Parceiros veteranos e recentes guardam canções inéditas de Fernando Brant

Novo CD do letrista, morto na última sexta, com Geraldo Vianna seria lançado em julho

por Ailton Magioli 17/06/2015 08:30

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Arte de Janey Costa sobre fotos de Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press e reproduções de internet
(foto: Arte de Janey Costa sobre fotos de Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press e reproduções de internet)
“Dori, aí vai a letra que escrevi sobre a Serra do Espinhaço, onde passei parte importante da minha infância, em Diamantina. Gostaria, além de ter sua opinião, de saber se você libera aquela outra ('A música e o circo') para que o Tavinho Moura possa musicá-la. Aguardo notícias.”

A mensagem, enviada por Fernando Brant, no último dia 19 de maio, a Dori Caymmi, selava a primeira parceria do letrista mineiro com o músico baiano. “Por enquanto, estou sem coragem de fazer a melodia”, diz Dori, abatido com a morte de Brant na última sexta, aos 68 anos, vítima de complicações decorrentes de um transplante de fígado.

O carioca viaja no próximo sábado de volta a Los Angeles (EUA), onde vive, levando a letra inédita do amigo (leia nesta página). “Primeiro, ele me enviou a do circo, que eu acabei pedindo para trocar por algo mais mineiro, já que eu sou 33% de Minas”, diz Dori. “Fernando é um poeta fantástico, um amigo. Toda vez que ia a Los Angeles com Milton, ele era o mais efusivo”, afirma, lembrando-se das rodas de cerveja e chope que costumavam embalar suas conversas.

“Aquela primeira fase de Fernando com o Milton é insuperável: 'Ponta de areia', 'Sentinela'”, lista Dori Caymmi. “Ninguém o superava aí”, diz, citando que até Milton Nascimento e Fernando Brant liderarem o Clube da Esquina, a música de Minas se limitava ao folclórico 'Peixe vivo', que Juscelino Kubitschek tanto cantou, além da obra de Ary Barroso, cuja parceria com Luís Peixoto foi a que mais teria se aproximado da mineiridade.

Apesar de protelar alguns dos projetos que vinha desenvolvendo, Fernando Brant deixou muito material inédito com os parceiros, sobretudo Tavinho Moura e Geraldo Vianna, os companheiros de trabalho mais constantes do letrista nos últimos tempos. Segundo Tavinho, além de um texto completo de um oratório ('Ó Deus salve o oratório'), o amigo deixou para ele musicar uma letra recente, sobre o trapezista e a música ('A música e o circo', inicialmente enviada a Dori Caymmi).

NETA

Brant também deixou com Tavinho a letra de 'Clara, Clara, Clara', música que fez em homenagem à neta de 8 anos. A canção deve constar do próximo disco do músico. “Alguns projetos nós acabamos protelando”, lamenta Tavinho. Geraldo Vianna, por sua vez, acabou tendo de adiar o lançamento do disco Geraldo Vianna e Fernando Brant – 15 anos de parceria, inicialmente agendado para o próximo dia 5 de julho, no Museu de Arte da Pampulha (MAP).

O repertório de 10 canções, interpretadas por Mariana Brant, sobrinha de Fernando, inclui as inéditas 'O beijo' e 'Pavana (Clara é luz)'. “Sugeri que fizesse a letra da 'Pavana', de Gabriel Fauré, que Fernando dizia ter ouvido muito na década de 1960”, conta Geraldo, que conheceu o letrista, ocasionalmente, em 1987, depois de Fernando Brant bater em suas costas, dentro de uma agência dos Correios, perguntando se tinha uma caneta para emprestar.

Oficialmente, no entanto, o músico foi apresentado ao letrista por Tavinho Moura, em 1989, no célebre Bar Brasil, da Rua Aimorés, no Bairro Funcionários, que se tornou uma espécie de point oficial da turma do Clube da Esquina em Belo Horizonte. Desde então, além de escrever e declamar um poema no documentário Violões de Minas, que Geraldo Vianna produziu e dirigiu, Fernando Brant inaugurou a parceria com o músico em Chico Rei, espetáculo de dança inspirado na obra de Agripa Vasconcelos.

Foi Fernando quem levou o novo parceiro para a União Brasileira de Compositores (UBC), além de participar do disco-show Três estações – Caymmi, ao lado de Geraldo Vianna e do Trio Amaranto, em homenagem ao músico baiano. O disco foi gravado, ao vivo, no Teatro Alterosa. Ultimamente, além de visitar juntos locadoras de vídeos e DVDs em fase de fechamento, para a compra de acervo, os dois planejavam um musical sobre a história de São Francisco, cuja gravação estava planejada para outubro, mês do franciscano e do aniversário (dia 9) do letrista. O projeto era inspirado no livro I Fioretti – Fantasia para um homem bom, sobre a vida do santo.

“Desde Travessia, eu via o posicionamento muito arrojado do Fernando, que era todo amparado no romantismo”, detecta Geraldo, que, não por acaso, pediu ao parceiro que musicasse a inédita O beijo. “Fernando sempre teve a verve política muito clara. Ele sempre viveu o presente, mas, na poesia, tinha uma forma muito especial de abordar os temas, desde o político ao romântico. A valorização de questões como amizade e família é presente em suas letras desde o início.”

Grandes nomes gravam CD-tributo

Produtor e arranjador do CD Vendedor de sonhos, com o qual planejava comemorar no ano que vem os 70 anos de vida do tio Fernando Brant, Robertinho Brant, de 47, diz que o projeto, que também inclui um livro com o cancioneiro do artista, acabou ganhando uma dimensão maior com a morte de Brant. “Com as gravações inéditas de artistas de renome, queremos destacar a dimensão nacional e internacional do trabalho de meu tio”, diz ele, que já tem gravadas faixas do álbum, que deverá se tornar duplo.

Milton Nascimento ('O medo de amar é o medo de ser livre'), Dori Caymmi ('Sentinela'), Djavan ('Milagre dos peixes'), Beto Guedes ('San Vicente'), Samuel Rosa ('Paisagem da janela)' e Fernanda Takai ('Vevecos, panelas e canelas') já gravaram suas respectivas faixas. No mês que vem, estão previstas gravações com Maria Rita ('Vida'), Luiz Melodia ('Aqui é o país do futebol') e Joyce ('Saudades dos aviões da Panair'). “Outros artistas serão convidados a participar da homenagem”, diz Robertinho Brant. Segundo ele, no cancioneiro, além de cerca de 150 canções, haverá textos inéditos de Brant sobre algumas canções e fotos de “uma vida inteira”.

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