Região Central de BH brilhou ao receber principais atrações da Virada Cultural

Movimento de ocupação envolveu não só grupos e artistas de renome, mas também coletivos de origem popular

por Mariana Peixoto 15/09/2015 09:24

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ALEXANDRE GUSANCHE/EM/D.A PRESS
Integrantes do Gaymada, Duela BH e do Mundialito de Rolimã do Abacate: coletivos culturais uniram arte, política, diversão e ativismo (foto: ALEXANDRE GUSANCHE/EM/D.A PRESS)
Belo Horizonte virou palco. Em cena, artistas que quebram barreiras entre arte e política, diversão e ativismo, buscando pontes entre Centro e periferias. Nem só artistas como Sepultura, Molejo e Chitãozinho & Xororó encantaram o público. Os coletivos culturais inverteram o eixo de ocupação de Belo Horizonte. Nas 24 horas da Virada Cultural, a Savassi, que tradicionalmente é o espaço das festas populares, perdeu o posto para a região do Baixo Centro. Tudo isso graças à ação de artistas e também dos belo-horizontinos que entendem que a cidade vive quando os espaços públicos são ocupados, como já ocorre no Carnaval e em outras festas.

Lugares associados à violência, à falta de ordem e segurança ganharam luz. O circuito que envolve a Rua Sapucaí, Viaduto Santa Tereza, Avenida Assis Chateaubriand, Rua Arão Reis, Praça Rui Barbosa e Rua Guaicurus ferveu. O brilho foi dado por quem propõe uma forma lúdica e ao mesmo tempo política de ocupar a cidade. Na Guaicurus, entraram em cena os dançarinos do passinho, vindos de comunidades pobres da cidade. O Duela BH foi capitaneado pelo historiador Guto Borges e Kdu dos Anjos. O trânsito da Avenida Assis Chateaubriand deu lugar aos carrinhos de rolimã, no evento promovido pelo Mundialito de Rolimã do Abacate. No Parque Municipal Américo Renné Giannetti, o protagonismo foi das travestis que disputaram a Gaymada.

O Viaduto Santa Tereza foi fechado para o trânsito de carros tanto embaixo como em cima. A experiência aponta para um desejo dos coletivos de que o espaço possa se transformar, nos finais de semana, em um corredor cultural. Guto comemora a ocupação desses espaços e a maneira como os belo-horizontinos se apropriaram de maneira irreverente da cidade.

O coletivo Toda Deseo levou para a rua a experiência teatral de seus integrantes para recuperar a queimada, jogo disputado nas escolas, mas que, muitas vezes, é depreciado por ser associado ao feminino. Jogar queimada é coisa de menina ou de menino afeminado. Para tensionar o esterótipo, o coletivo trouxe travestis para o centro da brincadeira. “Desde o início, o nosso mote é falar das trans. É uma ode a essa figura, uma forma de dar visibilidade a ela e levá-la para um lugar poético”, diz o ator David Maurity, integrante do coletivo e um dos idealizadores da Gaymada.

Ao atrair centenas de pessoas ao parque no último domingo, a brincadeira mostra de forma leve a reivindicação das travestis por transitar livremente pela cidade sem virar alvo de agressão. “O Brasil ocupa o primeiro lugar no mundo em mortes de travestis e transexuais. Num país em que há uma forte cultura aos corpos, elas são mortas por serem diferentes. A visibilidade é uma forma de festejar esses corpos e de alguma forma impedir as mortes”, pontua David. O ator Rafael Lucas Bacelar, de 28 anos, lembra que o coletivo e a própria Gaymada nascem do desejo de ocupar os espaços públicos na cidade, quando houve por parte do poder público a intenção de limitar essa ocupação. Na Virada, disputaram oito equipes da competição, que foi vencida pela Hoje Acordei Perfeita (HAP).

ABACATEIRO O abacateiro plantado no terreno da casa de Diego Nascimento Dantas, de 29 anos, no Salgado Filho deu nome ao Mundialito de Rolimã Abacate, uma competição que ocupou os espaços públicos da cidade de maneira irreverente. A ideia nasceu por acaso, quando Diego se mudou para o bairro. “Ouvi um barulho que eu reconhecia. Quando vi era um gordinho de 9 anos que descia sozinho uma rua em horário de pico, rasgando a cidade com aquele brinquedo”, lembra o publicitário Diego, um dos três idealizadores do Quilombo Abacate. O coletivo nasceu a partir do desejo de três jovens negros que saíram da casa dos pais para morar sozinhos. Mais do que ter uma casa para administrar, eles resolveram criar um centro cultural.

Naquele momento, Diego teve um clique: realizaria um campeonato de rolimã no bairro para se integrar à vizinhança. O primeiro campeonato foi realizado em 2012. Inicialmente, ele acreditava que o evento  interessaria ao seu grupo de amigos, mas, surpreendentemente, despertou o interesse de gente de todas as idades e partes da cidade. No primeiro Mundialito, houve uma oficina de construção de rolimã como forma de fomentar o interesse. Já na primeira edição foram 60 carrinhos. Na última, chegou a 85. O evento é feito por vários coletivos, como a Associação Cultural Casinha, Vinyl Land Records, Fósforo Arquitetura, Híbrido Comunicação e Cultura, Yuri Pinto e Arteliê.

PASSINHO Três milhões de visualizações. É um número mais do que expressivo para um vídeo de 20 minutos que apresenta cinco garotos executando uma dança  esquisita. O registro mostra a estreia do Duela BH – Batalha do Passinho na Virada Cultural de 2014, no Sesc Palladium. Grosso modo, é como um Duelo de MCs, só que de dança. A plateia elege o melhor.

O tal vídeo mostra o registro do chamado Passinho do Romano (criado em São Paulo), um dos três tipos de passos do funk – os outros são Montagem, com ênfase no traseiro, e o Passinho Foda, este criado no Rio de Janeiro, que mistura acrobacias, circo, frevo. Resumindo: não é para qualquer um.

Depois dessa estreia, que levou jovens da periferia para se apresentar no Centro de BH, o Duela repetiu a dose na noite de sábado na Rua Guaicurus. Trinta meninas e meninos, de várias regiões da cidade, se inscreveram na internet para participar da batalha. No palco, além deles, um apresentador (o historiador Guto Borges, também integrante da banda Dead Lover’s Twisted Heart) e três jurados.

“Se não for para boate rica, o funk quase não sai da comunidade. Tem gente que ainda discute se funk é ou não cultura”, comenta o gestor Kdu dos Anjos, 25 anos, que administra um espaço cultural na Vila Nova São Lucas, comunidade mais conhecida como Favelinha.

Um dos jurados do Duela, Kdu chama a atenção para a importância de levar os adolescentes para a área central da cidade, onde foram vistos por um público diferente. “A experiência foi incrível, pois tinha muita gente que não é da cultura do funk, que nem sabia que aquilo existia.” Guto Borges, criador do Duela, afirma que o cenário do funk em BH ainda é muito difuso. “Cada estilo tem seu próprio rudimento”, diz.

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