Duelo de Mcs nacional traz referências à 'lama' e reafirma espaço das mulheres no rap

Com mais de 5 mil pessoas presentes no Viaduto Santa Tereza, batalha consagrou o fluminense MC Orochi como vencedor

por Shirley Pacelli 24/11/2015 09:00

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LEANDRO COURI/EM/D.A.PRESS
Final do duelo de MCs Nacional, que acontece tradicionalmente embaixo do Viaduto Santa Tereza, reuniu cerca de cinco mil pessoas (foto: LEANDRO COURI/EM/D.A.PRESS)
"Foi lindo!". Nas redes sociais, esse foi o resumo do dia decisivo da batalha nacional de rimas sob o Viaduto Santa Tereza, no último domingo, em Belo Horizonte. Um mar de gente – 5 mil pessoas – de aba reta, black power ou The Notorious B.I.G estampado na camisa fez coro para responder à pergunta clássica do evento: O que acontece aqui.? “Duelo de MCs!”


MC Orochi, do estado do Rio de Janeiro, saiu como o grande vencedor da noite, levando para casa R$ 5 mil. Natural da cidade de São Gonçalo, o rapper é cria da Batalha do Tanque e do Festival de Rap da Praça Trindade, além de fazer parte do grupo ModestiaParte. Ele passou por Arllan (PA) e Noventa (ES) antes de chegar ao confronto final.

“O sonho de todo MC é ganhar essa parada. E esse é sem dúvida o maior evento de rap que tem no Brasil. É papo de pô: milhares de pessoas o vendo. E a visibilidade que vai proporcionar para o seu trabalho é grande. Vai ampliar o público”, disse o rapper.

Orochi, assim como Clara Lima, representante de Minas Gerais, tem apenas 16 anos e faz parte da nova geração de MCs. Só de citarem o nome de Clara no palco o viaduto tremia, mas apesar da grande torcida, a rapper mineira perdeu ainda na primeira fase para Noventa (ES). “Acho que ela rima à beça. E tem que ter uma mina que representa. Ela chegou no nacional, ‘tá ligado?’ Perdeu em casa, mas era favorita”, ressalta o campeão.

Mas, para Orochi, o favoritismo não dita a batalha. “Tem dia que o MC está bem e outros em que está ruim. Emicida, para mim, foi o melhor e ele já perdeu várias vezes. Hoje foi o meu dia, mano. Tem vários aí melhor que eu. Eu soube aproveitar. Estou felizão”, disse.

Na final contra MC Alves, do Distrito Federal, Orochi deixou o público extasiado diante de seu estilo de improviso suingado e com dezenas de rimas disparadas por segundo. Ele soube observar seu adversário para atacar. Brincou com a religiosidade de Alves, que usava uma bandana escrita Jesus e uma camisa com uma cruz estampada. “Na casa do senhor não existe satanás”, lançou, em referência ao sucesso dos anos 90 do Asa de Águia.

Em outra provocação, disse: “Você criou conflito/ Seu short é camuflado/ Seu talento escondido”. Alves, mais experiente na cena, fez rimas mais conscientes e também mandou bem. O público, dividido e fascinado, quase implorou pelo terceiro round.

RECADO

 

A batalha de rimas é a grande atração do encontro, mas o Duelo é, especialmente, espaço para reflexão em torno de questões sociais por meio da arte. Monge, mestre de cerimônia, criticou o extermínio da juventude negra e abriu espaço para duas jovens de ocupações de BH darem seu recado em forma de rap e poesia.
“Não me sinto à vontade para celebrar enquanto os meus estão morrendo. Está na hora de começar a mudar essa parada. A arte é uma forma. A reunião de pessoas em prol de objetivos iguais é a melhor forma”, disse Monge.

Já a mulherada “divou” no palco ao lado da rapper Bárbara Sweet. O show foi um dos pontos altos do evento. Com seu discurso feminista, ela reafirmou o lugar da mulher no hip-hop. “Amor não é contrato, meu bem. Você não deve nada. Você não é gado, não é lote pra viver cercada. Não parece até piada? Por que toda vez que você discorda ele diz que você está errada?”, recitou, antes de uma canção.

Negra Lud, Sarah Guedes, Clara Lima, Paula Ituassu, Kaká e Paige, além do trio de dança Lipstick, se revezaram na cena e agitaram o público presente. Nivea Sabino, artista que participa de campeonatos de poesia falada, no Slam Clube da Luta, mandou o recado: “MC Machista será cobrado na pista”.

Houve ainda o show da experiente dupla Dokttor Bhu e Shabê, que apresentou a nova música Contraplano, uma crítica à corrupção institucionalizada. “Quem está indignado com essa ‘lama’ vai se identificar”, avisou Shabê antes da canção.

O evento também contou com o grafite ao vivo de Viber e Binho Barreto, enquanto os DJs Junin Bumbep e Sense ditaram o ritmo das batalhas com seus beats.

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