Queda de braço entre Taylor Swift e Apple evidencia poder da pop star

Na semana passada, a cantora fez críticas a multinacional, que se recusou a pagar artistas durante o período de teste do novo serviço de streaming da marca. 'Nós não pedimos iPhones de graça a vocês', escreveu

por Mariana Peixoto 28/06/2015 06:00

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ARTE DE VALF SOBRE FOTO DE JASON MERRITT/GETTY/AFP
(foto: ARTE DE VALF SOBRE FOTO DE JASON MERRITT/GETTY/AFP)
A resposta para a pergunta do título é uma só: a Apple. Pois a loirinha de 25 anos, autora de canções doces, cara de anjo e com seu 1,78m sempre seguido de perto por uma multidão de fãs (seja física ou virtualmente), deu uma rasteira no gigante mundial da tecnologia. Ela disse não à empresa de Tim Cook. E a grande maçã voltou atrás. Uma novela e tanto, que mostrou como a discussão da música digital ainda deve render muitos capítulos.


Retrocedendo: através do post “À Apple, com amor, Taylor”, publicado domingo passado em seu Tumblr, a cantora afirmou que manteria seu mais recente álbum, 1989, fora da Apple Music. Para quem ainda não sabe: depois de amanhã, a Apple vai lançar em 100 países (Brasil incluído) seu serviço de streaming para competir com Spotify, Deezer, Rdio e afins. Durante 90 dias, definido como o período de teste, o serviço será gratuito para os consumidores.

Taylor Swift criticou o serviço porque ele não pagaria os artistas em seu período de teste. “Nós não pedimos iPhones de graça a vocês”, escreveu. Pois no mesmo domingo a empresa cedeu. Vice-presidente de software de internet e serviços da Apple, Eddy Cue fez o anúncio de que a empresa tinha decidido pagar os artistas desde o primeiro dia do Apple Music. Tudo, como manda a cartilha atual, via redes sociais, ao olhos (e retuítes) de milhões.

Ao longo da semana, não faltaram aqueles que dissessem que o imbróglio nada mais era do que uma estratégia de marketing para o lançamento do novo serviço. Pois na última quinta-feira, Taylor recuou e, por meio de sua conta no Twitter (leia-se: 59,4 milhões de seguidores), escreveu: “Depois dos eventos desta semana, decidi colocar 1989 no Apple Music... E estou feliz por isso. Caso você esteja se perguntando se isso é algum acordo de exclusividade como viu a Apple fazer com outros artistas, não é”.

O disse me disse virtual serviu para elucidar duas questões: na indústria da música pop não existe hoje um nome tão importante quanto o de Taylor Swift, que carrega o título de artista que mais vendeu álbuns digitais em todos os tempos. O outro ponto é que o debate entre artistas, produtores e empresas de tecnologia promete ir longe.

QUALIDADE “Estamos no melhor momento da indústria em 10 anos. Depois de passarmos por tudo, como resistência e culto à gratuidade, finalmente o Brasil conta com uma qualidade legal de ofertas de plataformas de música. No ano passado, o consumo digital chegou a quase 50% do total de música consumida no país. Estamos num ano decisivo”, afirma Marcelo Castello Branco, um dos mais experientes executivos do mercado brasileiro. Foi presidente da EMI e Universal e hoje é consultor de negócios de plataformas digitais e crowdfunding. Foi ele quem levou todo o catálogo de Roberto Carlos para o Spotify.

Para Castello Branco, a chegada, ainda que atrasada, da Apple ao streaming vai provocar uma reviravolta no mercado, que é dominado pela sueca Spotify, hoje com 20 milhões de assinantes em todo o mundo.

O Google se adiantou e, uma semana antes da Apple, lançou uma estação de rádio gratuita (por ora só disponível nos EUA), que vai disputar seu lugar ao sol no mercado de música em streaming.

A popularização do streaming levou artistas, pequenos e grandes, com gravadora e sem, a transferir seus catálogos para as plataformas. Mas a remuneração ainda é ínfima, eles garantem. “Nossa receita vem basicamente dos shows”, afirma Hélio Flanders, vocalista da banda mato-grossense Vanguart. “A gente ganha algo muito irrisório (com o streaming), nem sei dizer o que recebi.”

Músico cria da internet, o carioca Cícero disponibilizou gratuitamente seus três álbuns em seu site. Caiu no gosto do público e hoje já consegue fazer shows, seu ganha-pão, em todas as capitais brasileiras. Atualmente distribuído pela DeckDisc, ele também pode ser ouvido nas plataformas de streaming. “A circulação gratuita da internet é uma realidade alheia à vontade dos artistas. Por mais que se possa controlar, as músicas vão circular pelo YouTube e sites de transferência de arquivos. O que faço é tentar me posicionar neste quadro. Entre o meu disco estar gratuito ou vinculado a um portal de streaming qualquer, prefiro o meu site, já que ele é como se fosse a minha casa.”

AUTONOMIA Os mineiros do Graveola têm um caminho semelhante. Os álbuns da banda foram disponibilizados de graça no site do grupo. Recentemente, foi firmado um acordo com o selo Mais Um Discos, que faz a distribuição da banda fora do Brasil. “Mantivemos a autonomia no Brasil e eles utilizam as plataformas digitais fora. Ainda estamos no processo de tentar entender qual o jeito de sensibilizar o ouvinte, de ele pagar algo, mesmo que simbólico, pela música. As pessoas perdem a noção de todas as etapas da produção de um disco, o que muitas vezes pede um investimento alto do artista. Nossa geração nasceu tendo o ao vivo como principal fonte de renda, o negócio dos direitos autorais muitas vezes só é discutido pelos grandes da arrecadação. As bandas mais novas ainda têm dificuldade de entender o mercado, mas vejo um horizonte positivo”, afirma o vocalista Luiz Gabriel Lopes.

Para Castello Branco, é uma ilusão achar que um artista vai ser remunerado da mesma forma que 15 anos atrás. “Mas, potencialmente, o público é maior, pois é global. A expectativa é muito boa, mas a remuneração não vai vir em três anos. Se fizermos um paralelo com a TV por assinatura, hoje ela atinge 20 milhões de domicílios no Brasil. Se daqui a 10 anos o streaming tiver a metade desses assinantes, o mercado será praticamente do mesmo tamanho que o de 1997, um dos melhores para o meio brasileiro.”

Para além de streaming, cada qual busca seu quinhão no universo de uma maneira. Criada em 2009, a plataforma brasileira Pleimo tenta concorrer com os grandes internacionais oferecendo mais do que a audição de música. Os artistas podem gerenciar sua carreira, vender merchandising, fazer crowdfunding etc. O público pode consumir tanto a música (são 6 milhões de faixas disponíveis) quanto toda a memorabilia dos ídolos.

O tecladista Henrique Portugal, do Skank, tem sua página pessoal no Pleimo. “A indústria fonográfica usava um modelo de negócio que foi criado há 50 anos. As gravadoras divulgavam uma música, o fã ia para a loja para comprá-la e o vendedor dizia: ‘Eu tenho essa música, mas junto com ela tenho mais 10”. Então, o cara era obrigado a comprar o disco”, diz ele. Com o digital, o público pode comprar só uma faixa, o que fez a indústria entrar em colapso. “Hoje, o artista tem que pensar em outras maneiras de ser remunerado, (pensar) que o fã que gosta do trabalho também vai querer comprar algum produto dele ou até mesmo financiar o álbum.”

ELA É A NOVA RAINHA
Saiba por que devemos nos curvar a Taylor


<< Porque Madonna e Dave Grohl já o fizeram. A primeira disse que as músicas da loirinha não saíam de sua cabeça. O líder do Foo Fighters afirmou que estava obcecado por Taylor e dedicou duas músicas de um show recente a ela.

<< Porque ela coleciona uma lista de ex de fazer inveja. Da música: Harry Styles (One Direction), John Mayer e Calvin Harris, com quem circula atualmente. Do cinema: Jake Gyllenhaal, Taylor Lautner e Zac Efron. E várias de suas canções são inspiradas nesses relacionamentos.

<< Porque ela já ganhou sete prêmios Grammy, tornando-se a mais nova artista da música (25 anos) a receber o prêmio de álbum do ano.

<< Porque Taylor é a única artista da história que vendeu 1 milhão de cópias na semana do lançamento de três diferentes álbuns (Speak now, em 2010; RED, em 2012; e 1989, em 2014).

<< Porque num evento no Palácio de Kensington, o príncipe William convidou-a para acompanhá-lo no palco e juntos cantarem Livin’ on a prayer, com Jon Bon Jovi.

<< Porque ela é a primeira artista, depois dos Beatles, e a primeira mulher da história a permanecer por seis semanas ou mais com três álbuns consecutivos em primeiro lugar.

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