Duda, Zaika e Aline: Novíssima geração de cantoras lança álbuns gratuitos e explica o porquê

Álbuns para download livre na internet atingem público mais amplo; retorno financeiro, porém, ainda esbarra no sistema em transição

por Bossuet Alvim 20/09/2015 07:30

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Flora Pimentel/Divulgação
''A escolha de não monetizar com a venda de CDs é também a escolha de não levantar empecilhos para o público'', afirma a gaúcha Duda Brack, que estreou com o aclamado disco 'É' (foto: Flora Pimentel/Divulgação)
Para ouvi-las basta querer: um ou dois cliques são suficientes. Com discos de estreia disponibilizados gratuitamente na internet, Duda Brack, Zaika dos Santos e Aline Lessa sinalizam mudanças estruturais no contato do artista com seu público. O cartão de visitas apresentado sem etiqueta de preço faz com que a música das cantoras chegue aos ouvidos à parte das etapas tradicionais de divulgação, mas também levanta o desafio de se fazer ouvir em meio a tanta oferta barulhenta no ambiente virtual.

 

"O que eu mais quero nesse momento é espalhar meu trabalho, alcançar pessoas que ainda não me conhecem e fazer o som ecoar por todos os cantos possíveis", afirma Duda. Aos 21 anos, a gaúcha de raízes fincadas no Rio de Janeiro liberou em abril o álbum É, um debute feroz que vai do indie rock à veia mais experimental da MPB.

 

Ouça na íntegra É, primeiro disco da Duda Brack:

Já aclamado pela crítica, o primeiro disco de Brack traz viagens sonoras de jovens compositores que se esbarraram na cena carioca, como o sueco Carlos Posada e o mineiro César Lacerda. Representante de uma geração contemporânea, que preza pela reinvenção, É jamais poderia ser embalado como produto de forte apelo comercial. Isso nunca foi problema para Duda: "A escolha de não monetizar com a venda de CDs é também a escolha de não levantar empecilhos para o público”, ela assume.

 

“Na atual conjuntura do mercado fonográfico, o retorno financeiro com a venda de discos é mínimo. Além disso, acredito que este retorno para artistas novos se dá, em geral, a médio ou longo prazo. Creio em uma construção sólida de carreira, ainda que mais demorada. Um tijolinho de cada vez”, define a artista.


Quando publicou o EP Desabafo, em 2013, Zaika dos Santos já era um nome consolidado da cena belo-horizontina. Na estrada e sobre os palcos há mais de cinco anos, ela usou o download gratuito como ferramenta para diversificar a própria audiência, expandindo o alcance para além dos fãs locais de hip hop e rap. “Há uma facilidade de acesso aos diferentes públicos que usam a rede, o que amplia o entendimento sobre propagação sonora e sobre a discussão de política cultural”, conta a mineira, defensora da democratização no acesso como forma de contornar a pirataria.

Prestes a lançar o primeiro álbum da carreira, Akofena, em novembro, Zaika pretende repetir a estratégia de colocar as faixas ao alcance de quem se interessar por elas, sem custo. “Isso aproxima a relação entre emissor e receptor, de forma mais direta e objetiva, ao mesmo tempo que dialoga com a evolução da cadeia produtiva e de circulação da música no mundo”, reflete.
Maxwel Vilela/Divulgação
Prestes a lançar o álbum 'Akofena', Zaika dos Santos pretende distribuí-lo gratuitamente, como fez com o EP 'Desabafo': ''Isso aproxima a relação entre emissor e receptor'' (foto: Maxwel Vilela/Divulgação)
Mas a nova “filha”, como ela trata o álbum, também ganhará versões físicas. “Até hoje sempre construí meus trabalhos pensando na publicação gratuita. Entretanto, com o decorrer do processo artístico, fui entendendo que existe público para todas as formas de propagação sonora e cada um demanda uma forma específica de veiculação da música”, detalha a cantora.

 

Assim Akofena virá ao mundo, além da versão livre para internautas, em CD e vinil. “Existem pessoas que preferem usar os seus discmans, micro system ou toca discos. E eu assumo que por mais que meu trabalho musical siga toda esta evolução tecnológica, também gosto dos formatos de transmissão de dados sonoros, por conta da qualidade dos arquivos musicais e porque é old school”, justifica.

 

Clipe de Mamauê inaugurou o EP Desabafo, de Zaika dos Santos:

 

Quanto custa
"É muito difícil vender CD hoje em dia, especialmente para quem está começando. Se eu conseguir ganhar vai ser com shows", admite Aline Lessa. Ex-vocalista da banda de rock Tipo Uísque, a carioca se dedicou a inspirações mais intimistas no primeiro disco solo, que leva seu nome, há cinco meses liberado na internet.

 

Para ela, a decisão de oferecer as canções gratuitamente "tem seus lados positivo e negativo", mas as vantagens prevalecem. "Os custos do álbum foram bem inferiores ao que é comum mas, mesmo se eu tivesse investido muito financeiramente, ainda teria colocado ele gratuito", ela garante. "O que mais importa é que quanto mais gente eu conseguir atingir, melhor.”

O caráter independente das produções também facilita a publicação gratuita de um disco. Aline se orgulha de quando a Tipo Uísque conseguiu vencer restrições da gravadora e lançar o EP Home (2012) de graça para os fãs, mas a tendência geral é que a indústria fonográfica crie empecilhos para essa forma de divulgação. Duda Brack optou por não se afiliar às grandes empresas musicais desde o início da carreira. “O lado bom de as fórmulas de se trabalhar música do século passado caírem por terra é que isso gera a possibilidade de cada artista encontrar o seu caminho único, pessoal e intransferível. No meu caso, acredito que só houve ganhos”, afirma a gaúcha.

 

Para baixar e ouvir (de graça)

 

Divulgação
(foto: Divulgação)
É, primeiro disco da gaúcha Duda Brack
www.dudabrack.com

 

 

Divulgação
(foto: Divulgação)
Desabafo, EP da mineira Zaika dos Santos
www.zaikadossantos.com.br

 


Divulgação
(foto: Divulgação)
Aline Lessa, estreia solo da ex-vocalista da Tipo Uísque
www.alinelessa.com

 

Ph Rocha/Divulgação
''É muito difícil vender CD hoje em dia, especialmente para quem está começando. Se eu conseguir ganhar vai ser com shows'', admite Aline Lessa, que deixou a Tipo Uísque e publicou disco solo (foto: Ph Rocha/Divulgação)
O custo da produção é fator relevante quando o produto é oferecido de graça mas, para quem estreia com canções sem preço, o risco é "a serventia da casa”, nas palavras de Brack. “Ser artista é equilibrar-se em um arame sobre o abismo. Diante disso, decidi não pautar as minhas escolhas levando em consideração estes critérios (financeiros). Foquei nas causas, e não nas consequências”, aponta a cantora.

 

Zaika dos Santos pondera que “o risco de perda financeira acontece quando a divulgação não atinge efetivamente o público alvo da proposta, ou quando o próprio artista não credita forças ao trabalho”. Mas admite: "O processo é bastante trabalhoso".

Longe das gravadoras, o ambiente mais colaborativo e menos hierárquico também influencia nos valores financeiros aplicados em um disco independente. “É um trabalho coletivo. Todo mundo que esteve envolvido na produção se engajou e topou fazer nas condições que eu podia oferecer”, exemplifica Duda Brack. Aline Lessa também contou com parcerias artísticas para reduzir custos. "Produzi tudo com o Elisio Freitas, no estúdio dele", ela conta, referindo-se ao guitarrista e parceiro, que também assinou a produção de Porquê da voz, álbum de César Lacerda.

O download gratuito já é popular a ponto de ser usado como estratégia da indústria tradicional, na oferta ocasional de algumas faixas como regalo aos clientes fiéis. Os serviços de streaming -- a transmissão on-line de músicas -- também entram na conta da mudança nas formas de consumir canções. O modelo ainda é instável, uma vez que se encontra em processo de transição.

 

E, para a classe artística, sobram tantas incertezas quanto para quem recebe as faixas na outra ponta da conexão. “Entrar no site do artista e poder baixar, sem dificuldade... esse acesso imediato à arte é uma coisa muito positiva. Mas há o lado importantíssimo do artista precisar lucrar. Até tentaram streaming e parece que não deu tão certo, tem artistas ganhando menos do que deviam. É preciso uma renovação pra que o download gratuito seja uma forma principal de divulgação, mas que o artista ainda consiga ganhar de alguma forma", pondera Aline Lessa.

 

Pressa é uma das faixas do álbum de Aline Lessa:


Quem escuta
Zaika dos Santos acompanha de perto o número de downloads do primeiro EP, Desabafo, acessível pelo site oficial da mineira. “Me atento ao retornos que recebo, isso é importante para mim e para todos os parceiros que depositam seu tempo de trabalho na proposta”, ela explica. Tanto as estatísticas de acesso das faixas gratuitas quanto as críticas sobre o trabalho influenciaram na criação de Akofena, o primeiro álbum da artista, que também chega à rede com acesso livre no mês que vem. “Em geral entendo que o retorno que tive do primeiro CD foi e continua sendo super positivo, o que motivou a continuidade da pesquisa sonora e a finalização da construção do segundo”, relata.

Desde antes das gravações, Duda Brack já pensava no primeiro álbum da carreira como um trabalho que seria oferecido de graça aos ouvintes. "Sempre quis ver minha música se espalhando feito água que, quando não se depara com barreiras, ocupa todos os espaços”, diz a cantora sobre É, que meses depois de ser lançado virtualmente ganhou versão física em CD. Duda conta que o fato de conceber o disco como acessível sem cobranças não alterou as decisões de produção. “Tudo que interferiu no processo foi de cunho artístico, emocional ou espiritual", ela garante.

Sem precisar das estruturas tradicionais para se firmar como uma das maiores revelações de 2015, Brack acredita que a música de livre acesso é um passo irreversível. “Se for para apostar numa tendência, meu pitaco é de que o streaming vai ganhar cada vez mais o mundo. Essa coisa de ‘guardar a vida numa nuvem’ é muito futurista. Acredito que vai tomar conta geral, para além dos canais de entretenimento, estendendo-se a outras áreas de consumo. E, se for pensar, já está tomando, né? Vide Netflix e coisas do tipo", conclui.



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