O samba mostra força em Minas

Em cerca de 60 anos, estado construiu formidável acervo cultural que fez com que seja reconhecido como importante centro produtor de arte

por Walter Sebastião 05/07/2015 14:35

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Tino Fernandes resgata tradições do samba em letra e música
(foto: Tino Fernandes resgata tradições do samba em letra e música)

Sempre vale lembrar que Belo Horizonte tem uma característica única no contexto brasileiro: capital com pouco mais de um século de existência, em cerca de 60 anos construiu formidável acervo cultural que fez com que seja reconhecida como importante centro produtor de arte. E que traz a sensação de contemporaneidade e modernidade singular, cujo fundamento seria a revisão crítica das tradições. Estética exercida, com escalas diferentes, em todos os setores, da arquitetura às artes visuais, literatura, design e teatro. E tem um palanque especial: a música, toda ela, da produção para concerto ao pop-rock, passando pelo chorinho e o jazz mineiro.

É nesse cenário que, nos últimos anos, um personagem vem marcando presença regular, hoje em momento particularmente feliz: o samba. A produção tem provado qualidade digna de nota, se inserindo entre o que de melhor se faz em Belo Horizonte. Produto de processo puxado por artistas que atuam profissionalmente há mais de uma década, articula compositores, intérpretes, instrumentistas e arranjadores, todos colaborando uns com os outros. Isso tem se revelado ao divulgar o que fazem, seus CDs, internet, shows, blocos carnavalescos e rodas de samba (e saborosas feijoadas). Chama a atenção a consideração da turma pelos veteranos, troca e retribuição de afeto e ensinamentos.

O que se tem escutado nos discos é produção que trabalha as várias vertentes do samba, atenção à forma que vem acompanhada de consideração pelos conteúdos. São composições e interpretações que valorizam a beleza das melodias e afirmam a história e a força do gênero musical não só como arte, mas como ensinamento de vida. Em diversos registros, desde a exaltação até a crônica bem-humorada do cotidiano, passando por interpretações que cultivam a busca de identidade, seja pessoal, estética ou regional. Muitos trabalhos apresentam um elemento inesperado: uma audição popular do feito pelo Clube da Esquina, elemento que aparece somado a outros aspectos – evitam-se experimentações, ainda que elas existam.

O samba feito em Belo Horizonte vem conquistando o público. Basta lembrar que o bloco da cantora Aline Calixto estremeceu a Avenida Getúlio Vargas no último carnaval. A boa acolhida também revela um “rombo” da vida cultural de Belo Horizonte (e de Minas Gerais): a ausência de instituição, projetos e coleções que ofereçam a chance de superar a dispersão que faz do setor musical uma gigantesca galeria de ilustres anônimos. Pode-se afirmar que a pesquisa metódica na área musical em Minas Gerais ainda está (ou mal chegou) aos séculos 18 e 19. O desafio não é formar “consumidores”, mas ampliar o número de ouvintes que tenham apreço pela arte.
Naty Torres/Divulgação
Repertório de Marina Gomes reúne novos e antigos compositores (foto: Naty Torres/Divulgação )

Beleza pura
Uma joia entre os discos recém-lançados é O samba é meu guia, primeiro disco de Marina Gomes (foto), mineira de Divinópolis, de 32 anos, que chegou a BH em 2001 para estudar. Dá perfeita harmonia em todos os aspectos em um disco belíssimo. O repertório reúne compositores novos e antigos, além de produção da cantora. Um sólido grupo instrumental e bons arranjadores (Gabriel Goulart, Leonardo Brasileiro e Alexis Martins) dão à cantora suporte e ambiência eficaz para que ela exiba toda a beleza de seu canto. O disco é tão bonito que fica difícil escolher uma faixa. Comove Canto de fé (de Dé Lucas e Marina Gomes) e Ai ioiô (tema tradicional que ganha interpretação deslumbrante em faixa que tem a presença do violonista Thiago Delegado e do cavaquinista Warley Henrique.

Samba sacramentado, terceiro CD de Tino Fernandes (foto), resgata tradições do samba em letra e música e evoca autores que construíram o gênero. Natural de Divinópolis, dedicou-se à música regional, que é o berço dele, o que se percebe nas entrelinhas das composições. O CD é mais do que reunião de sambas bons, fortes e de corte clássico. Como cada faixa é cantada por um artista, oferece um panorama de intérpretes, muitos ainda pouco conhecidos, e as interpretações são um show. Difícil destacar uma delas. Pode ser Fernando Bento cantando Silêncio sete cordas. Ou Carla Gomes em Batucandear. Mas tem mais gente que impõe respeito: Mandruvá, Ricardo Barrão, Manu Dias, Vagno Pico, Sérgio Pererê, Dona Jandira e Alexandre Resende. O CD é um ótimo cartão de visita da comunidade do samba.

 

Alma popular

Autenticidade é a palavra exata para definir o ótimo Tudo começa num samba, primeiro disco de Pirulito da Vila (foto). Ele é cantor e compositor, tem 38 anos e nasceu em Itabirito, onde trabalha como vigilante. É dele (e de Márcio Nagô) o belo samba Meu protetor, que abre o CD de Marina Gomes, só uma de diversas gravações de colegas e conterrâneos do compositor. O encanto que a música desperta vem da extraordinária fluência das composições de Pirulito, partidos-altos envolventes que, em vários aspectos, são afirmações da grande arte de alma popular. As letras fazem crônica do cotidiano com olhar satírico ou de saudade da vida interiorana. Impossível resistir ao balanço de Somos tradição e Samba diferente ou à comicidade de Chora Zé.

Ramon Lisboa/EM/D.A  Press
Novo trabalho de Thiago Delegado extrapola o contexto do samba (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press )
 

Sofisticação

Quem ainda não ouviu Viamundo, de Thiago Delegado, não sabe o que está perdendo. É genial, entre o que há de mais arrojado na música feita em BH. O disco extrapola o contexto do samba. Mas o suingue da remota batucada é referência forte na obra do autor e até no modo de ele tocar. O disco revela que o samba também dialoga com outras estéticas, como o jazz, o instrumental contemporâneo (com sua rasura de gêneros), folclore, marchinhas, frevos e temas carnavalescos. A enorme sofisticação do disco, de ponta a ponta, em todos os aspectos, é evidência do requinte estético e perícia musical de instrumentistas que conhecem bem o mundo e têm participação no samba feito em Minas, do qual Thiago pode ser um exemplo. Destaques: Caricas total e Terreiros do Brasil.

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