Dani Black apresenta seu novo disco em show na capital

Álbum 'Dilúvio' está disponível na internet. Disco traz dueto com Milton Nascimento e ecoa Sérgio Sampaio nas letras

por Kiko Ferreira 03/09/2015 09:09

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PAULO BUENO/DIVULGAÇÃO
Dani Black diz que seus pais, a cantora Tetê Espíndola e o compositor Arnaldo Black, sempre o 'encheram de asas' (foto: PAULO BUENO/DIVULGAÇÃO)
Cantor, compositor e violonista, o paulista Dani Black apresenta hoje em BH o show de lançamento de seu segundo disco de estúdio, 'Dilúvio'. Ele canta e toca guitarra acompanhado por Zé Godoy nos teclados e Sandro Moreno na bateria. Filho da cantora Tetê Espíndola e do compositor Arnaldo Black, exerce sua versatilidade em parcerias com veteranos como Zélia Duncan e Chico César, ofereceu composições para Ney Matogrosso, Elba Ramalho e Maria Gadu e começou a ganhar prestígio por sua participação no grupo 5 a Seco.


Dani estreou carreira solo com o elogiado álbum que levava seu nome, lançado em 2011, e continuou disponibilizando na rede, em 2013, o EP SP, com seis canções gravadas ao vivo e duas inéditas. O disco novo também pode ser baixado gratuitamente, no site do cantor.

A diversidade de ritmos, timbres e levadas do trabalho do compositor guarda semelhanças com trabalhos como os de Zeca Baleiro e Chico César, com quem excursionou pelo país e pelo exterior entre 2012 e 2014. Em 'Dilúvio', ganhou a adesão de Milton Nascimento, que assume uma rara porção cheia de suingue dividindo com Dani a última faixa, 'Maior', num dueto que chega a lembrar o encontro de Bituca e Gilberto Gil, de 2001.

Aos 27 anos, o cantautor ostenta segurança de veterano ao desenhar a trajetória sonora das 11 faixas com personalidade. Já na abertura, Areia, que começa com orquestra de cordas e sopros e corre para o funk quase jazzístico, Dani abre a guarda e oferece a intenção de se desmanchar e ser só areia nas mãos de quem lhe oferece perfume e frisson na pele.

LIBIDO Na faixa-título, não diminui a libido, ao desejar “morrer num beijo puro/ de línguas e sais” e promover diálogo mais orgânico entre orquestra e instrumentos elétricos e eletrônicos, com interessantes mudanças de andamento. Amor e ódio conduzem 'Linha tênue', que poderia estar num disco de rock brasileiro dos anos 80, assim como o misto de rock e reggae de 'Fora de mim' e Seu gosto, influenciada por Chico César e já testada em shows.

O clima só fica mais calmo e delicado na sexta faixa, 'Bem mais', balada que mescla cordas, piano e sanfona e prega um lugar de paraíso, meio um horizonte perdido que “esconde o que o sonho encontrar”. Com imagens como “silêncio e lágrima/ incrustados num mundo de solidão” e “é só sorriso mas não consegue chorar”, 'Só sorriso' oferece tristeza e melancolia com tempero de drama. Com um “coração arregaçado no chão” e sangramentos, choros e corpo em pedaços, 'Não não não' é outro exercício de drama, também já conhecido de suas plateias mais fiéis.

Com letra que chega a lembrar Sérgio Sampaio (fui ver diária no hospício/ o preço estava anormal), Ganhar dinheiro inverte a pegada romântica/passional, fala de sobrevivência e fecha com um bom gancho; “se se alastrar meu incêndio/ não tem ninguém pra apagar”. Defendida só em voz e guitarra, a estranha 'Ú' expõe o compositor à simplicidade e deixa clara sua habilidade de criar climas com poucos elementos. Para fechar, 'Maior' abre com a constatação “eu sou maior do que era antes” e trata de mistérios e silêncios numa pegada que atrairia Gil por gravidade e que encerra o disco deixando uma sensação de que o tempo anda fazendo bem ao compositor.


DILÚVIO

Show de Dani Black. Nesta quinta, às 21h. No Teatro Bradesco (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes). Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia), à venda na bilheteria do teatro e pela internet. Informações: (31) 3516-1360.

Confira na íntegra a entrevista com Dani Black

 

Antes de tudo, gostaria que você contasse como foi fazer o Milton Nascimento cantar como Gilberto Gil em 'Maior'. Como foi o encontro com ele, a gravação, a escolha da música. E sua relação musical com o Clube da Esquina (influências ? amizades? parcerias?)

O meu encontro com Milton aconteceu há uns dois anos atrás. Eu já enlouquecido por ele, e ele se encantando pelas minhas canções. A partir desse primeiro encontro começamos a construir uma amizade. Ia visita-lo em sua casa quando passava pelo Rio.


Quando descobri como terminaria o disco, que seria com a canção “Maior”, falando sobre a evolução do homem e finalizando dizendo “Somente o tempo vai me revelar quem sou”, naturalmente começou a me vir a voz do Bituca cantando a canção a capela. Sempre que a ouvia me vinha a voz dele. Não hesitei e resolvi convida-lo.


Ele aceitou carinhosamente. Me convidou pra passar alguns dias na sua casa pra que pudéssemos ensaiar e passar tempo juntos. Acabei ficando uma semana. Ensaiávamos cada dia um pouco e conversávamos muito sobre tudo. Ao fim dessa semana entramos em estúdio e o resultado a que vc se refere é de uma gravação de 20 minutos que fizemos como se estivéssemos na sala de casa. Tudo muito espontâneo. Uma experiência que vou guardar pra sempre.

 

 

Um dos diferenciais nítidos de seu trabalho é um diálogo de forma e consistência com a tradição da chamada MPB, nítida em trabalhos de Zélia Duncan, Zeca Baleiro e Chico César, que ouviram muito rádio, no tempo em que o rádio era plural e de melhor qualidade do que hoje. Como foi sua formação? E informação? De onde você tirou suas referências? E sua relação com Chico César?

Sim. Sou compositor antes de tudo. Amo cantar e tocar minha guitarra tanto quanto compor as canções. Acontece que a composição acontece primeiro. É o motor pra todo o meu trabalho. É ela que me leva a cantar e tocar. Que me leva pro palco. Minha formação acaba vindo da escola de misturar minha música com esse lado pensador. Com as questões e anseios da vida. Acho que esse é o ponto de encontro entre os artistas dessa chamada MPB. Uma relação profunda com a canção.


Minha relação com Chico é uma delícia. Costumamos rir e dizer que ele foi meu babysitter de luxo. Quando meus pais saiam pra namorar, e dar um tempo das crianças, Chico ficava em casa cuidando de mim e da minha irmã. Já imaginou a bagunça? A distração que ele encontrou foi ficar tocando pra gente. Isso faz muito parte da minha formação. Os artistas maravilhosos que sempre passaram lá em casa e tocavam pra a gente ver. O mais frequente foi o Chico.


Quais pontos positivos e negativos de ser filho de um compositor respeitado e de uma mãe que tem uma das vozes mais originais do mundo? Como foi e como é sua convivência?

Como você falou é ser filho de uma das vozes mais originais do mundo. Ser filho de uma das maiores artistas que já vi. Só há pontos positivos nessa historia rs. Costumam me perguntar se sinto o peso da responsabilidade de ser filho da Tetê. Mas não rola isso entre nós. É uma relação muito leve.


Meus pais sempre ajudaram muito com as questões musicais. Sempre me encheram de asas. Quando acabava a luz lá em casa, por exemplo, a brincadeira era compor. Meu pai tocava a mão esquerda e eu a direita do violão e cantava o que vinha a mente. Minha mãe fazia o coro, e respondia com sua craviola. Eu tinha 7 anos. Crescer nesse ambiente foi decisivo pra me apaixonar por fazer música.


Você já disse que o que te toca vai para sua música. O que há de pessoal nas suas letras?

Minha composição é extremamente pessoal. Canto sobre o que vivo e sobre o que vejo.


Nem sempre o que canto foi algo que vivi, mas quando não é, é algo que vi. Que percebi em algo ou em alguém. Costumo dizer que estou sempre a disposição das fagulhas.



Quais as diferenças entre seu trabalho solo e do 5 a Seco?

O 5 a seco é um coletivo de compositores. Acho que desde que eu fazia parte, no comecinho do 5, a sonoridade já era o produto entre a música de todos os integrantes. E isso é maravilhoso, é único. Você percebe como suas idéias reagem ao encontrar a do seu parceiro.


No som que fazemos sozinhos, acho que encontramos o máximo da potência e da expressão das nossas idéias. Sem essa contaminação deliciosa que o grupo propõe. É outra onda, mas igualmente profundo.


“Eu quero é morrer num beijo puro de línguas e sais” e “é preciso ter na pele o frisson/ e um perfume que perfura até impregnar em minhas veias/ pra então me desmanchar”. Versos apaixonados. Você é romântico?
 
Sem dúvida tenho um olhar romântico para com as coisas. No amor não é diferente. Gosto de me encantar. Procurar o brilho das pessoas. Encontrar o sublime. Quem faz isso acaba vivendo muitas dores, mas encontra delícias que só existem para os românticos.


A verdade é que tenho um olhar poético natural. Mas não sou aéreo, ou “viajandão” como essas afirmações podem levar a pensar. Sou pé no chão. Estou atento ao mundo real. Esse é o que mais me interessa e me fascina. É achar o encantamento nesse mundo o grande desafio.


Qual é sua turma? Com quem você se identifica no atual cenário da música brasileira e internacional? Com que você gostaria de subir no palco?

Você citou meus amigos do 5 a seco. Sem dúvida fazem parte da turma que gosto de estar perto. Maria Gadu, Duda Brack, Filipe Catto, Paulo Monarco, Bruno Giorgi, são alguns dos outros amigos que estão sempre trocando comigo.


Lá fora tenho ouvido uma cantora chamada Becca Stevens, que tem canções extraordinárias. Quem sabe um dia não cantamos juntos num palco mundo afora. Seria bem interessante e eu amaria.
 

Dani Black comenta novo disco faixa a faixa

 

'Areia' é a canção que abre o disco. Foi arranjada pensando nisso. Com uma intro de orquestra e uma pegada POP e pesada na seqüência. É o convite para a sonoridade de “Dilúvio”.

'Dilúvio' é a música que dá nome ao disco. Amo o arranjo de cordas de Conrado Goys para ela. E a mistura entre essa instrumentação lírica e o universo POP com bateria, baixo e de programações eletrônicas.

'Linha tênue' é a canção que já havia sido gravada do disco. No caso foi Maria Gadu quem a levou ao mundo primeiro. O desafio era faze-la soar diferente e com bastante assinatura da minha guitarra. Resultou numa versão mais furiosa e com a contribuição de Renato Neto, tecladista por uma década do músico Prince.

'Fora de mim' tem um contraste interessante. Ela é uma das canções mais alegres e solares do disco. Mas termina melancólica e com uma pergunta no ar. Adoro esse passeio que ela convida o ouvinte a fazer.

'Seu gosto' é pura sensualidade. A procura pelo groove perfeito. Também procuramos destacar minhas guitarras, que navegam soltas pela música. Esse foi o grande desafio. Achar esse groove com simplicidade.

'Bem mais' é a balada do disco. Uma música que me emociona demais, e que propõe outro assunto, para além do amor. Fala sobre a insatisfação humana e como isso é um motor pra história.

'Só sorriso' acho que é uma das grandes canções que já fiz. Sinto como um hino. E foi para um lado mais acústico no arranjo.

'Não não não' é a mistura da melancolia com o humor. Uma das minha preferidas do disco. Adoro o texto e a sonoridade dos pianos de Zé Godoy.

'Ganhar dinheiro'
é uma das mais comemoradas nas redes sociais. Acontece que é um assunto muito do nosso tempo. Quem não precisa ganhar dinheiro? E acho que a maioria das pessoas não quer enriquecer, só que querem ter que parar de se preocupar com o dito cujo.

'Ú' é o momento solo do disco. A música que separei pra me expressar apenas com minha guitarra. A escola voz e guitarra faz muito parte da minha formação e amo tocar assim. É pura fluência e liberdade.

'Maior' é o encontro com Milton Nascimento. É sobre evoluir. É sobre cantar junto. É o encerramento de Dilúvio. É entregar o futuro nas mãos do tempo.
 

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