Música de confronto

O rapper mineiro Renegado usa tecnologia de Primeiro Mundo no clipe de Só mais um dia. É a prévia do que virá com o lançamento de seu novo EP, Relatos de um conflito particular

por 09/10/2015 17:03

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Leandro Couri/EM/D.A Press
Leandro Couri/EM/D.A Press (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Eduardo Tristão Girão



Parece videogame, mas é clipe. Mexendo o mouse diante da tela do computador, você “olha” para um lado e para o outro, para cima e para baixo, acompanhando toda a ação ao redor do rapper belo-horizontino Flávio Renegado enquanto ele capricha no flow da densa canção Só mais um dia, que abre Relatos de um conflito particular, seu recém-lançado EP. É o chamado “clipe em 360o”, gravado com tecnologia de realidade virtual, que permite esse tipo de interatividade com o espectador.

“Vi um vídeo desse quando estava fazendo a pré-produção do disco”, conta Renegado. “Essa parada é o futuro, fiquei com isso na cabeça. É um novo formato de comercializar música, um novo caminho. Sem falar que, daqui a pouco, essa tecnologia poderá ser usada em ensino, medicina”, imagina. Ontem, no Alto Vera Cruz, bairro de BH onde nasceu, encerrou circuito de exibição do novo clipe para alunos de escola pública, incluindo óculos Google Cardboard (de papelão, custam mais barato) para potencializar a experiência virtual.

Durante a semana, Renegado esteve também no Bairro Heliópolis, em São Paulo, e no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, para mostrar o mesmo clipe (com os mesmos óculos) para crianças e adolescentes. “São locais onde tenho mais afinidade e já transito com meu trabalho. A molecada é atenta e a reação diante da realidade virtual é muito legal. Sentem vertigem, medo, se divertem. A alma sai lavada, fico feliz de dar acesso a isso para a galera”, relata o rapper, que mandou fazer no exterior 300 óculos do tipo especialmente para o projeto.

Provocações


Virtual, mas com letras calcadas na realidade. As sete faixas do EP tiveram como ponto de partida uma provocação feita ao artista. “Sugeriram que eu inventasse um oitavo pecado capital. Não consegui, mas refleti muito sobre a nossa sociedade e me aprofundei nos sete que existem. Cada faixa representa um pecado”, conta, acrescentando que divide a autoria das canções com seis parceiros, assinando sozinho apenas a última faixa, Redenção. Todas acabam de ser disponibilizadas nas plataformas digitais Spotify, Deezer, Rdio, iTunes e Google Play.

Com Alexandre Carlo, vocalista da banda de reggae Natiruts, fez Além do mal, cuja gravação contou com a participação do parceiro. “Ficou um ragga muito doido”, diz Renegado. Escreveu as outras faixas com Makely Ka (Só mais um dia), Gustavo Maguá (Pra quê?), Jana Lourenço (Luxo só), Chico Amaral (Particulares) e Gabriel Moura (Rotina), todos eles vindos de “praias” muito distintas. Outra presença em estúdio foi a de Samuel Rosa, vocalista e guitarrista do Skank, que participou dessa última canção.

Banda

Prevista inicialmente, a participação do funkeiro Mr. Catra foi cancelada devido a problemas de agenda. Mesmo assim, o batidão carioca não ficou de fora, servindo de base para Luxo só. Nesse EP, que marca sua estreia como produtor do próprio trabalho, Renegado não misturou ao rap apenas funk e reggae, mas também elementos de rock e pop. Para ele, que cresceu ouvindo rap, soul, samba e funk (o rock veio bem depois), tudo isso é muito natural.

“A mistura sempre foi uma característica forte do meu trabalho e ele tem ajudado a apontar para essa diversidade que hoje se vê no rap nacional”, justifica. “Quando lancei meu disco de estreia, Do Oiapoque a Nova York, em 2008, era quase um pecado misturar outros gêneros com o rap. Até então, era algo mais duro, com muito sampler. A partir de trabalhos como o meu, esse movimento cresceu. Isso renova o público, renova os conceitos de quem está dentro da cena também. Tenho visto nitidamente tudo isso acontecendo.”

Depois de Do Oiapoque a Nova York vieram o CD Minha tribo é o mundo (2011) e o DVD Suave ao vivo (2013). A exemplo de todos esses trabalhos, Renegado fez questão de gravar com banda, opção que tem se mostrado cada vez mais comum entre artistas do gênero. No caso, o bom grupo que o acompanha é formado por Marcelo Guerra (guitarra), Aloízio Horta (baixo), Rodrigo Carioca (bateria) e o DJ Spider, com Marcos Suzano (percussão) e Cristiano Caldas (teclados) em algumas faixas.

Enquanto não define por onde e quando irá começar a turnê de Relatos de um conflito particular – que não por acaso vai contemplar sete capitais (BH está entre elas) –, Flávio Renegado concentra-se na criação de mais clipes para cada uma das faixas do novo trabalho. Uma missão dura, sem dúvida, ainda mais depois de convidar o espectador para contracenar virtualmente com ele, como em Só mais um dia.

Sem o peso da culpa

Flávio Renegado está feliz com o rumo que o rap brasileiro tomou nos últimos anos: diversidade estética, diversidade de público. “Está crescendo, mas sem perder a essência. Falo da politização das letras, da veia de protesto. Não está se descaracterizando para ocupar novos espaços. A gente tem de mandar a mensagem para mais pessoas e para diferentes classes sociais, isso é natural. Porque é música e música tem de ser para todo mundo”, resume.

Especificamente falando das letras, o artista acredita que o discurso, de forma geral, tornou-se mais “incisivo e contundente” entre os rappers brasileiros. “Está ficando mais direto, sem o peso da culpa”, diz. “Temos mais liberdade e tranquilidade para falar disso e, assim, o papo fica mais reto. A questão racial está mais dura no último disco dos Racionais MCs, por exemplo. O rap está se posicionando”, explica. Até porque, com o passar do tempo, outras variáveis entraram em cena para virar tema de música, como acesso à informação e ampliação do consumo.

Definitivamente, não é mais só uma questão de preconceito. “A sofisticação se dá na música e na letra. Hoje, novos temas são abordados de forma desprendida. E enquanto houver desigualdade, a questão do preconceito será uma constante no nosso trabalho e a sociedade não conseguirá evoluir”, afirma. “Até hoje, o negro apenas sobreviveu. Nossa luta é por respeito também. A gente quer viver, não apenas embalar sua compra no supermercado, consertar seu carro. A gente quer ter um carro, levar a namorada ao cinema”, conclui.

Parceria

O novo EP de Flávio Renegado já estava quase pronto, em fase de masterização, quando o artista recebeu da Som Livre o convite para fazer parte de seu cast. Como ainda não havia vivido essa experiência em sua vida profissional, avaliou que era hora de aceitar. Entretanto, acredita ter firmado parceria com a gravadora: “Sou dono do meu business e vou continuar sendo. É tudo baseado no diálogo, sem imposição”. Longe de se encaixar no papel de empregado, sabe exatamente o que quer dessa relação: “A gravadora vai amplificar minha voz, levar meu trabalho para meios e pessoas que ainda não atingi”.

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