Sertanejos investem no corpo malhado e em shows com muito rebolado

Para conquistar o concorrido mercado, cantores capricham no visual

por Cecília Emiliana 12/07/2015 00:13

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Márcia Tavares/Divulgação
O cantor sertanejo Roberto Maia (foto: Márcia Tavares/Divulgação)
Fã de música sertaneja, a aposentada Aparecida Duarte, de 61 anos, até fecha os olhos quando ouve, no rádio ou em sua velha vitrola, a canção Fio de cabelo, sucesso composto por Darcy Rossi e eternizado por Chitãozinho & Xororó em 1982. “Aquele fio de cabelo compriiiido já esteve grudaaado em nosso suooor!” – canta a senhora, na área de serviço do apartamento onde mora com o filho, a nora e duas netas.


Ludmila e Lorena Duarte, de 16 e 12 anos, respectivamente – as netas de dona Aparecida –, compartilham com a avó o gosto pelo mesmo gênero musical. A diferença é que o som que sai dos smartphones das adolescentes nem de longe chora pitangas como aquele que emociona a avó delas. “A onda agora é tirar foto, ficar sério, sem gracinha! É sem risadinha! É sem risadinha!”, cantarolam as garotas, enquanto se deleitam com fotos e vídeos (arquivados em seus aparelhos) do intérprete da música, o cantor Roberto Maia.


Maia é um dos recém-chegados ao estilo sertanejo universitário, que tem representantes como Lucas Lucco, Erick Montteiro, Luan Santana, Munhoz & Mariano. Todos eles sabem que, para conquistar a geração de Ludmilla e Lorena, não bastam gogó de ouro, bom repertório e calça justa – artifícios de que se valeram estrelas countries que os antecederam, como Zezé di Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo. É preciso também ter rebolado – de preferência num corpinho turbinado, com uma boa camada de músculos à mostra.


Usar a aparência e a sensualidade para seduzir e angariar fãs está longe de ser uma tática nova no universo do showbiz. Que o diga Elvis Presley (1935-1977), o astro do rock que dizia ser preciso “rebolar para atrair uma multidão”. No segmento sertanejo, contudo, a atmosfera não costumava ser tão sexy.


“A mulherada gosta!”, admite sem pudor o cantor mineiro Erick Montteiro. Aos 27 anos, ele embala plateias ao som de hits como 15 mil por mês, em cujo clipe (com mais de 1 milhão de acessos no YouTube) se apresenta sujo de graxa, dentro de um macacão de mecânico entreaberto, no melhor estilo “diamante bruto”.

ESTÉTICA
“Acho que as mulheres têm cobrado mais esse cuidado com a estética masculina. E isso faz bem para a gente mesmo, para a autoestima”, diz o caubói moderno, que cumpre, em média, agenda de 16 shows mensais.
Contratado da Talismã Music, selo de propriedade do astro Leonardo, Montteiro tem pelo corpo o mesmo zelo dedicado à voz: malha quatro vezes por semana, além de seguir, com disciplina, uma dieta controlada, sem doces e refrigerantes. A rotina espartana pode ser acompanhada pela rede social Instagram, em que ele posta várias selfies e poses na academia, sempre com recados carinhosos para as mais de 19 mil fãs-seguidoras – ou “princesas”, como ele gosta de chamá-las.
Como se estivessem à beira do palco, as fãs do cantor se derretem nos comentários. Românticas, claro, mas também bem saidinhas: “Êta bicho gostoso!”, chegou a sapecar uma admiradora do sertanejo numa foto em que ele aparece sem camisa. Embora goste do assédio e o cultive, Erick afirma que não é apenas um rosto bonito sobre um corpo sarado. “Nasci artista, sou autodidata e tenho paixão pela viola. Meu sucesso não vem do meu corpo, vem da minha voz. Mas é claro que o corpo bacana valoriza o conjunto da obra”, pondera.


Dono de um rosto de feições angelicais e físico de Adônis, Roberto Maia, de 29 anos, é outro aspirante ao Olimpo do sertanejo universitário. Aliou a beleza e a voz empostada à internet para subir os degraus da fama e do sucesso. Em vez de distribuir gravações demo a produtoras ou bater à porta de emissoras de rádio e TV, como fazem muitos dos que estão em busca do estrelato, Maia deu os primeiros passos de sua carreira nas redes sociais, sobretudo no Facebook e no YouTube, onde postava vídeos cantando e sensualizando.


Em pouco mais de um ano, o cantor alcançou cerca de 1 milhão de fãs no Facebook e algumas centenas de milhares de curtidas em gravações postadas no YouTube. Com essa marca, decidiu arriscar um show ao vivo, estratégia que foi até mais bem-sucedida do que ele esperava. “Graças a Deus, as fãs que conquistei virtualmente lotaram meu primeiro show, que foi no Villa Country, em São Paulo. Meu público tinha aproximadamente 2 mil pessoas. Desde então, essa plateia tem me acompanhado pelos palcos do Brasil inteiro”, comemora o sertanejo, que, atualmente, faz cerca de oito apresentações por mês.


Apesar de abusar dos modelitos que deixam braços e tórax à mostra e colecionar ensaios fotográficos com muitas poses e carrões, Maia se incomoda quando sua pinta de modelo é enfatizada pela imprensa ou pela crítica.“Malho desde os 14 anos, mas é, antes de tudo, porque  gosto e também por uma questão de saúde. É claro que a aparência é um cartão de visitas, mas às vezes ela me prejudica, porque tenho que ficar provando o tempo todo que tenho talento. No Brasil, parece impossível, na cabeça das pessoas, que alguém seja bonito e talentoso. Não quero me destacar pela beleza. Quero sobressair com o meu trabalho”, desabafa o jovem. Mantendo, é claro, quatro ou cinco botões da blusa abertos, sempre que tem plateia.



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