Coletivo Mulambo pinta versos de Fernando Brant em BH

Em homenagem ao compositor mineiro morto na última sexta-feira, integrantes cobrem escadaria do Santo Antônio com trechos de suas letras

por Sandra Kiefer 16/06/2015 08:57

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BETO NOVAES/EM/D. A. PRESS
Integrantes do Mulambo desistiram de esperar autorização da prefeitura e, no sábado passado, grafitaram degraus de escada em homenagem a Fernando Brant (foto: BETO NOVAES/EM/D. A. PRESS)
No sábado pela manhã, com a notícia da morte do compositor Fernando Brant, ocorrida na noite anterior, os jovens grafiteiros do Mulambo Coletivo decidiram que esperar não é saber. Com os apetrechos usados para espalhar suas mensagens pela cidade, foram até a escadaria localizada na altura do número 901 da Avenida Prudente de Morais, no Bairro Santo Antônio, e revestiram seus 108 degraus com versos de canções de Brant como 'Maria, Maria' (“Essa estranha mania de ter fé na vida”), 'Nos bailes da vida' (“Todo artista tem de ir aonde o povo está”) e 'Para Lennon e McCartney' (“Sou do ouro, eu sou vocês, sou do mundo, sou Minas Gerais).

O Mulambo Coletivo diz que vinha negociando desde janeiro com a prefeitura autorização para pintar a escada. A decisão de homenagear Brant afastou o propósito de esperar o aval administrativo. “A prefeitura ainda não sabe como lidar com a gente. Para desvincular das pichações, não fazemos nada escondido. Paramos o carro com pisca-alerta ligado, no meio do dia e levamos o material já preparado em casa, com estêncil e letras de forma. É tudo feito na maior cara de pau”, diz o filósofo e educador Vítor Vasques, de 29 anos.
 
Veja vídeo do grafite na escadaria:
 
 
“Vou intervir no dia a dia de alguém, sem pedir permissão. É minha forma de demonstrar carinho por nossa cidade, pelo lugar onde a gente vive”, afirma Antônio Horta, de 26 anos, mais conhecido como Bill, fundador há um ano e meio do Mulambo Coletivo, um dos diversos grupos formados em sua maioria por jovens que se uniram em torno do ideal de ocupar a cidade e, assim, devolver aos cidadãos a sensação de pertencimento ao espaço urbano. “Você praça, acho graça/Você prédio, acho tédio”, pregam os autores desses “atentados poéticos”, que se espalham por outras capitais do país.

Formado em letras pela UFMG, Bill é o autor de outra dessas intervenções artísticas, reproduzida em até 30 lugares de BH: “Ir por onde flor”. “Quis despertar nas pessoas a importância de voltar os olhos para onde haja flor, delicadeza, beleza, amor”, explica o poeta das ruas, que é responsável também pelo “Meia noite-me” grafitado na fachada de uma casa vermelha da Avenida do Contorno, prestes a ser demolida. Ele conta que se inspira em poetas como Paulo Leminski (“Palpite: o grafite é o limite”) e Mario Quintana (“Não tenho paredes, só tenho horizontes”).

A “tatuagem” dos versos de Brant na escadaria do Santo Antônio agradou quem a viu acontecer. “Mudou o clima da minha ‘casa’. Ficou mais alegre. Show de bola!”, elogiou o lavador de carros Paulo, de 38 anos, que improvisou sua moradia no vão das escadas.  “Por favor, pintem outras escadas. É indispensável dar um colorido ao concreto das cidades, que são todas cinza”, disse o oficial do Exército na reserva Sérgio França, de 60 anos, nascido no Santo Antônio.

“Ao pintar poesia nos muros, a gente acredita que está despertando reflexões nos moradores de BH, além de proporcionar uma sensação de conforto a quem está passando pela rua, a pé ou de carro”, diz Ana Nicácio, que teve participação ativa no último carnaval belo-horizontino, no bloco Então, brilha!. Ela criou coletivamente a ideia de embelezar a cidade, plantando mais flores e árvores frutíferas. É o caso do canteiro de girassóis dentro do posto de gasolina, que chama a atenção de quem passa pela Avenida do Contorno, no lado oposto ao McDonald’s, na Floresta.

Os trabalhos na escadaria com os versos de Fernando Brant, que morreu aos 68 anos, de complicações decorrentes de um transplante de fígado, contaram com a ajuda de Leonardo Duarte, de 27 anos, que ofereceu uma lata de tinta, sobra de outros trabalhos realizados no entorno da cidade. Duarte é um dos autores dos oásis urbanos, recentemente ativos em cidades da Região Metropolitana de BH, como Raposos. “Nosso coletivo parte da premissa de que queremos construir, aqui e agora, o melhor mundo com que podemos sonhar. Em Raposos, buscamos ouvir quais eram os sonhos da comunidade para gerar transformação. No mutirão de dois dias, conseguimos reformar uma praça, revitalizar o campinho de futebol e fazer a limpeza do riacho, entre outros”, diz Duarte, que se tornou membro dos Global Shapers, jovens líderes recrutados pelo Fórum Econômico Mundial, com o objetivo de executar microrrevoluções em suas comunidades.

Os coletivos são ideias irmãs da chamada Praia da Estação, que surgiu há aproximadamente cinco anos, quando a administração do prefeito Marcio Lacerda determinou a fixação de correntes em volta da Praça da Estação, na tentativa de proteger o Museu de Artes e Ofícios. Desde então, em dias de calor, os jovens se organizam pelas redes sociais para ocupar o local. Descem de maiô e sunga para o imenso concreto da praça, instalando guarda-sóis e toalhas de praia. Bebem uma cerveja, trocam ideias e produzem novas sementes, com a melhor das intenções. Em resumo, fazem as suas revoluções.

Atentados poéticos se espalham pela cidade

Belo Horizonte anda sendo ocupada por frases líricas, curtas e cheias de rara inspiração. Elas estão em todos os lugares. E são efêmeras. Existem hoje, mas amanhã podem ter sido apagadas. Permanecem, porém, na memória de cada um. Se um de vocês já tiver visto, irá–, com certeza, se lembrar delas, pois causam uma forte impressão. É o caso, por exemplo, da despretensiosa “Dê lírios”, de duplo sentido, que faz delirar motoristas presos no constante congestionamento da Rua Leopoldina, quase chegando à Avenida do Contorno, no Bairro São Pedro. Para perceber melhor o verso, estampado no muro de uma esquina, é preciso estar na faixa da direita de quem desce em direção à Região da Savassi.

Diferentemente das pichações, que impõem seus rabiscos para marcar território, com o objetivo de agredir, os chamados “atentados poéticos” são democráticos e servem para agradar aos moradores da capital. Em comum, ambos conservam o aspecto subversivo, no sentido de tentar impor uma ideia ao grupo.

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