Gal Costa visita passado icônico mirando no gosto dos jovens em 'Estratosférica', o show

Canções de Mallu Magalhães, Tom Zé, Criolo, Milton, Caetano, Céu e Marcelo Camelo se misturam aos clássicos da Tropicália no caldeirão experimental da baiana

por Bossuet Alvim 27/11/2015 06:00

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No palco, Gal Costa é mulher de adjetivos. Já foi Fa-Tal na série de shows que rendeu o célebre disco A todo vapor (1971) e, mais tarde, assumiu-se Profana para provocar os caretas de 1984. Agora, vem Estratosférica, transcendendo os 50 anos de carreira em um concerto que ela própria define como “basicamente rock’n’roll”. Sob direção musical de Pupillo, da banda Nação Zumbi, o espetáculo que chega hoje a Belo Horizonte tem som experimental, dando frescor a canções antigas para encaixá-las no repertório do álbum lançado em maio. “A sonoridade é ousada, com alguma estranheza. Gosto muito disso”, ela diz.

Sob esse aspecto, Estratosférica deve méritos ao antecessor Recanto, disco de 2011 que reviveu a Gal Costa das apresentações catárticas, com ênfase no repertório inédito. Segundo ela, os dois álbuns têm em comum “a estranheza” – o último, porém, valoriza um som mais acessível. “Recanto é mais radical, mas neste momento queria fazer algo mais palatável, porém igualmente ousado”, detalha ela. O espetáculo chega a BH como promoção cultural do Estado de Minas.
Bob Wolfenson/Divulgação
''O show propõe revisitar o passado, um olhar para o presente e também para o futuro'', adianta Gal (foto: Bob Wolfenson/Divulgação)
Reviver faixas pouco visitadas ao vivo é uma forma de a baiana brindar fãs mais jovens com a memória da própria obra. “É importante a nova geração que curte meu trabalho ter oportunidade de me ver cantando essas canções no palco”, ressalta Gal, que iniciou a turnê no fim de setembro, em Salvador. A apresentação chega a evocar o registro visceral de 1971, ao resgatar Como 2 e 2, Pérola negra e Mal secreto, todas presentes em Fa-Tal.

LUZ Gravações ainda mais esquecidas ganham luz nas duas horas do show Estratosférica. Arara, entregue a Gal por Lulu Santos no mediano Lua de mel como o diabo gosta (1987), prova-se mais potente com a vocalista aos 70 anos do que na versão original.
 
Sim, foi você faz ponte entre a estrela e a menina recém-chegada da Bahia, em 1965, que ainda assinava Maria da Graça quando gravou a faixa de Caetano Veloso no primeiro compacto de sua carreira. “Há tesouros escondidos no show. Quem achá-los será beneficiado”, adianta a artista.

Outro possível tesouro, portanto, pode ser Namorinho de portão, de Tom Zé. Do primeiro álbum de Gal, lançado em 1969, a faixa fala ainda mais perto à nova geração por causa de um cover da banda Penélope, que fez sucesso no comecinho dos anos 2000. “Essa galera jovem é tudo de bom”, ela comemora. “O show propõe revisitar o passado, um olhar para o presente e também para o futuro”, acrescenta.

O interesse por aquilo que faz a cabeça dos mais novos é o guia absoluto de Estratosférica, o álbum. O tom de novidade se estende ao espetáculo porque a maioria das faixas chega ao palco com parcerias entre diferentes gerações que se equiparam à inquietude da intérprete.
 
 
 
“Canto músicas de uma geração que nunca havia gravado antes. Minha carreira é marcada por esses momentos de mudança”, ela observa. O rapper Criolo e suas rimas se desdobram na melodia de Milton Nascimento em Dez anjos, enquanto os Velosos Caetano e Zeca, pai e filho, dividem o encerramento do show com Você me deu.

A faixa-título, assinada por Céu, Pupillo e Junio Barreto, em breve será lançada como segundo single do trabalho, sucedendo a Quando você olha pra ela, de Mallu Magalhães, a caçula do time de compositores. Ao vivo, ambas fazem de Gal a mesma cantora irrequieta e de gestos vibrantes dos shows tropicais e coloridos realizados na década de 1980. “Ao vivo é pura emoção, papo direto com o público, uma troca essencial”, conclui a estrela.

GAL COSTA
Show Estratosférica. Hoje, às 22h. Sesc Palladium, Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro. Inteira: R$ 130, R$ 160 e R$ 200.
 
Mulher de fases
Fernando Rabelo/Blog oficial
(foto: Fernando Rabelo/Blog oficial )
Em 1967, quando chegou à cena musical brasileira pelas mãos de Caetano Veloso, que dividiu com ela seu primeiro álbum, Gal Costa já era experiente no palco. Três anos antes, havia estreado em Salvador num show com Gilberto Gil, Maria Bethânia, Tom Zé e o próprio Caetano. Desde o primeiro disco solo, em 1969, a baiana sempre foi presenteada por autores de todas as gerações. Ao vivo, transformou registros especiais em capítulos da história da música brasileira.
 
Phillips/Divulgação
(foto: Phillips/Divulgação)
ANOS 1960 — BABY

Em 1968, Gal se juntou a Jorge Benjor e Os Mutantes no programa Divino, maravilhoso, apresentado por Gilberto Gil e Caetano Veloso na TV Tupi. A atração levava o nome da canção que ela defendeu no Festival da Música Popular Brasileira, naquele mesmo ano. Recém-chegada ao mercado no fim da década, a musa da Tropicália teve tempo de lançar dois álbuns e concretizar o espetáculo psicodélico Gal! (1969).

Arquivo O Cruzeiro/EM
(foto: Arquivo O Cruzeiro/EM)
ANOS 1970 — FATAL
Gal Costa entrou nos anos 1970 com o show Fa-Tal, atração fixa de um teatro em Copacabana, no Rio de Janeiro. Dirigido por Waly Salomão, o espetáculo se transformou no disco A todo vapor, seu registro ao vivo mais significativo. A gravação de Vapor barato é até hoje uma das principais portas de entrada na obra da artista baiana.

RCA/Divulgação
(foto: RCA/Divulgação)
ANOS 1980 — PROFANA

O amadurecimento da artista se refletiu em um som mais pop e menos desafiador. São dos anos 1980 os hits dela mais executados em rádios e trilhas de novela, como Meu bem meu mal, Canta Brasil, Sorte e Brasil. Nos palcos, entretanto, Gal não se acomodou ao gosto radiofônico: montou espetáculos de forte personalidade, como o regionalista Festa do interior (1981) e Profana (1984), esse marcado pelo tom socialmente engajado da canção Vaca profana, de Caetano.

ANOS 1990 — FELINA
Aos 48 anos, Gal Costa entrava em cena com gestos felinos no show O sorriso do gato de Alice (1994), álbum formado por faixas assinadas por Gil, Caetano, Jorge Benjor e Djavan. Com vocais no ponto exato entre talento e técnica, a cantora exibia o melhor preparo físico em toda a carreira. A turnê impactou o país por seu momento topless – depois de cantar Brasil, Gal exibia os seios e seguia com eles à mostra por boa parte do repertório. Foi a sua última empreitada com veia autoral naquela década, que seria marcada por concertos em homenagem a grandes nomes da MPB e repertório limitado por regravações.

 

Gualter Naves/Light Press
(foto: Gualter Naves/Light Press)
ANOS 2000— RETRAÍDA
No início do século 21, Gal se voltou para o cancioneiro tradicional, revisitando Dorival Caymmi e Haroldo Barbosa, entre outros, além de autores contemporâneos como Arnaldo Antunes e Carlos Rennó. Chegou a flertar com sonoridades mais atuais em Hoje (2005), gravando faixas de compositores pouco conhecidos e um dueto com o congolês Lokua Kanza. Virou mãe ao adotar Gabriel, de 2 anos. Afastou-se dos palcos depois da turnê desse álbum e só voltou na década seguinte.


Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
ANOS 2010 — REINVENTADA
Em sua volta aos estúdios e palcos, Gal não poderia ser mais imprevisível. Presenteada com um álbum concebido por Caetano Veloso, a baiana descortinou novas possibilidades de sua voz em Recanto, disco sombrio e experimental. A turnê ressuscitou a intérprete de grandes momentos, com releituras eletrônicas para clássicos da carreira. Foi um projeto de estranhamento para antigos fãs e um convite para jovens ouvintes, o que se reforçou em Estratosférica, sequência mais popular do CD anterior.

 

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