Orquestra Filarmônica de Minas Gerais fala todas as línguas

Grupo tem instrumentistas de 18 nacionalidades, além de três naturalizados, contribuindo para a diversidade e o intercâmbio de experiências

por Mariana Peixoto 23/08/2015 09:41

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Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
A sul-coreana Hyu-Kyung Jung, o chileno Pablo Guinez, o inglês Mark John Mulley e a sérvia Radmila Bocev adotaram Belo Horizonte e já se dizem adaptados à cidade (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press )

No início de 2008, Radmila Bocev chegou a Belo Horizonte. Não falava português e tampouco havia imaginado ir tão longe. Porém, não estava sozinha, mas com um grupo de 10 pessoas. Todos violinistas e sérvios como ela. A carreira na Europa, perto de casa, havia ficado para trás.

Passados mais de sete anos da chegada, com um português correto a despeito do forte sotaque, Radmila, de 38 anos, pensa em se naturalizar. Tem uma forte razão para isto: o bebê César, de um ano e um mês, nascido em BH, de pai brasileiro. É o mais novo mascote da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Quando o grupo viaja para algum concerto, César vai junto. Radmila não estava sozinha quando chegou para integrar a formação inicial da Filarmônica. E ainda que alguns colegas daquele primeiro ano tenham deixando a orquestra, muitos outros chegaram nesse período.

Atualmente, a maior formação orquestral do estado conta com 28 estrangeiros – há ainda três que se naturalizaram. Além do grupo sérvio – seis ao todo, sendo cinco violinistas – há norte-americanos (também em grupo de seis), britânicos, armênios, japoneses, sul-coreanos, filipinos, chilenos. Contando a brasileira, são 18 nacionalidades, algo comum para uma orquestra jovem de um país igualmente jovem.

“Atualmente, as orquestras mundiais tem várias nacionalidades. Oitenta anos atrás, uma orquestra na Inglaterra só teria ingleses. Agora, é tudo misturado”, afirma o inglês Mark John Mulley, de 47 anos, principal trombonista da Filarmônica, também integrante da formação original.

Mulley fala com a experiência de quem veio para BH diretamente do Oriente Médio. Durante oito anos integrou a Royal Symphony Orchestra no Sultanato de Omã. Em férias no Brasil (é casado com uma gaúcha), ficou sabendo de uma audição para músicos que integrariam a então nascente Filarmônica. Não pensou duas vezes em vir a BH para a prova. “Quando recebi a mensagem dizendo que tinha passado, aí tive que pensar, pois iria me mudar para o outro lado do mundo.”

Passados quase oito anos, não se arrepende de maneira alguma. Naturalizado brasileiro há dois anos – é pai de Angelina, que chegou a BH com poucos meses – assiste de perto às mudanças da orquestra que integra. “No começo foi meio complicado, porque não tinha um grupo que tivesse tocado junto antes. Ela (a Filarmônica) precisava de um tempo para crescer. Agora, pelo menos 40 músicos são da primeira formação”, comenta ele.

Com o trabalho intenso na Filarmônica – “nos primeiros sete anos, éramos três trombonistas, agora somos quatro, então tenho mais espaço” – ele teve que deixar de lado sua porção de músico popular. Toca bossa nova e samba. Mas só na Inglaterra e em Omã. Aqui mesmo, está meio “aposentado”.

UM CASO DE AMOR COM BH

 

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
O chileno Pablo Guinez toca contrabaixo e se casou com uma brasileira (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press )
Não são poucos os casais na Filarmônica. Um dos mais jovens no grupo é o formado pelo contrabaixista chileno Pablo Guiñez e a violista juiz-forana Flávia Motta. Chegaram em 2013. Haviam se conhecido na Alemanha. “Para estudar, o melhor lugar que existe é Berlim, pois o movimento musical é grande, tem a Filarmônica. Mas para morar, aqui é mais familiar”, diz Pablo, de 33 anos, que teve a segunda filha em BH.

Ele conta que no primeiro ano os estrangeiros se comunicam em inglês – a exceção dos latinos, é claro. As diferenças de nacionalidades pouco influenciam na maneira de executar uma música. O que importa é a técnica do instrumentista. Para o naipe de contrabaixo, só existem duas: a francesa e a alemã, que é a que Pablo pratica. A diferença está na maneira de pegar o instrumento.

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
A sul-coreana Hyu-Kyung é casada como violoncelista Eduardo Swerts (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press )
Pablo não teve dificuldade alguma em se adaptar a BH – antes havia vivido no Rio e em Curitiba. Já para a violinista sul-coreana Hyu-Kyung Jung, de 33 anos, o impacto foi enorme. Nunca tinha ouvido falar na capital mineira antes de se casar com o violoncelista belo-horizontino Eduardo Swerts, que conheceu na Alemanha, onde ambos estudaram.

Admite que antes de pegar o avião para participar da audição para a orquestra – está no grupo desde 2012 – foi para o Wikipedia se informar melhor sobre a cidade. Para o marido não perder o alemão, os dois só conversam na língua germânica. O português, Hyn-Kyung aprendeu vivendo na cidade – só teve um mês de aula particular.

“Quando cheguei, fiquei muto surpresa, não esperava uma cidade tão grande. Mas, ao mesmo tempo, tem um charme aconchegante. Aqui, as pessoas são muito calorosas. É tão bonitinho quando uma senhora para só para bater papo comigo. Em Seul, a gente fica muito anônima.”

E o Brasil, nesses três anos, não para de surpreender a instrumentista. “Não conheço muito a música brasileira clássica. (Radamés) Gnatalli, Ronaldo Miranda, que são compositores que estamos tocando. Mas ainda não tive a sorte de estudar as partituras. Acho interessante escutar a música brasileira, ver como criaram o som imitando a Amazônia. Nunca escutei isso na vida. Nos ensaios, eu me assusto, acho que entrou um bicho na sala”, finaliza.

Três perguntas para...
Fabio Mechetti

Diretor artístico e regente titular da filarmônica

Há algum aspecto que caracteriza os instrumentistas europeus, norte-americanos, latinos, asiáticos?
O que distingue um músico do outro é mais uma questão de preparo do que de ascendência. É verdade que, por motivos principalmente de formação acadêmica, os estrangeiros têm maiores oportunidades de estudo, de formação e de treinamento do que os brasileiros que cresceram, estudaram e trabalharam apenas no Brasil. O que notamos é que a maioria dos brasileiros que passaram em audição da Filarmônica tiveram, em algum momento, experiência no exterior, seja em cursos de graduação ou mesmo festivais ou masterclasses.

Entre os violinistas da Filarmônica há, por exemplo, um número representativo de sérvios. Há países “especializados” em um instrumento?
Existe uma tradicional “escola” de músicos de cordas que vem desses países do leste europeu. Rodeados pela forte tradição musical russa, de um lado, e germânica, de outro, os músicos sérvios, húngaros, tchecos, eslavos, em geral, se caracterizam por uma predominante tendência a se dedicarem aos instrumentos de cordas. Isso não impede, logicamente, que outros países, inclusive o Brasil, tenham produzido músicos de cordas de grande qualidade.

Atualmente, é necessário que um músico erudito brasileiro vá para o exterior para se aprimorar?
Queiramos ou não, o mundo de hoje é o globo, e a troca de informações possível é milhares de vezes mais ampla do que décadas atrás. Se nos limitarmos apenas àquilo que nos é oferecido dentro do Brasil, perderemos terreno consistentemente em relação a outros países. Especificamente no campo da música, existe uma necessidade muito grande ainda, por parte dos nossos músicos que pretendem seguir uma carreira profissional, de buscarem experiências e ensinamentos aprofundados no exterior. Não que não existam, no Brasil, escolas e professores de qualidade, mas é inegável que os países com sólida tradição musical e educacional podem oferecer um aperfeiçoamento técnico e artístico que permitirá ao músico formado aqui, nos conservatórios e universidades, responder às exigências profissionais das melhores orquestras.

 

 

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