Maior nome do fado no mundo, Carlos do Carmo elogia Lenine e fala sobre Luiz Gonzaga

Cantor português ganhador do Grammy 2014 é destaque no Festival de Fado do Brasil, que ocorre em São Paulo e no Rio de Janeiro

por Raquel Lima 18/11/2015 14:06

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CC/Divulgação
Carlos do Carmo recebeu o Grammy no ano passado pelos mais de 50 anos de carreira (foto: CC/Divulgação)
Vim para o fado é título de uma das inúmeras canções imortalizadas por Carlos do Carmo, mas bem resume a história do fadista, que é, hoje, o nome mais forte do gênero português Patrimônio Imaterial da Humanidade. Filho de um proprietário de casa de fado e da fadista Lucília do Carmo, o cantor de 75 anos - agraciado com um Grammy, em 2014, pelas cinco décadas de carreira - está em São Paulo para cantar no Festival de Fado do Brasil.

Não será a primeira vez de Carlos dos Carmo em um palco brasileiro. Se o artista é notório por ter renovado o gênero português, também conhecido é pela ligação com a música brasileira. Era habituè do Rio de Janeiro nos anos 1970, quando costumava visitar a amiga Elis Regina. Ouvia Luiz Gonzaga, cantava com Ivan Lins, Chico Buarque - de quem sempre admirou as composições politizadas - já que nunca fez segredo das próprias opiniões políticas.

Ao elogiar o pernambucano Lenine, a quem chamou de "maravilhoso", o fadista reforça outra qualidade: estar atento ao novo. "Tentar aprender até morrer dá-me uma força que me estimula continuamente", justifica o ganhador do Prêmo Goya 2008 de Melhor Canção por Fado saudade, trilha do filme Fados, de Carlos Saura. Em entrevista exclusiva ao Viver, por e-mail, Carmo, se recusou a falar da política nacional, mas revelou que ainda há muito o que quer fazer: "Pobre do artista que deixe de sonhar!".

 

 

 

Entrevista >> Carlos do Carmo

São Paulo e Rio de Janeiro, dois importantes cenários musicais do país, receberão, pelo terceiro ano, o Festival de Fado. Imagina-se, que para um herdeiro e grande nome da música patrimônio de Portugal, esse é um palco dos sonhos, não?

O Brasil é todo ele um sonho.

O fado vive um momento de popularização no Brasil. A que se deve essa mudança?

Lisboa é uma cidade que é muito referenciada no New York Times e no Le Monde e tem uma procura turística como nunca teve na sua já longa história. O fado foi nomeado, pela Unesco, Patrimônio da Humanidade e são muitos os brasileiros que descobrem Lisboa e o fado… e falam aos seus amigos.

Qual o segredo para, aos 52 anos de carreira, se manter inovador, como – por exemplo - na recente parceria com Bernado Sassetti?
Pobre do artista que deixe de sonhar!

Conquistar o Grammy mudou alguma coisa?
É mais um belo prêmio e o reconhecimento partilhado com o povo da minha terra.

Muitos portugueses voltaram a se render e assumir o fado como caminho musical. Qual o maior desafio do fado hoje, para se manter vivo e ouvido?
É o reencontro com as raízes e o afastamento do "provincianismo" como escreveu Fernando Pessoa. É ser genuíno porque, sendo uma canção da alma e do sentimento, não é uma canção fácil.

Você parece estar muito próximo aos novos nomes do fado. Foi o primeiro que ouvi falar sobre Carminho. Quem, você acredita, se destaca entre os fadistas modernos?
Temos excelentes jovens, guitarristas, mulheres e homens intérpretes. O último disco que gravei foi um disco de duetos com doze deles.

Como um grande inovador e renovador no fado, sentiu algum tipo de rejeição no início? Em caso afirmativo, como e quando isso mudou?
É sempre difícil fazer uma proposta fora dos cânones a que estamos habituados. Vou sempre correndo riscos, mas, cada vez mais, com a aceitação do público de várias faixas etárias.

O mais recente álbum de estúdio foi lançado em 2012, com Maria João Pires. Há planos para um novo trabalho de estúdio ou ao vivo?
Foi um honroso convite que me dirigiu a Maria João Pires, uma das mais célebres pianistas do mundo e bem portuguesa. Quanto a novos projetos, tenho vários na minha cabeça.

Você cantou com Elis, já teceu diversos elogios a Chico Buarque. Fale um pouco sobre essa relação musical com o Brasil, por favor.
Cantei com a minha velha amiga Elis Regina em 1973, no Golden Room, do Copacabana Palace. Ficamos amigos até ao fim da vida dela e confesso que nunca ouvi alguém cantar tão bem no Brasil. Tenho um amigo do coração com quem canto regularmente, o grande Ivan Lins, que é dos artistas brasileiros mais reconhecidos no mundo inteiro.

Você também já falou sobre Luiz Gonzaga. Lembra a sensação de ouvir o Rei do Baião pela primeira vez?
Era bem menino quando ouvi pela primeira vez um disco de Luiz Gonzaga e deixou-me uma impressão muito forte de um certo Brasil. Já cantei em muitas cidades do Brasil e sinto cada vez que cá venho uma sensação que não sinto em nenhum outro pais do mundo. A diversidade. Não há Brasil, há Brasis!

Conhece algo da música pernambucana atual?
O maravilhoso Lenine!

Você sempre teve um posicionamento político claro e forte. Como vê o atual momento político do Brasil?
Se me perguntasse sobre Portugal, eu lhe daria o meu ponto de vista. Falar do momento político do Brasil não seria elegante. Afinal, estou na vossa terra!

Você tem conta no Facebook. Usa as redes sociais ou alguém atualiza este perfil faz para você?

Sou muito desligado das tecnologias, adoro ouvir discos, ler livros, jornais e revistas. Adoro escrever cartas à mão. Tudo o que tem a ver com a minha vida de artista é tratado por alguém nas redes sociais.

+ serviço
O Festival de Fado ocorre nestas quarta e quinta-feiras em São Paulo, com Carlos do Carmo, Raquel Tavares e Cuca Roseta. Os shows acontecem no Rio de Janeiro nesta sexta e no sábado. Mais informações: festivalfadobrasil.com.

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