Vanusa volta aos estúdios em produção assinada por Zeca Baleiro

Repertório é diversificado, mas, como ela sempre fez, busca valorizar a música popular

por Kiko Ferreira 23/11/2015 08:30

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GAL OPIDO/DIVULGAÇÃO
(foto: GAL OPIDO/DIVULGAÇÃO)
Zeca Baleiro emplacou mais uma. Depois de acertar contas com alguns de seus ídolos e influências e lançar discos e projetos com Fagner, Sérgio Sampaio, Odair José e outros autores e intérpretes que respeita a admira, produziu Vanusa Santos Flores, álbum que não só traz de volta uma cantora e compositora que estava há 20 anos fora dos estúdios, como ajuda a mostrar às novas gerações que a loira veterana é mais do que a cantora que um dia errou os versos do Hino Nacional e se tornou motivo de piada.

Vanusa seguiu uma rota que, de certa forma, é contrária aos mandamentos da Tropicália. Integrante do grupo surgido na Jovem Guarda, sempre teve personalidade para bater o pé e dosar sua porção, digamos, popular, com alguma ousadia. Gil, Caetano, Bethânia e Gal tinham como sustentação de suas carreiras uma música sofisticada, cheia de signos, intenções e figuras poéticas elaboradas, mas ponteavam discos e shows com músicas consideradas de mau gosto, bregas, excessivamente populares. Vanusa, por outro lado, mantinha seu foco em temas mais populares, de rádio AM e vitrola de ficha, de autores como Antonio Marcos, Fábio, Cláudio Fontana, José Messias e Peninha, mas procurava sempre gravar autores mais ligados à MPB, além de buscar temas feministas e ousados.

Quando se ouve os oito discos das duas caixas de CDs (1968–1973, 1974–1979), lançados recentemente pelo selo Discobertas, do pesquisador e produtor Marcelo Fróes, é possível constatar que, além dos sucessos românticos, ela cantou um amplo leque de autores, de Milton Nascimento (Maria, Maria, Travessia) a Gordurinha (Súplica cearense), com passagens por Lupicínio Rodrigues (Felicidade), Luiz Melodia (Congênito), Guilherme Arantes (Aprendendo a jogar), Herivelto Martins (Caminhemos), João Bosco (Amigos novos e antigos) e dezenas de outros, além de ter sido pioneira na divulgação de Belchior (Paralelas) e Zé Ramalho (Avohai).

Vanusa fez disco psicodélico, cantou versão de I will survive feita por Paulo Coelho, gravou tema antidrogas, foi atriz de Hair, teve seis casamentos e três filhos, gravou 24 LPs e 540 músicas, lutou telecatch e fez humor na TV, interpretou e compôs rocks e baladas, soul e r’n’b. Quando foi internada em 2013, para tratar de uma depressão, foi Zeca Baleiro quem a procurou para gravar o novo álbum.

Aos 68 anos, a cantora está à vontade para rever sua história e reafirmar posições. Com liberdade e tempo, refez músicas próprias que havia gravado sem gostar do resultado (Traição, Tapete da sala), recuperou uma canção que Zé Ramalho havia feito para ela há mais de uma década (O silêncio dos inocentes) e finalmente registrou um tema dos anos 1980 que os produtores da época acharam sofisticado demais para um de seus discos (Mistérios).

Boa ouvinte, relê sucessos alheios que admira, como o maior hit do grupo português Madredeus, Haja o que houver, e do mineiro Vander Lee, Esperando aviões. Ainda se reafirma como letrista numa inédita parceria com Zeca Baleiro (Tudo aurora), atualiza a amizade com o amigo Zé Geraldo, regravando um tema de sua filha, Nô Stoppa (Abre aspas), e abre os trabalhos relendo um tema sintomático de Angela Ro Ro, Compasso, meio que retomando seus rumos e lemes: “Estou deixando o ar me respirar/ bebendo água pra lubrificar/ mirando a mente em algo producente/ meu alvo é a paz”. Que Vanusa continue em paz uma carreira que não merecia ter sido interrompida.

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