Em 'Dois na rede', Senise e Peranzzetta recriam versos com notas musicais

Melhor do disco é a habilidade da dupla em recriar temas já devidamente interpretados por canários e instrumentistas de várias gerações

por Kiko Ferreira 28/06/2015 06:00

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João Mauro Senise/divulgação
Gilson Peranzzetta relembra os saraus da infância (foto: João Mauro Senise/divulgação)
Caro ouvinte de música instrumental: que tal deixar solos que soam como malabarismos sem fim, a busca de timbres étnicos como desculpa para a falta de melodia e os truques de estúdio de lado e ouvir música inspirada feita por dois artistas adultos, afiados em 25 anos e 11 discos de parceria?

É o caso de Dois na rede, CD que apresenta 12 faixas registradas ao vivo pelo pianista Gilson Peranzzetta e o saxofonista e flautista Mauro Senise em 16 de outubro do ano passado, no Espaço Tom Jobim, no Rio de Janeiro.


A dupla defende cinco temas de Gilson, que considera Senise o melhor intérprete de suas músicas, e sete releituras de clássicos brasileiros. Mesmo nos temas próprios, as referências são várias. Braz de Pina, meu amor remete a saraus que o pianista presenciava nos primeiros anos de vida, no bairro de mesmo nome. Forrozim, um chorinho pra Zé Américo é um choro-jazz dedicado ao acordeonista e arranjador amigo de Peranzzetta. Bilhete pro Guinga homenageia o dentista mais musical do país. O Brasil exuberante, matéria-prima de Villa-Lobos e Jobim, reflete-se no cartão-postal Paisagem brasileira, que abre o álbum com uma exaltação do bem. E o saboroso frevo Dois na rede veio da história de pescadores, ouvida numa praia nordestina, sobre um casal fazer sexo numa rede – em pé.

O melhor do disco é a habilidade da dupla em recriar temas já devidamente interpretados por canários e instrumentistas de várias gerações. O crítico Roberto Muggiati lembra bem, no texto de apresentação, o chamado “protocolo Lester Young”. O saxofonista americano costumava dizer que, para improvisar bem, o instrumentista precisava prestar atenção nas letras. E andava sempre com um punhado de discos de Frank Sinatra e um toca-discos portátil na mala.

Dá quase pra ouvir os versos de Chico Buarque para a melodia de Edu Lobo na versão de A história de Lilly Braun. Ou ecos de Nana Caymmi cantando as palavras do pai em Só louco. Ou Vinicius batendo bola com Baden em Deixa. Além do Fernando Brant de Aqui oh, sobre o tema de Toninho Horta, há o Bôscoli inspirado de Canção que morre no ar (Carlos Lyra). Mas a faixa mais emocionante é versão de sete minutos de Jura secreta, de Sueli Costa, em que os versos de Abel Silva ecoam com nitidez. De cortar os pulsos, no melhor sentido da expressão. No sentido de provocar dor e paixão, mesmo que o ouvinte não pensasse nas duas ideias e sentimentos antes de ouvir a interpretação com “i” maiúsculo de Senise e Peranzzetta.

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