Série de eventos marca os 70 anos de Gonzaguinha

Homenagens reúnem especiais como CD com antigos registros montados em duetos com artistas em atividade e outro gravado pela filha Fernanda

por Ana Clara Brant 22/09/2015 08:00

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Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
Louise Martins e sua filha Mariana Gonzaga relembram a vida do marido, pai e cantor no escritório que ele tinha em casa. (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Na casa da Alameda dos Jacarandás, na Pampulha, onde Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha, viveu por nove anos com a mulher, Louise Martins, a Lelete, e a filha caçula, Mariana, certamente hoje seria dia de festa. Afinal, o “moleque” nascido no Morro do São Carlos, no Rio de Janeiro, estaria se tornando septuagenário. Cerveja gelada, uma boa sinuca, os velhos amigos e quem sabe até fogos de artifício não faltariam nessa celebração. “Aqui em casa não tem dessa não”, avisa Lelete, de 58 anos. “Quem não gosta de aniversário tem que gostar, porque eu sou a maior festeira do mundo. Com certeza a gente ia se reunir com os mais próximos, sem ser muita gente, porque o Gonzaga gostava de uma coisa mais reservada.”
 
 
 
E o que será que o cantor e compositor carioca radicado em Minas desejaria ganhar nesta data tão especial? “Acho que ele gostaria de ver o brasileiro tratado com dignidade, respeito e inteligência. Isso de fato era um desejo dele”, emenda a filha Mariana, de 32 anos, que, apesar de ter uma voz bonita e afinada, é a única dos quatro rebentos de Gonzaguinha que não seguiu o caminho do pai. “Brinco que sou a ovelha negra dos Gonzagas. Cheguei a gravar com minhas irmãs Amora e Fernanda num disco do papai em homenagem ao meu avô. Mas agora já não tem jeito. (risos) Sou doutora em farmácia, dou aula na área. É um caminho sem volta”, revela.

Herança

Os 70 anos do autor dos clássicos Redescobrir, Espere por mim morena, E vamos à luta e Começaria tudo outra vez, entre tantos outros, não vão passar em branco. Acaba de chegar ao mercado o CD 'Presente – duetos', produzido por Miguel Plopschi, que usou tecnologia digital para criar duetos com os artistas  Maria Rita ('Grito de alerta'), Lenine ('Começaria tudo outra vez'), Zeca Pagodinho ('E vamos à luta') e Fagner ('Feliz'). Um dos destaques é a gravação de Gonzaguinha com o pai Gonzagão e seu primogênito, o também cantor e compositor Daniel Gonzaga, de 40 anos, em 'A vida do viajante'.

Aliás, Daniel foi o responsável por lembrar o pai de outras formas. Ele dirigiu o show 'Moleque Gonzaguinha – 70 anos', que percorreu algumas cidades do Brasil, e está por trás de alguns discos-tributos, como o da irmã Fernanda Gonzaga, 'Toda pessoa pode ser invenção', que será lançado em show no fim de outubro, em Belo Horizonte. “O nome do projeto é um verso de 'Relativo', uma das músicas inéditas do meu pai que gravei. Acho que esse título expressa muito bem ele, o meu momento de retorno, já que fiquei um tempo sem cantar, e toda a concepção do disco”, comenta Fernanda, que integrou o grupo Chicas com a irmã Amora.

O álbum, que foi produzido por meio de uma “vaquinha” na internet, traz outra composição inédita, 'Aprender a sorrir', além de pérolas como 'Pessoa' e 'Plano de voo'. Fernanda Gonzaga está também pesquisando material para um musical sobre o pai, que deve ser finalizado em 2016. “Acho que ele ainda está bem presente, porque suas letras são muito fortes e atuais. Ele e sua obra tinham uma verdade rara, e cada vez mais há uma carência de cantores e compositores assim”, justifica.
 
Filha do primeiro casamento de Gonzaguinha, assim como Daniel, com as irmãs Amora e Mariana e a madrasta Lelete administra a Moleque Editora, responsável pela obra do pai. “De três em três meses, o direito autoral nos paga. Gonzaga continua ralando pra caramba e sustenta a família inteira. (risos) Aliás, ele e meu sogro”, revela a viúva.

Emoção

Foi no escritório do marido mantido em sua casa – e praticamente o mesmo com os móveis construídos por ele, seus livros, vinis, troféus, discos de ouro, fotos, presentes dos fã e até seu diploma de economia – que ela e a única filha Mariana conversaram com a reportagem do Estado de Minas. Em determinados momentos, as duas se emocionaram bastante. “Gonzaga faz falta toda hora. Não há um só dia em que eu não pense nele”, desabafa Lelete. “As pessoas comentam que a saudade melhora ao longo do tempo, mas não é verdade. Só piora. Eu perdi a pessoa mais importante da minha vida.”
 
Para Mariana, Gonzaguinha era seu “pãe”, pois a mãe saía para trabalhar e ele, que ficava em casa compondo, era quem preparava seu café da manhã, a ajudava no dever de casa e a levava à escola de bicicleta. “Ele até me ensinou a ler e a escrever”, conta. “Por isso que quando a gente ouve suas músicas não tem jeito de não se emocionar, porque ali é ele falando. Tem canções que nem conseguimos escutar porque é muito forte. Ele esteve, está e sempre estará presente na vida da gente.”
 
Palavra de especialista 
 
RICARDO CRAVO ALBIN
PESQUISADOR

Dois reinos

"Os 70 anos de Gonzaguinha representam uma página de honra da música popular contemporânea, embora sua obra seja dos anos 1960, 1970 e 1980. Suas canções continuam cada vez mais vivas e cantadas por grandes intérpretes. Sem falar que vira e mexe estão na trilha de novelas e filmes. O artista seguiu essa via eterna da música de qualidade, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, com composições românticas aliadas a um repertório que dialoga com o pensamento. Não é uma música marcada pelo tempo, muito menos datada; ela é permanente e atual. O mais interessante é que ele respeitou o pai no sentido orgânico e seguiu outro caminho também de sucesso, o que é raro. Geralmente, pai e filho comungam de um mesmo viés estético, mas nesse caso os reinos dos dois Gonzagas são diversos e sedutores. E seus herdeiros cumprem esse legado musical. Infelizmente, Gonzaguinha morreu no auge de sua criatividade e acredito que se ainda estivesse aqui continuaria a ter um sucesso talvez até maior e a ser uma das lideranças mais efusivas da nossa música, como Gil, Caetano, Chico e Milton.”

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