na Europa.

EMPREENDEDOR O funkeiro pop é dono do próprio nariz. Grava discos no estúdio que montou em casa, mantém equipe para cuidar das finanças e comanda a Benny Entertainment, dizendo prezar qualidade e profissionalismo. Não revela cifras, mas garante que investiu “bastante grana” em seu projeto. A recessão não o assusta. “Na crise, a gente cria. Isso é normal para qualquer empreendedor, obrigado a lidar com altos e baixos. Você pode negociar cachê, oferecer vários formatos de show, repensar estratégias”, recomenda.

Orgulhoso, diz que ajudou a reduzir o preconceito em relação ao funk carioca por meio de seus megashows com banda, figurino, dançarinos e produção caprichada. “Mostramos que nosso trabalho é digno e decente, como qualquer grande espetáculo”, afirma, enfatizando que trabalhou muito para se impor. “Canto, toco, danço. Cheguei chegando, apesar das portas fechadas”, conclui.
Boggie Naipe/Reprodução
Naldo e Mano Brown gravam clipe em São Paulo (foto: Boggie Naipe/Reprodução )

DISCOGRAFIA

Na veia (2009)
Na veia tour (2012)
Verão (EP, 2014)
#Sarniô (2015)

#SARNIÔ
. De Naldo Benny
. Naldo Music/Radar Records
. Preço médio: R$ 20

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