Dona Ivone Lara ganha edição especial de sua obra como compositora em CD, DVD e livro

Projeto já editou caixas de Zeca Pagodinho, Martinho da Vila e João Nogueira

por Walter Sebastião 15/08/2015 11:00

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GUTO COSTA/DIVULGAÇÃO
(foto: GUTO COSTA/DIVULGAÇÃO)
Demorou, mas surgiu um projeto que dá aos grandes compositores de samba o tratamento que eles merecem: o Samba Book (Musickeria). Prevê caixa com dois discos, reunindo intérpretes novos e veteranos, de diferentes tendências artísticas, apresentando sucessos e composições de um autor de importância histórica. A caixa inclui ainda um DVD, um fichário com partitura de 60 músicas (valorizando a primeira gravação), um livro com a discografia e um pouco da história do artista.

O lançamento mais recente da série é um belo trabalho dedicado à carioca Dona Ivone Lara, de 94 anos. Já haviam sido lançadas as caixas dedicadas a Zeca Pagodinho, Martinho da Vila e João Nogueira. O próximo nome será Jorge Aragão.

Afonso Carvalho, de 43 anos, criador do Samba Book, conta que o trabalho nasceu sob as assas de Diogo Nogueira, filho de João Nogueira (1941-2000), que queria fazer uma homenagem ao pai. Conversando sobre o tema, Diogo Nogueira e Afonso Carvalho (que é seu empresário do cantor e também de Beth Carvalho) concluíram que não existia nada, “inclusive no que refere a prêmios”, pontua o produtor, que fizesse uma homenagem à altura da contribuição dada à música popular brasileira por compositores de samba.

A ambição do Samba Book, diz o empresário, é ser “um trabalho com ênfase no cultural, que tem aspectos educacionais, já que a caixa é distribuída para bibliotecas e escolas de comunidades carentes que possuem cursos de música”. Com esse perfil, na avaliação dele, a série de caixas “quebra o descaso da indústria em relação a projetos de perfil mais amplo do que apenas vender música”.

Ele observa que “Dona Ivone Lara é uma das melhores melodistas do Brasil. Ela tem obras-primas”, e acrescenta que “a lista de grandes compositores é quase infinita: Arlindo Cruz, Monarco, Almir Guineto, Sombrinha, Paulinho da Viola, Cartola, João Nogueira e muitos outros”.

ESPINHA DORSAL

Uma definição do Samba Book é privilegiar compositores vivos. Para explicá-la, Carvalho cita verso de Nelson Cavaquinho: “Que me deem flores em vida” e argumenta não se tratar “de protecionismo, mas de merecimento. Se olharmos para o cancioneiro brasileiro, desde o século passado até agora, vamos descobrir que o samba é a espinha dorsal dele. Através do samba se pode ter um panorama completo da MPB. Há, no samba, riqueza de poesia e melodia que é difícil encontrar em outros gêneros.”

A negligência com os sambistas, “inclusive com os que sustentaram gravadoras”, na opinião do empresário, tem diversos motivos e responde a uma longa história de marginalização do gênero, que levou vários autores a situações dramáticas. “Tirando menções a Noel Rosa e Dorival Caymmi, o samba só passou a ser mais exposto na mídia a partir dos anos 1970, mas sem ser considerado movimento com importância para toda a música.” Ele aponta também a existência de preconceito contra criações que trazem crônica da vida popular, das comunidades carentes e dos morros. E desinteresse da indústria por ações de resgate, o que leva à carência de material digitalizado posto à disposição do público. “O resultado são artistas brasileiros fundamentais desconhecidos em seu próprio país”, crítica. “Nesse sentido, políticas de incentivo cultural são essenciais para vencer esta situação.”

Ao realizar os projetos, Afonso Carvalho tem sentido o impacto da proposta sobre os artistas. Martinho da Vila chorou ao ver o trabalho pronto. “Zeca Pagodinho me disse que o Samba Book o fez ele descobrir que era um artista importante. Palavras de alguém que já tem tudo se reconhecendo como compositor.” Para Carvalho, ouvir essas coisas tem sido emocionante. “Não há dinheiro que pague.”

Em tempo: faz parte do Samba Book um aplicativo que pode ser baixado gratuitamente e inclui uma seção Aprenda a Tocar. Ele permite apagar um instrumento (e deixar os demais tocando), de modo que o ouvinte pode tocar junto com a banda que acompanha o artista.

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