Tony Tornado abre o Festival de Arte Negra esta noite, em Belo Horizonte

Show de um dos maiores nomes da música black no Brasil será no Sesc Palladium

por Carolina Braga 25/11/2015 08:30

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Gato Negro/Divulgação
Nosso som vanguardista nos anos 1960/70 hoje é referência. A semente foi bem plantada (foto: Gato Negro/Divulgação )
Há 10 anos, durante a entrega do Troféu Raça Brasil, o ator e cantor Tony Tornado desabafou: “Todos sabem que trabalho numa emissora eminentemente branca, e que consigo sobreviver no meio disso tudo. Mas vocês não têm ideia do que é ser negro trabalhando naquele lugar”. Lá se foi uma década e será que algo mudou?  “Acredito que não só lá, mas em todo lugar, o negro ainda pode assumir mais o espaço que merece. É uma luta constante. Estamos no caminho”, diz Tornado, que chega nesta quarta-feira a Belo Horizonte como um reforço de peso – e experiência – para a abertura da programação do Festival de Arte Negra, o FAN. O ator e cantor se apresenta com a banda Black Rio, no Sesc Palladium.


Completando 20 anos, o Festival de Arte Negra, realizado pela Fundação Municipal de Cultura, tem o propósito de apresentar a diversidade de matriz africana. Mas a missão do FAN vai além: abre o debate sobre a relação entre os povos, a arte e a cidade. A festa este ano começa em ritmo de soul, e Tony Tornado é um símbolo incontestável dessa negritude. Em 1972, quando venceu o Festival Internacional da Canção com a música BR-3, ele se tornou conhecido em todo o Brasil. Mas a carreira começou na década de 1960, quando ainda assinava o nome artístico Tony Checker.

Ícone pop No começo, Tornado dublava e dançava no programa Hoje é dia de rock, de Jair de Taumaturgo. Estreou como ator na televisão também em 1972, na novela Jerônimo, da TV Tupi. Um dos papéis de maior destaque foi como Gregório Fortunato na minissérie Agosto, anos depois. “Desde sempre, quando se fala sobre diferenças étnicas, está intrínseco o ponto respeito. Infelizmente, ainda precisamos falar sobre isso”, afirma o artista. “Melhorou muito”, admite, “mas ainda falta demais para chegarmos ao nosso objetivo: a igualdade racial.”

Convidado de honra da banda Black Rio no palco do Sesc Palladium, Tony Tornado, de 85 anos, promete surpresas. Para ele, estar novamente no palco com o conjunto carioca formado na década de 1970 é sempre especial. “Participei da formação da Black Rio pela minha amizade com o Oberdan. William quebra tudo junto de toda banda. É um prazer estar com eles”, diz, contando que para o show de hoje estão previstos clássicos como Mr. Funky Samba, Maria Fumaça (que foi tema da telenovela Locomotivas, em 1977) e Soul negro, além é claro de Podes crer amizade e BR-3, os dois maiores hits do artista.

Diversidade O Festival de Arte Negra 2015 comemora o primeiro ano da Década Internacional dos Afrodescendentes. Até dezembro de 2024, serão realizadas ações em todo o mundo voltadas para a promoção do respeito, proteção e realização dos direitos humanos e liberdades fundamentais de afrodescendentes, como reconhecidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos. A nova temática escolhida para o FAN é encontro. As atrações gratuitas se espalham por espaços como Parque Municipal, Teatro Francisco Nunes, Teatro Marília, Circuito da Praça da Liberdade, Viaduto Santa Tereza, Sesc Palladium e Academia Mineira de Letras, até o encerramento, no domingo.

Entre os destaques estão a exposição do artista plástico mineiro Jorge dos Anjos, a reunião de blocos de carnaval que têm a negritude na essência e uma celebração da diversidade religiosa, como é o caso do Umbutu. “Vamos falar sobre como se encontra a África espalhada pelo mundo”, informa a jornalista Rosália Diogo, que divide a curadoria com o ator Denilson Tourinho e o cônsul honorário do Senegal em Belo Horizonte, Ibrahima Gaye.

Atualmente, a população de Belo Horizonte é formada por mais de 51% de negros. O Brasil é o segundo país no mundo em termos de população negra. Para Rosália Diogo, desde que o FAN é realizado já se percebe uma mudança na valorização da cultura africana na cidade. “Tem sido mais frequente, e não apenas em projetos pontuais”, diz. É por isso que a grade de programação é tão variada, com música, artes plásticas e religião. “São dezenas de iniciativas na cidade, demarcando um novo momento, um novo horizonte do ponto de vista da produção negra.”

No time dos “pratas da casa” que se apresentam no FAN estão Zaika dos Santos, Douglas Din, Carla Gomes, U Gueto e Samba da Meia Noite. A eles se juntam os convidados Gaby Amarantos, Ilê Aiyê, Rico Dalasam. Previsto para sábado, o Umbutu – Encontro da Diversidade Religiosa vai reunir grupos de crenças ligadas às religiões de matriz africana, católica, evangélica, muçulmana e judaica, reunindo o público em torno de uma mesa de chás, em ação coordenada pela artista Thereza Portes e as “mulheres de rocha”, do quilombo de Mangueiras.


Três perguntas para...

Tony Tornado

 

Você foi amigo do Tim Maia, cantou o hino BR-3, tem filhos com os nomes Aretha Franklin e Ray Arthur. A chamada música black brasileira ou música preta brasileira, como diz a Sandra Sá, marcada pelo soul, samba e jazz, conquistou definitivamente seu espaço? Ou ainda sofre preconceito? Antigamente, os bailes black eram perseguidos no Rio de Janeiro, não eram?
Eram sim, mas pelo preconceito sobre a raça e não sobre a música. Como em qualquer estilo, a música negra/preta/black passou por mudanças, mas até a mais antiga tem seu espaço. Acho que poderíamos ter ido mais longe, mas o que fizemos lá atrás marcou gerações e tenho certeza de que ainda marcará mais algumas. Nosso som vanguardista nos anos 1960/70 hoje é referência. A semente foi bem plantada.

Como é a sua relação com a plateia jovem, a meninada do século 21? Você procura apresentar músicas antigas para eles? Por outro lado, busca repertório novo junto a jovens compositores?

A relação é a melhor possível. Não que a minha seja, mas acredito que música boa não tem idade. Os considerados “clássicos” atingem todo mundo. Sim. No meu show tem a participação do meu filho cantando suas músicas. Elas agregam jovialidade e ritmos ao show.

Temos um forte movimento do rap no Brasil, inclusive abordando de forma contundente a questão do racismo, do extermínio dos jovens negros, da perseguição da polícia aos negros. Você gosta de rap? Qual é o seu grupo preferido e por quê?
Adoro rap. Acredito que o Racionais MCs representa bem o que o rap nacional quer transmitir. O Mano Brown, além de um grande amigo, representa muito o que a comunidade vive e quer falar.

• Programação


» QUARTA

Teatro Francisco Nunes (Parque Municipal – Av. Afonso Pena, 1.377, Centro)
• 8h30 – Festival Estudantil de Arte Negra – Áfricas na Cabeça

Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro)
• 21h – Projeto Mesa Brasil Musical: Black Rio convida Tony Tornado

» QUINTA


Palco Baobá (Parque Municipal)
• 19h – Douglas Din – Causa Mor (BH)
• 20h – Carla Gomes (BH)
• 20h30 – Rico Dalasam (SP)
• 21h20 – Gaby Amarantos (Belém) com Carla Gomes e Rico Dalasam

Palco Ojá (Parque Municipal)
• 18h – DJ Fê Linz (BH)
• 23h – Brascubazz in concert (BH)

Mais informações: www.fanbh.com.br

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