Depois de dez anos sem gravar, Fafá de Belém lança seu 31º disco

Cantora diz que álbum foi feito "pensando na mulher que gosta de dançar, usar cabelão, batom vermelho" e reafirma sua filiação à breguice musical

por Kiko Ferreira 15/08/2015 11:00

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Luiz Ackermann/Agência O Globo
(foto: Luiz Ackermann/Agência O Globo)
Fafá de Belém fala muito. E bem. O famoso riso, fácil e generoso, combina com a facilidade de defender teses e ideias. Durante mais de meia hora, ela falou ao telefone com o Estado de Minas sobre o país, sua visão múltipla da música e sobre seus projetos. Execrada pela crítica quando, em 1982, gravou com a dupla Chitãozinho e Xororó, ainda guarda mágoa. “Me jogaram na parede”, reclama. “Cinco anos depois, Caetano gravou Fernando Mendes, que é brega, mas genial, e ninguém falou nada. Tinham preconceito contra mim, menina nova, vinda de Belém, sem pertencer a nenhum grupinho de elite.”
Meio fora do circuito das rádios há uma década, reclama do jabá, dos diretores de gravadora que não gostam de música, mas só de dinheiro, e aponta a internet como ponto de contato da meninada com a diversidade. “Na avenida Paulista há três escritórios que gravam entrevistas com os artistas que vão tocar em 50 rádios pelo país. Outro dia, um diretor de gravadora queria que eu fizesse um disco produzido por um DJ no interior paulista, o que garantiria execução nas rádios. Não aceitei. Não gravo nada por gravar.”

Ela diz que “o rádio virou um outdoor. Só pensa no patrocinador, no faturamento”. E afirma: “Faço o quero, porque na minha vida não cabe o que me violenta”. A seguir, a entrevista.

Você trouxe, no início de carreira, uma música paraense sofisticada, ligada ao que se costuma chamar de MPB. Hoje, a música que se vende do Pará é o tecnobrega. Como anda a cena por lá? Os dois grupos convivem?
Belém, historicamente, é uma cidade musicalmente muito rica. Com três orquestras sinfônicas, escola de música... Carlos Gomes morou e morreu lá. A cidade sempre recebeu grandes óperas. Nos anos 1940, com a base militar americana, vieram o jazz, as big bands. E há a influência do Caribe, da música portuguesa. Tem um clube de choro atuante. Minha escola de samba de lá já foi a terceira do país. Mas houve uma decadência. Nos anos de chumbo, havia um interventor acriano que não sabia nada da cidade. Houve uma desarticulação.

E sua relação com o pessoal mais novo, o tecnobrega ?
Tive formação plural. Ouvia de tudo. Fui para o Rio com 13 anos. Minha casa tinha muitos músicos, Milton Nascimento, Wagner Tiso. Não tenho pose de diva. Não tenho paciência para firulas. O tecnobrega é mais recente. Não conheço muito bem. Conheço os sonoros de rua, em que as pessoas levavam seus LPs com suas aparelhagens e faziam as festas de rua. É música de periferia, não toca no Teatro da Paz, que é o Palácio das Artes de lá. Gosto desse universo brega, do pica-pau, da influência caribenha. Daí vem o Manoel Cordeiro, que está no meu disco, que vem da guitarrada. Uma forma de tocar que tem nosso sotaque.

Ivan Lins fez um disco recente com praticamente um músico. Você gravou com dois. Acabou a era dos grandes discos de estúdio?
Este disco nasceu quando eu procurei o DJ Zé Pedro. Queria fazer um disco de remixes, para comemorar meus quarenta anos de carreira. Ele foi contra. Queria algo inédito. Há dois anos estava com a ideia deste disco, depois que ouvi a música Meu coração é brega. Fizemos o disco em três dias. Eu tinha umas 60 músicas na cabeça. Queria fazer um disco solar, popular, pensando na mulher que gosta de dançar, usar cabelão, batom vermelho. O projeto é meu, investimento pessoal. Se tivesse uma orquestra de vinte músicos, seria difícil fazer shows, viajar, num país em crise, em que é difícil conseguir patrocínio. Quando comecei, rodei o país de ônibus. Hoje os custos mudaram, a realidade é outra. A forma de fazer música é cíclica. Eu estava há dez anos sem entrar em estúdio. Nesse tempo, fiz show com músicas do Chico Buarque; cantei Antônio Maria aí, no Palladium; gravei DVD com orquestra, fiz disco com música do Pará antes do terroir; fiz show acústico com os clássicos da carreira. Não fiquei parada. Agora, lanço o disco pelo país. Devo ir aí, talvez no Palácio das Artes, onde não canto há muito tempo.

Você foi musa das Diretas Já e pessoa importante no processo de redemocratização. Como vê o país hoje?
Vivemos uma crise de autoridade. Crise política, econômica, institucional, mas, principalmente, de autoridade. Há uma cadeira vazia. Várias cadeiras vazias. Um sistema presidencialista parlamentarista, com acordos e embates com interesses pessoais. Precisamos de um choque de ordem. Um restaurante em Belém do Pará cobra o mesmo que um restaurante em Paris. Com situações salariais e econômicas completamente diferentes. O país tem que voltar a se entender. Estar na rua é saudável, mas há alguns equívocos. Ontem fui agredida na rua por não estar nas manifestações. Disse a quem me agrediu para sair do cueiro e vestir cuecas, saber um pouco mais das coisas. Há um vazio de quadros muito grande, de lideranças. Mas acredito no país. Já vivi inflação de 80%, muita coisa. O país é maior que tudo. Estávamos numa bolha de ilusão. Agora, estamos sangrando, mas daqui a pouco cresce uma pele nova, vamos ter um país novo.



Exagerada!

A paraense Fafá de Belém lança o 31º disco de uma carreira que completa quatro décadas. Depois de dez anos sem gravar, sai do foco de projetos recentes, dedicados a shows acústicos, hits de carreira e a repertórios de Chico Buarque e Antônio Maria, e investe na sonoridade da música popularíssima paraense. Produzido por Felipe e Manoel Cordeiro, pai e filho, 'Do tamanho certo para meu sorriso' traz dez faixas inéditas, com direção do DJ Zé Pedro e concepção de capa de Paulo Borges, da São Paulo Fashion Week.

Predomina o tom de arrebatamento, com Fafá assumindo um estilo exagerado, jogado aos pés do ouvinte. Abre com 'Asfalto amarelo', parceria da família Cordeiro com Zeca Baleiro, com jeito de trilha de casas de moças de fino trato (“usei você/ usei seu corpo”), emendada com 'Volta' (Jonny Hooker), drama sem nada de Lupicínio, mais para Reginaldo Rossi e Waldick Soriano. O merengue 'Ao pôr do sol' (Firmo Cardoso e Dino Souza), clássico da música popular produzida em Belém, antecede o bolero 'Usei você' (Sílvio Cesar), gravado pela primeira vez por Ângela Maria.

Um tema típico da cult Dona Onete ('Pedra sem valor') e uma lambada guitarrada, 'Vem que é bom' (Manoel Cordeiro e Ronery) antecipam a breguice explícita de 'Meu coração é brega' (Veloso Dias), que deu origem ao projeto, 'Quem não te quer sou eu' (Firmo Cardoso e Nivaldo Fiúza) e 'Os passa vida' (Osmar Junior e Rabolde Campos). Fechando a tampa do balaio, ela recupera, em ritmo de lambada, 'Gosto da vida', um tema feito pelo cult Péricles Cavalcanti para seu álbum 'Essencial', de 1982. Ao final, a sensação de uma Fafá à vontade, em casa, tentando provar a tese de que o brasileiro é, no fundo, brega e sentimental.

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